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Boas práticas e casos de sucesso na educação

Os 200 anos da Independência do Brasil serão celebrados em 2022, mas somente com educação de qualidade − e para todos − é que seremos verdadeiramente livres.

 
 
  • Demétrio Weber

'Não fazemos ideia de que habilidades as pessoas precisarão', diz Yuval Harari

Em visita ao Brasil, o professor, historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari falou sobre o futuro da educação. "Pela primeira vez na história, não fazemos ideia de como estará o mercado de trabalho daqui a 30 anos e de que habilidades as pessoas precisarão", disse ele, no programa Roda Viva exibido pela TV Cultura no último dia 11.



Harari é professor de história na Universidade Hebraica de Jerusalém e autor do best-sellerinternacional Sapiens − Uma breve história da humanidade, além de Homo Deus − Uma breve história do amanhã e de 21 lições para o século 21, entre outros.


No Roda Viva, ele tocou numa questão-chave da educação: o que devemos ensinar às crianças na escola? "Por toda a história, prever o futuro sempre tem sido difícil, é claro − o que vai acontecer na política, e assim por diante −, mas, no tocante às habilidades básicas de que as pessoas precisam, a mudança era muito mais lenta, então, você sabia o que precisava ensinar à próxima geração. Mas agora não fazemos ideia de que habilidades as pessoas vão precisar em 2040 ou 2050", prosseguiu ele.

 

Reinvenção


Harari respondia a uma pergunta da diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Costin, ex-secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro. Ela havia feito referência ao impacto da inteligência artificial e da automação no mercado de trabalho, considerando que a escalada tecnológica levará à extinção de certos tipos de trabalho e dará lugar a outros.


xis da questão é que essas novas vagas exigirão habilidades e competências que os atuais trabalhadores não têm. Daí a indagação de Claudia: "Que sugestões o senhor traria para a educação das novas gerações, para poderem conviver com esse novo mundo?"


O entrevistado continuou seu raciocínio: "A única coisa de que temos certeza é que elas vão precisar continuar aprendendo e continuar se reinventando por toda a vida. Não é questão de aprender uma profissão aos 20 e poucos anos e trabalhar naquela profissão pelo resto da vida. Não, você terá que mudar várias vezes", afirmou. "Portanto, o mais importante é como ensinar às pessoas essa flexibilidade; como ensinar às pessoas que elas devem continuar aprendendo e continuar mudando por toda a vida. E isso é extremamente importante e extremamente difícil, porque mudanças são estressantes e, especialmente após uma certa idade, as pessoas não gostam de ficar mudando repetidas vezes. Mas, no século 21, isso será uma necessidade." 


Harari expôs o que considera um "insight vital" para se pensar a educação daqui para a frente: "Você não deve se concentrar numa habilidade em particular, por exemplo, 'Vamos ensinar às pessoas como programar computadores' ou 'Vamos ensinar chinês às pessoas'. Não. Precisamos ensinar as pessoas a serem mentalmente flexíveis." 


Desigualdade planetária


O historiador também abordou outro ponto levantado por Claudia Costin: a substituição dos atuais empregos por outros tipos de trabalho que exigirão novas competências, demandando o que Harari chama de "retreinamento". De acordo com o autor de 21 lições para o século 21, esse movimento tenderá a intensificar a desigualdade planetária, ampliando o fosso entre os países desenvolvidos e o resto do mundo. 


Nas palavras de Harari: "A outra questão vital é que precisamos pensar globalmente de novo, porque haverá uma grande diferença entre os diferentes países. Devido às mudanças no mercado de trabalho, as pessoas precisarão continuar aprendendo pelo resto da vida. O grande problema não será o desaparecimento de empregos. Haverá novos empregos. O grande problema será o retreinamento. Os países ricos terão recursos para retreinar sua mão de obra, mas esses recursos podem faltar nos países pobres, e a consequência pode ser que a revolução da automação beneficiará os países ricos, que já são ricos, ao mesmo tempo que arruinará completamente os países mais pobres."


Rede de proteção


O historiador defendeu a necessidade de uma rede de proteção social mundial: "No século 20, a grande vantagem dos países pobres era a mão de obra barata. O mapa da mina para impulsionar a economia, em países pobres − salvo terem muito petróleo ou algo assim − era a mão de obra barata. Mas a mão de obra barata não será tão importante no século 21, porque é a coisa mais fácil de ser substituída. Então a pergunta é: o que os países pobres vão fazer? Se não criarmos uma rede de segurança global, o que veremos é a revolução da automação criar uma riqueza imensa em alguns países, como a China e os EUA, que lideram essa revolução, e arruinar completamente as economias de países em desenvolvimento, que não podem retreinar sua força de trabalho com a rapidez necessária e não se beneficiam com a revolução da inteligência artificial."


A íntegra da entrevista de Yuval Noah Harari no Roda Viva, programa apresentado pela jornalista Daniela Lima e que conta com a participação de jornalistas e especialistas convidados, pode ser acessada aqui. A entrevista foi ao ar em 11 de novembro de 2019.

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Quem faz o blog

Demétrio Weber é jornalista, mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Violência e criador do blog Educa 2022. Acredita que a educação pode mudar o mundo.

Como repórter nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, entre 1995 e 2015, especializou-se na cobertura da área de educação.

Foi assessor de imprensa e consultor da UNESCO no Brasil. 

É autor, entre outros, do Guia do Ideb da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), dos capítulos 6 e 10 do livro Políticas educacionais no Brasil − O que podemos aprender com casos reais de implementação? e da reportagem More than money, failures of U.S. schools require new strategies, publicada no site do jornal The Washington Post.