• Paulo Pinheiro

Mentir aos alunos? Não pode ser verdade



Imagine um professor que, no primeiro dia de aula, admita para seus alunos que irá mentir para eles. Parece uma loucura, não é? Principalmente pelo fato de que o mundo vive em plena guerra contra as fake news. E o mais incrível de tudo: de uma forma precisa e calculada ele vai usar essa mentira para gerar engajamento nos estudantes. Como isso é possível?


Antes de mais nada, essa é uma estratégia − no mínimo − inusitada. Eu pretendo detalhar como fazer isso neste artigo. Particularmente, considero que existem alguns riscos envolvidos no processo. E talvez seja possível obter o mesmo resultado de outras maneiras. Mas essa é uma daquelas histórias de Harvard (embora, é preciso ressaltar, quem me contou garantiu que ela não era aplicada na instituição).


No primeiro dia na universidade, o aluno proveniente do ensino médio espera ficar entediado. Possivelmente, vai ser recebido com uma série de aulas sem brilho dedicadas a examinar o programa de estudos. Isso não significa dizer que o contrato pedagógico não é importante, muito pelo contrário.


Mas esse primeiro contato entre professor e estudantes é decisivo para estabelecer como será o semestre. Mais ainda: alunos tendem a analisar as impressões do primeiro dia de maneira extremamente forte nas avaliações do curso. Como se diz no mundo da política, a gente nunca tem uma segunda chance para causar uma boa primeira impressão.


Desafio


Na história contada em Harvard, esse professor começava a comentar o plano de estudos com os estudantes. A partir daí, insistia no fato de que cada aula é baseada em evidências e pesquisas. Ou seja, um bom professor não ensina algo só por que acha que pode ser verdade ou por que outra pessoa pensou que poderia ser verdade. O professor ensina justamente pelo fato de que há evidências revisadas por pares, que validam o que está sendo dito.


Até que surge o momento no qual ele dispara a sua estratégia incomum. O professor diz aos alunos que 99% do material ao longo do curso se encaixará nessa descrição, contudo, uma vez durante o semestre, ele mentirá para eles. Sim, o professor abertamente garante que dirá algo falso, que vai contra a lógica científica, que vai contra o bom senso. E, o mais importante, desafia os alunos a descobrirem.

O professor não para por aí. Estabelece uma premiação para quem o desmascarar e pede aos alunos que levantem a mão a qualquer momento durante o semestre se sentirem que algo que ele disse pode não ser verdade. O aluno, entretanto, precisa justificar o motivo pelo qual acredita que aquele fato é falso. É com base em sua intuição? É com base nas suas experiências ou no que ouviu de outros professores? Até o tempo em que escutei essa história, ninguém tinha descoberto a mentira.


Mas qual é o objetivo por trás dessa estratégia? O primeiro é bem evidente: interessar os alunos no conteúdo das aulas. O segundo é um pouco mais sutil. O desafio proposto motiva os estudantes a pensar criticamente sobre o que está sendo dito. Já no segundo dia de aula, os alunos começam a questionar, tentando descobrir onde está a mentira.

Ainda resta uma dúvida: e se ninguém descobrir a mentira, isso seria um problema? O professor que adotava essa estratégia dizia que não. A ideia é fazer os alunos criarem o hábito de questionar as coisas e de pensar criticamente sobre o que estão ouvindo. A iniciativa também acaba gerando uma série de debates espontâneos que envolvem ainda mais alunos na discussão. Outro bônus: os estudantes ganham o hábito de questionar a autoridade e de pensar por si mesmos.


Para acabar com a ansiedade, ele revela a mentira no meio do semestre. Só que neste ponto o hábito da participação e do questionamento já está estabelecido. Então não há mais necessidade de mentiras. É realmente uma estratégia inusitada, diferente. Mas que pode obter bons resultados.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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