• Dilvo Ristoff

Muito além da profissionalização



O mito do amplo desemprego de pessoas altamente qualificadas, discutido na coluna do último dia 9 de setembro, deriva, em grande parte, da crença de que a única função da universidade é profissionalizar. A demonstração de que estamos diante de mais um mito vem de vários espaços e estudos, embora seja por vezes difícil mostrar isso aos estudantes e mesmo aos professores.


Os alunos, segundo dados do questionário socioeconômico do Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade), vêm ao campus, majoritariamente, em busca de uma profissão. Esse é o objetivo esperado e, certamente, o mais desejado por todos os envolvidos com a sua formação. Quando, no entanto, os limites desse objetivo profissionalizante se tornam por demais estreitos, temos problemas, pois os estudantes passam a exigir do professor um mapa que possa conduzi-los numa trajetória tranquila e segura do vestibular ao emprego e, se possível, do emprego à sepultura, como se aos 18 anos de idade já tivessem a sua trajetória de vida plenamente traçada. De preferência em linha reta, sem paradas e desvios, e sem tempo para as indecisões, as visões e as revisões que são próprias da vida! Supervalorizam, portanto, as disciplinas eminentemente técnicas e olham, muitas vezes, com desdém para as disciplinas de formação geral ou de domínios conexos, tidas como cosméticas e sem importância. E, quando algum professor se recusa a aceitar esses estreitos limites, ele é por vezes visto pelos alunos como nefelibata, transformado em objeto de chacota e, em alguns casos, com apoio de colegas, convidado a procurar outro departamento que o acolha.


Depois de formados, no entanto, os estudantes descobrirão, atônitos, como aponta estudo recente do Banco Mundial (The Changing Nature of Work, 2019), que a dedicação ao desenvolvimento de habilidades transferíveis poderia dar-lhes um pouco mais da tranquilidade que buscam, pois ampliaria o leque dos requisitos básicos para a adaptabilidade a um mundo em permanente e acelerada mudança. Segundo o estudo, a demanda por habilidades específicas para algumas ocupações tende a diminuir com o rápido avanço tecnológico e qualidades como capacidade para trabalho em equipe, autoconfiança, capacidade de negociação, de comunicação, de liderança, de autocontrole, de convivência com o diferente, disciplina para a pesquisa, cumprimento de prazos, proatividade, administração do próprio tempo e todo um conjunto de questões que as atividades universitárias de ensino, pesquisa e extensão proporcionam são consideradas por empregadores como tão ou mais importantes que habilidades técnicas específicas. Estas, de todo modo, terão que ser, em muitos casos, esquecidas ou reaprendidas – algumas logo que os estudantes deixarem o campus, outras ao longo da vida.


Energias criativas


Essas observações corroboram o que os professores Edson Nunes, ex-presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), e Márcia de Carvalho, do Observatório Universitário da Universidade Cândido Mendes, já destacaram, há alguns anos, a partir de sua análise das incongruências entre as profissões regulamentadas no Brasil e o que dizem os dados do IBGE sobre a ocupação efetiva dos profissionais formados. O estudo revela, por exemplo, que a realidade ocupacional e a profissional são muito distintas. Os dados mostram que só um terço dos engenheiros formados exercem a engenharia; só 75% dos médicos exercem a medicina; só 71% dos dentistas formados exercem a odontologia; só 51% dos bacharéis em direito trabalham com direito; só 45% dos psicólogos formados trabalham com psicologia; só cerca de 28% dos profissionais da comunicação social atuam na área; e, como todos sabemos, pouquíssimos professores licenciados estão em sala de aula.


Essa incongruência entre profissão e ocupação deveria ser um alerta para todos. Além de revelar o descompasso entre o que se planeja no âmbito das políticas educacionais e o que se executa nos espaços orientados pelas demandas do mercado, ela evidencia, pela efetiva presença dos graduados nos mais diversos e relevantes setores da economia, que a educação universitária, muito além de ser formadora de profissionais, é também um força que liberta energias criativas e empreendedoras e que gera oportunidades para cidadãos-profissionais competentes em todas as áreas do conhecimento — cidadãos-profissionais que a sociedade, por ser sempre mais dinâmica que as estruturas educacionais vigentes, chama, por absoluta necessidade. E estes profissionais, pela sua formação mais ampla, completa e complexa, terão precedência no mundo do trabalho sobre os bárbaros altamente qualificados a que se referia Stephen Muller, ex-reitor da Johns Hopkins University.

Em suma, embora profissionalizar faça parte da história da universidade desde os seus primórdios, a formação universitária claramente não se esgota no profissionalismo. Se é certo que a busca por uma profissão — frequentemente associada a um diploma que promete emprego com altos rendimentos — continua a ser a principal motivação para que milhares de estudantes venham ao campus todos os anos, é também verdade que a educação universitária, pelas múltiplas habilidades que desenvolve, prepara cidadãos para muito mais do que o domínio de conteúdos e de técnicas profissionais específicas. Graças à educação universitária, em especial aquela que prepara não só para o presente e o existente, mas também para o futuro e o que ainda não existe, os profissionais por ela formados saberão exercer, com êxito, funções sequer previstas na estrutura educacional. Nos cenários e espaços sociais que vierem a ocupar, esses profissionais exercerão com competência e criatividade não apenas a sua profissão, mas também as novas funções e atividades para as quais a sociedade, em permanente mudança, certamente os chamará.


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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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