• Demétrio Weber

Cotas mudam (para melhor) a cara da USP


Vem da Universidade de São Paulo (USP) a boa notícia neste fim de 2019: em seu segundo ano de vigência, a reserva de vagas para estudantes de escolas públicas, com uma subcota para alunos pretos, pardos e indígenas, está mudando a cara da mais prestigiada universidade brasileira. E para melhor.


Sob o título "Com cotas, aulas da USP começam a perder 'brancocentrismo'", reportagem da competentíssima jornalista Angela Pinho fala da nova geração de filhos de garçons, de empregadas domésticas, de caminhoneiros e de porteiros que chegam ao ensino superior, muitos deles, os primeiros da família a entrar na faculdade.


Gente como o jovem Italo Araújo, de 20 anos, negro e de família de baixa renda em Juazeiro do Norte (CE), que conquistou uma vaga no curso de direito da USP − mas ainda não tinha certeza de que as aulas seriam mesmo gratuitas e de que ele poderia se matricular.

Diversidade


A reportagem, publicada em 26 de dezembro no jornal Folha de S.Paulo, joga luz sobre um dos argumentos favoráveis às políticas afirmativas: o de que a diversidade enriqueceria a universidade. Depoimentos de professores ouvidos por Angela sinalizam que é isso o que está acontecendo na USP.

"São alunos que trazem para a discussão questões regionais e sociais, problemas jurídicos que em geral não são portados por estudantes da classe média paulistana", disse o diretor da Faculdade de Direito, Floriano de Azevedo Marques Neto, referindo-se, no direito administrativo, a temas como a ocupação da cidade.


"Bastou eles contarem a experiência de ir e vir todo dia da zona leste e pegar duas horas de ônibus que o debate já mudou. Eles trazem a vivência de outra cidade que não costumava vir à Cidade Universitária", disse o professor Mauro Zilbovicius, da Escola Politécnica, ao mencionar uma atividade sobre mobilidade urbana.

Na USP de Ribeirão Preto, a professora de pedagogia Debora Piotto destacou reflexos positivos para a turma inteira: "No estágio que fazem em escolas públicas, os estudantes passaram a ter um olhar atento a questões referentes a discriminações raciais, relatando, por exemplo, perceber que alunos negros recebiam menos atenção, ficavam separados dos demais, estavam mais em situação de fracasso escolar, entre outras observações que só puderam ser feitas porque o tema da discriminação racial era trazido também pelos colegas negros."

Videoaulas por celular


Outro tabu relativo à política de cotas, já quebrado em outras universidades, cai por terra agora na USP: o de que a reserva de vagas permitiria o ingresso de jovens despreparados, que jogariam para baixo a qualidade dos cursos, levando à formação de profissionais sem a devida qualificação. Nada como um banho de realidade para desconstruir preconceitos. Na reportagem, o pró-reitor de Graduação, Edmund Baracat, informa que não foram detectadas diferenças significativas até o momento. Até porque a concorrência é tão alta que, seja pelo sistema de cotas ou pelo sistema universal, o desempenho dos ingressantes já é bastante elevado.

Não obstante, há desafios a superar, especialmente na área de exatas e no conhecimento da língua inglesa. Na Escola Politécnica, que reúne os cursos de engenharia, professores ouvidos por Angela relataram dificuldades por parte de egressos de escolas públicas, sujeitas, entre outros percalços, à falta de professores. (Essa observação não vale para egressos de escolas técnicas, que, igualmente públicas, oferecem ensino reconhecido como de maior qualidade.)

Daí vem outra boa notícia: a partir do ano que vem, a Poli vai disponibilizar videoaulas de física e matemática, em formato adaptado ao celular, já pensando em quem pega ônibus para ir à faculdade. Os cotistas, contudo, não serão o único público-alvo, ressaltou o professor Zilbovicius, enfatizando que o primeiro ano de engenharia costuma ser difícil também para alunos de escolas de elite: "Não aprendeu direito trigonometria? A gente ensina. O importante é ter vontade de aprender, e isso eles têm de sobra."

Progressiva


A USP adotou a política de cotas sociais e raciais a partir de 2018, quando 37% das vagas de cada unidade foram reservadas a alunos de escola pública. A implantação é progressiva: em 2019, o percentual subiu para 40%, devendo atingir 50% das vagas, por curso e turno, em 2021. Do total de vagas destinadas a egressos da rede pública, 37,5% são reservadas para alunos da escola pública que, além disso, se declarem pretos, pardos e indígenas. O percentual da subcota para autodeclarados pretos, pardos e indígenas reflete a presença desses grupos populacionais no total de habitantes do estado de São Paulo.

De acordo com a reportagem, egressos de escolas públicas representaram 42% dos ingressantes na USP em 2019, enquanto alunos pretos, pardos e indígenas totalizaram 25%. Desse grupo de calouros pretos, pardos e indígenas, 62% entraram via cota.


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No livro Escravidão Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares (Editora Globo, 2019), o jornalista e escritor Laurentino Gomes registra que o Brasil foi o destino de quase 5 milhões (40%) do total de 12,5 milhões de negros africanos embarcados para as Américas, em mais de três séculos de escravidão.


Nesse período, o Brasil foi o maior território escravista no ocidente. Hoje abriga a segunda maior população negra ou de origem africana do mundo, atrás da Nigéria.


Laurentino aponta que os pretos e pardos representam 54% da população brasileira, mas, na faixa dos 10% mais pobres, respondem por 78%. Já entre o 1% mais rico da população, a proporção se inverte: somente 17,8% são pretos ou pardos. O índice de brancos com 12 anos ou mais de estudo é mais que o dobro do percentual de negros − ao passo que, no analfabetismo, ocorre o inverso.


Laurentino conclui: "Essas cifras são o alto preço que o Brasil paga ainda hoje pelo abandono de sua população negra à própria sorte na época da Lei Áurea."


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Nos primeiros anos do século XXI, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade de Brasília (UnB) abriram caminho para as cotas. Em 2012, o Congresso Nacional aprovou a Lei 12.711, que instituiu a reserva de vagas para alunos da rede pública nas universidades federais, também com subcota racial.


Que o exemplo e a excelência da USP ajudem a fortalecer e a aprimorar essa política pública tão necessária ao desenvolvimento do Brasil.

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