• Ana Cristina Rosa

Nada será como antes



Passados quatro meses desde o início da suspensão das aulas presenciais por conta das medidas de emergência para conter o avanço da pandemia de covid-19, são graves e evidentes os efeitos negativos para o aprendizado dos estudantes brasileiros em razão da desigualdade social.


É inegável que o acesso à educação hoje passa pelo acesso à tecnologia. Mas também é incontestável que não estávamos preparados – e estruturados – para oferecer, de maneira universal, ensino não presencial aos estudantes brasileiros.


Dados do estudo 'A Educação Não Pode Esperar' apontam discrepâncias estarrecedoras no tempo de resposta das redes de ensino em relação à organização interna e à disponibilização de conteúdos pedagógicos aos estudantes, em atenção às medidas de distanciamento social. Enquanto algumas redes disponibilizaram conteúdos on-line já em março, dois meses depois, em meados de maio, cerca de 18% das escolas não haviam adotado estratégias para a aprendizagem a distância.


E o que é ainda mais grave: na ocasião, parte dessas instituições declarou não ter condições de ofertar – ou achar inadequado – conteúdos on-line. O trabalho, uma realização conjunta do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), do Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) e de 26 Tribunais de Contas brasileiros, foi realizado entre os meses de maio e junho últimos.


Além disso, o acesso à internet no Brasil está longe de ser algo ao alcance de todos. A pesquisa TIC Kids Online 2019, divulgada no mês de junho pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), indica que cerca de 4,8 milhões de crianças e adolescentes com idade entre 9 e 17 anos moram em domicílios sem acesso à internet. Desses, quase 1,5 milhão nunca acessaram a internet. Enquanto na classe A praticamente todos os estudantes (99%) têm acesso à internet, na rede pública urbana, composta majoritariamente por alunos das classes C, D e E, 39% dos estudantes não têm computador ou tablet em casa.


Evasão


Em condições tão diversas – e, para muitos, adversas – é difícil esperar similaridade no grau de aprendizado dos estudantes brasileiros.


Para completar, há também o temor da evasão escolar, especialmente entre estudantes das periferias. Em audiência pública realizada na última quinta-feira (9) na comissão mista que acompanha as políticas públicas adotadas durante a pandemia, especialistas apontaram que a evasão escolar pode aumentar em decorrência das mudanças causadas pelo coronavírus. Segundo o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), cerca de 30% das famílias temem que os filhos desistam da escola.

Essas constatações ajudam a consolidar a convicção de que ensino a distância e aulas on-line estão longe de ser a mesma coisa. No cenário atual, curiosidade, inclusão, disciplina, adaptação e pensamento crítico são conceitos-chave. Por isso é preciso estimular a construção de conhecimento por meio de aprendizagem remota em diversas modalidades além do on-line, a exemplo do estímulo à pesquisa e à solução de problemas.

Também é necessário efetivar a meta de universalização do acesso à internet em banda larga de alta velocidade prevista no Plano Nacional de Educação (PNE). Além disso, é fundamental desenvolver formas de ação integradas envolvendo diferentes tipos de mídia, como rádio, TV e redes sociais para tentar levar as atividades ao maior número possível de estudantes.

A tarefa é árdua e desafiadora. Porém, precisa ser enfrentada o quanto antes e de maneira continuada. Até porque, em meio à pandemia global, ao menos uma coisa é certa: nada será como antes.


* * *

Ana Cristina Rosa é jornalista. Em 30 anos de carreira, atuou como repórter de política no jornal O Estado de S. Paulo, editora-assistente na revista Época, repórter da revista Elle. Especializou-se em comunicação pública. Recentemente atuou como assessora-chefe de Comunicação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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