• Ronaldo Mota

Inteligência artificial: decifra-me ou te devoro


Foto: Unsplash

De acordo com um antigo mito grego, a Esfinge de Tebas observava atentamente cada viajante que passava pela cidade e a ele apresentava um misterioso ultimato: “Decifra-me ou te devoro”. Assim, àquele que se deparava com a esfinge restava tentar decifrar um enigma ou pagar com a própria vida.


A complexidade do mundo contemporâneo nos apresenta um especial desafio que pode, igualmente, nos devorar: o advento da inteligência artificial (IA). Trata-se de um ramo da ciência da computação associado com a construção de máquinas capazes de desenvolver tarefas que tipicamente demandam inteligência humana.


Alan Turing, o pai da computação moderna, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), logrou decifrar a criptografia das forças alemãs, não por acaso denominada Enigma, contribuindo, de forma substancial, para a vitória das forças aliadas.


Em 1950, Turing apresentou nova contribuição ao conhecimento ao questionar: “As máquinas podem pensar autonomamente?”, estabelecendo os fundamentos daquilo que seria conhecido como IA. O desafio é ir além de simplesmente reproduzir o comportamento humano, coletando informações novas e aprimorando-se continuamente, constituindo-se em máquinas que replicam, simulam e, eventualmente, ultrapassam a inteligência humana.


Tal abordagem está presente, por exemplo, em assistentes virtuais em geral que entendem os clientes de forma progressivamente mais rápido, gerando cada vez respostas mais satisfatórias. Ou análise de dados de imageamento médico em telemedicina, onde os eventuais “erros” constituem os alimentos básicos dos ajustes contínuos em direção a uma “perfeição”, enquanto meta. O limite superior e desafiador desse processo implica termos máquinas inteligentes que possam tomar decisões de forma autônoma, baseadas em padrões de enormes bancos de dados.


O que viabilizou e aumentou a relevância de IA, nos tempos atuais, foi a combinação de “big data”, abundância de dados tratáveis sem precedentes, computação em nuvem, propiciando uma capacidade computacional inimaginável há poucos anos, e bons modelos de dados descritos via sofisticados algoritmos. Nessa nova configuração, os sistemas inteligentes absorvem, analisam e organizam os dados de forma a entender e identificar o que são objetos, pessoas, padrões e reações de todos os tipos, cumprindo tarefas complexas que estão totalmente fora da capacidade humana desprovida do apoio dessas máquinas.


A emergência de áreas como “machine learning”, “deep learning”, redes neurais, computação cognitiva, visão computacional e processamento de linguagem natural passam a fazer parte das áreas de que todos os profissionais, sem exceção, devem ter conhecimentos básicos, sob pena de serem incapazes, minimamente, de entenderem o mundo à sua volta.


A esfinge contemporânea, a exemplo da antiga de Tebas, pergunta hoje a cada um de nós: “Quem de fato está por trás da inteligência artificial?” e dá a seguinte dica: “Trata-se de um animal que tem quatro patas pela manhã, duas pela tarde e à noite, três patas.” Continua a valer a lógica de que se errar será comido pela criatura.


Caso compreendêssemos mais sobre nós mesmos, adentrando nossa própria essência, saberíamos que quando bebês engatinhamos, depois como adultos caminhamos e, ao envelhecermos, temos como companhia uma bengala.


Em síntese, ao desprezar a observação sincera sobre si mesmo, você permite que oportunidades passem e as portas se fechem, resultando em ser devorado pela esfinge. Ao ter consciência da relevância de compreender as tecnologias digitais, em todas as dimensões, em paralelo ao autoconhecimento, que permite níveis mais avançados e profundos de consciência acerca de como você aprende continuamente, ao longo de toda vida, você estará preparado para enfrentar a esfinge e dar sequência à sua vida.


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Ronaldo Mota é diretor acadêmico do ITuring. O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.