• César Steffen

Não é por causa da covid-19



Já no final dos anos 1990 e início do século 21, o Ibope apontava queda na audiência da TV aberta e das rádios. O motivo não era a internet, apesar de a sua presença já estar afetando o cenário das mídias.

O principal motivo era o trânsito e os tempos de deslocamento e a popularização da TV a cabo, bem como a maior busca por ensino superior, que tomavam o tempo de consumo de mídia, especialmente à noite. Não por acaso os programas noturnos foram cada vez mais empurrados nas grades, a ponto de telejornais começarem quase à meia-noite, às vezes além.

Hoje, em plena quarentena, a EAD, antes fonte de desconfiança em alguns círculos e mercados, tornou-se a solução para os problemas de aglomeração nas aulas presenciais, sendo foco de atenção da imprensa e de todos os setores envolvidos com a educação, da básica à superior, pois todos foram afetados e precisaram levar suas atividades para o ambiente virtual.

Nesse cenário, dados da Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) indicam que a EAD vem tendo um crescimento acelerado e deverá superar os cursos presenciais, em número de matrículas, em poucos anos. Uma projeção divulgada no ano passado estimou que isso poderá ocorrer em 2023.

Praticidade e preço

Mas a preferência dos alunos pela EAD não tem a ver com a quarentena causada pela pandemia da covid-19. Observando o gráfico da pesquisa com cuidado, vemos que a EAD já vem crescendo de forma sólida e consistente desde o início deste século, e que esse crescimento se acelerou fortemente após 2015. Ou seja, mesmo antes da pandemia, a tendência de crescimento da EAD em relação ao ensino presencial já estava consolidada.

Os motivos desse crescimento são vários: a praticidade e a flexibilidade de não ter horários rígidos, o tempo economizado em deslocamentos, a maior independência do estudante, a crítica e a insatisfação em relação aos formatos tradicionais e, claro, o preço, pois a competição entre as instituições de ensino superior têm tornado a EAD mais e mais atrativa nesse quesito.

Os dados do Enade compilados pelo Inep mostram que os cursos de EAD não perdem em nada para os presenciais − há casos de cursos que inclusive têm apresentado desempenho superior na série histórica. Além disso, as instituições de ensino têm investido em tecnologia, atendimento, qualificação, estratégias e formatos diferenciados, aumentando a qualidade dos materiais e da experiência dos alunos na EAD, o que reduz ou derruba barreiras. Os números mostram resultados positivos.

A qualificação dos professores ainda é um ponto nevrálgico. Os dados obtidos por outras pesquisas, como uma do Instituto Península, indicam que os professores se sentem despreparados para a EAD, não encontram suporte emocional e têm enfrentado altos níveis de estresse durante a pandemia. Frente aos números que a EAD apresenta, algo a ser melhorado. E logo.

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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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