• Gina Vieira Ponte

Não é hora de voltar

Atualizado: Ago 1



Esta pandemia de covid-19 vai deixar grandes legados para a educação. Um deles é uma maior tomada de consciência sobre como todos nós, que temos filhos, organizamos a nossa vida em torno da escola. Tivemos que ficar sem elas para perceber o quanto elas nos fazem falta.

Tenho observado as polêmicas em torno da decisão de retomar ou não as aulas, e já ouvi um pouco de tudo. Ontem, aqui no Distrito Federal, testemunhamos a inacreditável mobilização de pais e mães em favor da retomada das aulas, enquanto em outras unidades da federação há movimentações em contrário.

Há cerca de quatro meses havia o entendimento de que abrir escolas em plena pandemia poderia provocar um genocídio. Trata-se de um vírus relativamente novo, e as pesquisas sobre como ele atua ainda são muito recentes. O que se sabe com certeza é que ele é um vírus de altíssima transmissibilidade e que, além de ser letal, pode deixar muitas sequelas.

A minha pergunta é: o que aconteceu de novo para que as pessoas cogitem o retorno às aulas? Aqui no DF, por exemplo, a gente não conseguiu fazer o controle do vírus, os casos vem aumentando assustadoramente. Estamos registrando quase 30 mortes por dia. Já há falta de leitos nas UTI. O cenário só tem piorado. Se há quatro meses havia risco de contaminação, hoje este risco é exponencialmente maior.

Quem atua em escola sabe que não há nenhuma medida que consiga ser suficientemente efetiva para impedir que as crianças se toquem, se abracem, troquem máscaras e, até entre os estudantes mais velhos, é complicado impedir a aproximação. Imagino que retornar às aulas diante da pandemia crescente, ainda que em ondas, por blocos, com proposta de sistema híbrido, representa um risco enorme para todos.

Todos os países que fizeram um controle do vírus muito mais rigoroso e responsável que o Brasil e que determinaram o retorno às aulas tiveram que recuar, porque se depararam com uma explosão nos casos de contaminação, depois que os estudantes começaram a circular novamente.

Imagine o que é, para os docentes, ter que dar aulas com máscaras por cinco horas diárias ininterruptamente. Imagine que cada escola funcione, no final das contas, como um grande vetor que fará com que o vírus circule de forma ainda mais intensa, em um espaço de tempo muito menor. Imagine o efeito disso quanto a gerar ainda mais congestionamento na espera do número de vagas na UTI e, portanto, colapso no sistema público e privado de saúde.

E nunca é demais perguntar: se o que estamos enfrentando é uma pandemia, quem tem autoridade para determinar o retorno às aulas? São os médicos infectologistas, que pesquisam o tema, ou são mães, pais, gestores públicos da educação e donos de escolas privadas? Nós, docentes, temos a humildade de admitir que entendemos de educação, mas quem entende de pandemia são os médicos, cientistas e pesquisadores.

Quem deve dizer quando é seguro para voltar são eles. E, até agora, não vi nenhuma autoridade médica se pronunciar favoravelmente quanto ao retorno às aulas.

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Gina Vieira Ponte é professora de língua portuguesa na rede pública do Distrito Federal, mestre em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em Educação a Distância (EAD) e em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e criadora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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