• Paulo Pinheiro

O silêncio nem sempre vale ouro

Atualizado: Ago 30



Em mais de 15 anos de docência, conheci vários professores que comentavam orgulhosos: "Hoje a aula foi um sucesso. A turma toda ficou em silêncio." É no mínimo curioso estar contente com tanta gente muda ao mesmo tempo. Mas será que esse tipo de comportamento valida uma boa aula? Essa é uma questão que merece uma discussão mais elaborada. Se o seu objetivo é uma aula dialogada, participativa, o silêncio não parece natural. É um fator criador de uma espécie de nervosismo palpável. Ele muitas vezes faz com que o professor siga falando sem parar, esperando ansiosamente a manifestação de um aluno. Em primeiro lugar, calma. Às vezes, silêncio é um bom sinal. Ele significa, por exemplo, um momento de reflexão. Em muitos casos, os estudantes precisam de um tempo para organizar seus pensamentos, especialmente quando se trata de temas complexos. Esse tempo para absorver um conteúdo é absolutamente natural. Não necessariamente significa que o aluno não compreendeu o que foi exposto. Ainda assim, se a sua aula demanda uma leitura prévia e por isso os alunos já chegam com um certo preparo para a discussão do tema, existe uma estratégia simples, mas eficaz. Aproveite para reservar um tempo no começo da aula, algo em torno de cinco a dez minutos, crie pequenos grupos e peça para os componentes escreverem sobre tópicos que consideram relevantes para serem discutidos em função do texto apresentado. Comentários encorajadores


Porém, existe outro motivo para os alunos ficarem em silêncio. A falta de estímulo. Só que o problema surge nos comentários feitos pelo professor. É preciso criar um ambiente no qual o erro seja tolerado. Muitas vezes, o estudante faz uma observação completamente desconectada do conteúdo proposto. Apesar disso, o professor deve agradecer ao aluno por compartilhar sua ideia e − este é o grande desafio − encontrar uma maneira de vincular o conceito de volta ao caminho correto da discussão. Por que esse movimento é tão importante? Ele faz com que os estudantes sintam-se confiantes para manifestar a sua opinião. Ao longo do tempo, é fácil criar um repertório de comentários encorajadores. Algo como: “Obrigado por seus pensamentos sobre o assunto. Mas, se você abordar o conceito de um ângulo ligeiramente diferente, verá que...”. Ou então: “Estou feliz que você trouxe essa ideia. Isso me lembra que uma de nossas preocupações aqui é na verdade... ” Outro detalhe importante. Separe um tempo, depois da aula, para conversar com o aluno que fez o comentário incorreto e discuta o assunto com ele. Isso reforçará que você deseja que as pessoas corram riscos com suas ideias em sala de aula, mas ainda assim está empenhado em ajudar seus alunos a entender o material corretamente.


Na sala de aula, o silêncio nem sempre vale ouro. Mas ele precisa ser entendido como parte do processo de aprendizagem. Se o ambiente correto for criado, os momentos de calmaria não vão deixar nem professores nem alunos ansiosos e preocupados.


* * *


Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".