• Paulo Pinheiro

O método do caso e os professores


Foto: Leon / Unsplash

A postura de um professor do método do caso em sala de aula é diferente. Ele não está ali para fornecer todas as respostas. Ou esclarecer de forma rápida e direta uma dúvida. Na verdade, ele provavelmente vai responder a um questionamento com outra pergunta. O conhecimento é obtido pelo debate, pela troca de ideias, pelo choque de visões opostas.


Por isso, compreender como os alunos podem se beneficiar das discussões de caso oferece uma visão sobre o que os professores do método de caso precisam fazer para aumentar a probabilidade de resultados positivos. O trabalho que os instrutores fazem nos bastidores para criar o contexto para a aprendizagem e o envolvimento dos alunos é tão importante quanto o que eles fazem durante a aula.


Essa talvez seja uma diferença fundamental no que diz respeito ao uso de uma metodologia mais tradicional. Quando se trabalha com o método do caso, também existe a necessidade de o professor se preparar. Muitas vezes eu fiquei agradavelmente surpreso com alunos que sabiam detalhes que eram citados uma única vez no texto. Na condição de instrutor de um caso, eu preciso saber cada minúcia descrita no problema apresentado aos estudantes.


Via de regra, isso leva a um tempo de preparação extenso. Ou seja, ao aprender um novo caso eram necessárias em torno de oito a dez horas. Quase sempre, por conta da preparação, eu adotei o costume de chegar duas horas antes do horário de início da aula. Essas iniciativas são essenciais para que a discussão flua de forma correta. Ou seja, zona de conforto é uma expressão que não combina com um instrutor do método do caso.


Conhecendo os alunos


Pela própria natureza participativa do método do caso, o professor precisa obrigatoriamente conhecer seus alunos. Eles não são somente mais um nome na chamada. Mais ainda: o esforço começa com o foco nas necessidades dos alunos. Há uma diferença entre ensinar um caso e dar uma aula. Na segunda opção, pouco importa saber quem está na sala. Mas, para quem adota o método do caso, ensinar uma classe é tentar conectar o material da leitura com as pessoas que estão lá.


Um instrutor de método de caso, portanto, começa a considerar como ensinar fazendo perguntas que vão além dos objetivos de uma sessão de aula ou mesmo de um curso:


· Quem são meus alunos?


· Quais são suas experiências?


· O que eles já sabem?


· O que eles precisam saber?


As respostas a essas perguntas dependem da formação dos alunos e dos cursos que eles já fizeram. Os instrutores de método de caso que ensinam em uma faculdade ou universidade precisam analisar em detalhes o currículo obrigatório da instituição de ensino. E devem levar em conta o que seus alunos já aprenderam e construíram sobre essa base. Além disso, os instrutores podem querer examinar os perfis dos alunos para que eles entendam quais experiências esses indivíduos tiveram e como eles podem aproveitar esses conhecimentos durante as discussões.


Aqui cabe um parêntese. Em Harvard essa análise dos perfis é levada muito a sério. Um instrutor costuma abrir um caso fazendo uma pergunta a um aluno. Essa técnica é chamada de cold call. Aliás, é uma espécie de marca registrada da instituição. Porém, o cold call é muitas vezes feito com base na análise detalhada da turma. Ele não tem nada de aleatório. Ou seja, o critério é: de todos os estudantes presentes, qual poderia dar uma resposta mais completa, complexa, detalhada ou aberta a envolver o grupo em uma discussão adequada naquele caso em específico.


No final das contas, gerenciando e liderando discussões, os instrutores de método de caso oferecem um modelo para os alunos aprenderem como gerenciar e liderar os outros. E esse tipo de ensinamento é cada vez mais útil nos dias atuais.


Conversando com os alunos


Os instrutores do método de caso também podem aumentar sua familiaridade com os alunos conversando com eles antes e depois da aula. As percepções colhidas nesses momentos podem influenciar as decisões sobre como iniciar as discussões em classe e como levá-las adiante. Elas também podem ajudar os professores a entender o que os estudantes acharam envolvente, enfadonho ou confuso. Podem indicar quais alunos respondem melhor a determinada abordagem. Podem auxiliar sobre como tornar mais evidente a vinculação de temas debatidos nas sessões de aula.


Além do aprendizado direto que essas conversas fornecem, essa preparação sinaliza a dedicação dos instrutores. Os alunos ficarão mais engajados quando acreditarem que seus professores estão “envolvidos” e decididos a construírem “laços de confiança”. O que acaba facilitando a aprendizagem e o crescimento.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.