• Cláudio Lovato Filho

Katrina


Foto: Flickr/ Louisiana State University (CC)

Minha primeira visita a Nova Orleans, que tem a parte mais importante descrita neste texto, me deu a oportunidade de escrever aquela que considero até hoje uma das minhas melhores matérias em quase 32 anos de profissão, talvez a melhor.


* * *

Nos pátios e nas varandas, uma infinidade de objetos que contavam pedaços de histórias de vida: porta-retratos, discos, brinquedos, roupas, móveis, pratos, talheres. Bens deixados para trás no momento de lutar pela vida, e então expulsos para a rua pela água que tomou conta de tudo.


Nova Orleans, abril de 2006, oito meses após a passagem do Katrina e o subsequente rompimento dos diques que deveriam conter as águas do Lago Pontchartrain, mas que não foram suficientes para fazer frente à gigantesca surge, a onda causada pelo furacão. Mais de 1.800 vidas perdidas nos estados da Louisiana e do Mississippi, a grande maioria em Nova Orleans. Mais de 200 mil casas destruídas.


“Cuidado, que tem gente armada por aí”, nos disse o engenheiro responsável pela obra que estávamos visitando antes de começarmos a caminhar pela região de Gentilly. “Voltem antes de escurecer”, recomendou.


Ninguém nas ruas, ninguém nas casas. Ou quase ninguém. Um casal tentava reconstruir sua residência. Ela, funcionária da Prefeitura, parou o que estava fazendo para conversar. O marido se aproximava e se afastava, se sentava nos degraus da pequena escada na entrada da casa e logo se levantava, então de novo se aproximava de nós e voltava a se afastar, regressava à escadinha, se sentava novamente e quase de imediato se levantava outra vez, e assim por diante. “Ele não está bem”, disse a esposa.


Um tempo depois, encontramos um grupo de jovens voluntários trabalhando na reconstrução de casas. Garotos e garotas de macacões brancos e máscaras armados de pinceis, latas de tintas, rodos e vassouras. Sempre sorrindo. De onde tiravam aqueles sorrisos e aquele entusiasmo?


No nosso caminho, mais livros e CDs e relógios de parede e TVs e óculos e canecas e escovas de cabelo e quadros e bolas – tudo jazendo em frente às casas, como se esperassem pela volta de seus donos.

No fim do dia, no French Quarter, o Bairro Francês de Nova Orleans, constatávamos novas formas de resistência: jazz e blues nos bares, chefs esperançosos na porta dos restaurantes, pintores com suas telas e seus cavaletes nas calçadas. Muita gente tinha ido embora da cidade logo após o furacão, mais de 400 mil, mas a vida continuava.


E, no dia seguinte, uma visita ao Lower Ninth Ward, às margens do Rio Mississippi. Outra área destruída, massacrada, engolida e cuspida de volta. Meu parceiro de trabalho, amigo e irmão Americo Vermelho fotografou todo aquele cenário de guerra e depois fomos fotografados com um quadro bizarro às nossas costas: um carro capotado que ficou debaixo de uma casa, ou uma casa que ficou em cima de um carro capotado, o que talvez fosse a mesma coisa, mas que, naquele momento, diante do sombrio surrealismo de tudo, me pareceu que podiam ser coisas diferentes.


De qualquer forma, o que importava era saber quem morava naquela casa e quem dirigia aquele carro (e quem possuía todos aqueles objetos que vimos nas varandas, nos pátios e nas calçadas), mas isso nós não conseguimos descobrir. Havia sinais, provas da anterior presença de pessoas, mas elas não estavam mais ali.


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Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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