• Dilvo Ristoff

No meio do caminho havia um ofício


Eclipse solar. Foto: Wix.

A gente sabe que os países mais desenvolvidos são aqueles que apostam e investem na ciência.

− Jaqueline Goes de Jesus, em entrevista a André Biernath.


A recente ação do Congresso Nacional, que conseguiu a façanha de transformar os R$ 690 milhões originalmente destinados ao Ministério da Ciência e Tecnologia em míseros R$ 55,2 milhões, é de fazer chorar todos os que defendem a universidade como instituição voltada à produção e à disseminação do saber. A proposta de liberação dos R$ 690 milhões, que beneficiariam especialmente os pesquisadores do nosso Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tramitava tranquila pelos escaninhos do parlamento até surgir um ofício no meio do caminho.

O ministro da Economia, aquele mesmo que gosta de falar pelo Ministério da Educação e que tem repetidamente vociferado contra as universidades públicas – essas instituições que, segundo ele, ensinam sexo para crianças de 5 anos, que estão contaminadas pela ideologia comunista de Paulo Freire e que agora, para seu horror, também aceitam filhos da classe trabalhadora –, desta vez voltou-se contra o Ministério da Ciência e Tecnologia e fez desaparecer o crédito suplementar que viria assegurar o pagamento de bolsas aos pesquisadores de nossas universidades. Bastou um ofício e cerca de 90% dos recursos previstos foram para o espaço – espaço onde o nosso ministro astronauta não estava.

Segundo Fernanda De Negri, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2013 foi o ano em que o Brasil atingiu o ponto mais alto no investimento em ciência e tecnologia, R$ 27,3 bilhões. Em 2020, esse valor estava em R$ 17,2 bilhões. Descontada a inflação, a perda real equivale a 37%. Segundo a pesquisadora, isso significa dizer que os investimentos em C&T são hoje menores que os de 2009.

Saudades de Lula e Dilma à parte, se já era desagradável ter que curar as feridas deixadas pelos cortes profundos dos últimos anos, esse corte específico, agora no crédito suplementar, que dava alguma esperança aos pesquisadores brasileiros de poderem continuar com alguns de seus projetos, representa a pá de cal sobre um setor estratégico para o país. Para qualquer país!


Essa ação do Ministério da Economia mostra o escárnio do atual governo para com o papel histórico da Universidade, o de identificar talentos para a pesquisa, de formar mestres e doutores altamente qualificados e de conduzir estudos avançados, que são a alma de toda a boa formação e que representam a última trincheira capaz de proteger o país da excessiva dependência externa.


Como nos lembram os bons exemplos mundo afora (países que valorizam a contribuição da ciência para a construção de seu futuro), a consolidação de uma nação soberana, democrática, inclusiva, emancipadora e sustentável não pode prescindir de uma sociedade avançada nas ciências, nas artes e nas tecnologias. E isso, por sua vez, depende diretamente de um forte sistema público de educação superior. Diante do que estamos vendo, ouvindo e vivendo nos últimos cinco anos, fica evidente que os ingredientes necessários para consolidar a soberania nacional e fortalecer o sistema educacional estão ausentes. Fica-se a cada dia que passa, a cada corte no orçamento, a cada contingenciamento, a cada redução no número de bolsas de iniciação científica e de pós-graduação com mais certeza de que as políticas públicas para a educação e a ciência estão sendo conduzidas ou por pessoas despreparadas para a função ou por quintas-colunas, inimigos enrustidos com interesses offshore. O que mais se pode deduzir quando autoridades do governo tratam com descaso a educação, ofendem dia sim e outro também os docentes, menosprezam os cientistas, desrespeitam artistas, poetas e escritores, desvalorizam a pesquisa nacional e, ao pregar a superstição acima de tudo e todos, roubam nosso futuro e relegam o país ao status de pária do mundo civilizado?


Acabo de ser informado pelo professor Buck Goldstein, da Universidade da Carolina do Norte, que a sua instituição prestará homenagem ao Dr. Ralph Baric por seus anos de trabalho paciente, dedicado ao estudo dos coronavírus – pesquisa que pavimentou o caminho para o desenvolvimento de tratamentos e vacinas da Covid-19. Note-se que não foram poucos dias, nem meses, mas anos, muitos anos, para ser mais preciso, três décadas dedicadas a esse trabalho. Quem não ouve as vaias de desprezo aos imediatistas de plantão!?


Logo me lembrei da nossa Jaqueline Goes de Jesus, mulher, negra e nordestina, biomédica, formada pela Universidade Federal da Bahia, que se tornou celebridade nacional, personagem da Turma da Mônica e boneca Barbie. Homenageada em vários espaços, juntamente com a sua equipe de pesquisadores, por mapear o sequenciamento do genoma do coronavírus em estonteantes 48 horas após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, a pesquisadora lamentou, em entrevista a André Biernath, publicada pela BBC, o pequeno investimento brasileiro em pesquisa e lembrou que "para fazer ciência no Brasil, a gente tem que se esforçar quatro vezes mais" do que no Reino Unido – país onde ela continua atualmente dando continuidade aos seus estudos. Será que ela e tantos outros pesquisadores brasileiros terão também os seus trabalhos reconhecidos por aqueles que ocupam postos no governo e que têm condições de apoiar a pesquisa brasileira? Ou será que de lá só ganharão como “prêmio” o corte de verbas e a redução de bolsas de pós-graduação e de pesquisa?


A julgar pelo que está ocorrendo no país, não chega a ser surpresa perceber que nossos pesquisadores estão empacotando as malas, em busca de novos ares em espaços que ofereçam boas condições de trabalho e que protejam os seus cientistas do bullying ideológico e escatológico de governantes negacionistas. A fuga de cérebros do Brasil para outros países, até recentemente considerada um problema menor, começa a se desenhar como tragédia nacional. Nas palavras de Jaqueline Goes, “a fuga de cérebros é, de fato, um fenômeno muito forte. Grande parte dos pesquisadores que eu conheço e que tiveram oportunidade de estudar fora, em países onde existe um investimento maior em ciência, fizeram isso”.


Com o país despencando ano após ano no ranking da competitividade por talentos, não será surpresa se daqui a alguns anos os Estados Unidos, o Reino Unido ou a Suíça conquistarem o Prêmio Nobel graças ao trabalho de pesquisadores brasileiros que ainda falem inglês ou alemão com forte sotaque.

Acompanha o e-mail do professor Buck Goldstein um texto do reitor da sua Universidade, Kevin Guskiewicz. Goldstein lembra que o reitor, no início de cada ano letivo, costuma ministrar, em parceria com outro docente, uma disciplina aos estudantes de pós-graduação. Neste ano, o tema foi “Professores do Futuro”, com foco no papel das universidades públicas. Pois, nesse seminário, Guskiewicz perguntou aos seus alunos: “Quantos de vocês conhecem o nome Stanley Prusiner?” Algumas poucas mãos foram levantadas.


O reitor então explicou que “Prusiner era um pesquisador na Universidade da California em San Francisco que trabalhou arduamente durante muitos anos numa teoria maluca sobre proteínas que causam doenças – um fenômeno desconsiderado pela maioria de seus pares no país. Era entendimento geral de que as doenças eram causadas por bactérias e vírus e que o enfoque de Prusiner nas proteínas parecia uma perda de tempo. Surgiu então a Doença da Vaca Louca e, repentinamente, todos queriam conhecer o trabalho de Prusiner. O obstinado Prusiner havia descoberto os príons – uma nova categoria de patógeno –, com grandes implicações sobre o mal de Alzheimer e outras doenças degenerativas. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Medicina por isso”.


Guskiewicz conclui seu raciocínio dizendo que, para cada ideia revolucionária – dessas que merecem o Nobel –, há muitas que não dão em nada. Embora isso possa ser de difícil compreensão para políticos e para o público em geral, movidos que são pelo imediatismo e o utilitarismo, essa é a alma da pesquisa. E, no mundo da pesquisa, precisamos entender que boa parte do investimento envolve algum risco, o que, segundo Guskiewicz, significa que nem sempre teremos os resultados esperados e que precisamos aprender a “tolerar caminhos errados, ideias controversas e ataques de ceticismo público”, pois, quando um projeto dá certo, os ganhos são sempre muito significativos para a sociedade como um todo, pois ajudam a fazer avançar o conhecimento e a melhorar a nossa capacidade de entender a vida e de zelar por ela.


A julgar pelas manifestações da Andifes, da SBPC e de outras entidades voltadas à pesquisa que têm se mostrado profundamente indignadas com os recentes cortes nos investimentos na educação e na pesquisa científica e tecnológica, o entendimento de Guskiewicz sobre o significado da pesquisa nas universidades públicas é também o entendimento de nossos reitores e pesquisadores.


Eu não sei o que você, leitor, pensa sobre isso, mas eu posso garantir que gostaria de ter um reitor que pensasse assim. E, claro, gostaria também de ter ministros que não se metessem a falar sobre o que não conhecem, que não cortassem verbas a seu bel-prazer e que defendessem com unhas e dentes a educação, a ciência, o meio ambiente, a causa da inclusão, a democracia e a paz social. Ah, sim, e gostaria de ter um presidente que fosse especialista em promover a vida. Infelizmente, por enquanto, há muitas pedras, ofícios e um governo no meio do caminho...


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.


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