• Bárbara Semerene

Identificar a inveja ainda no ninho



Eu nunca tinha tido tanta clareza da origem da inveja até quando o vi senti-la pela primeira vez. Até então, aos 8 anos, meu filho tinha experimentado mais “excessos” do que “faltas”. “Sofreu” mais de predicados do que de bullying. Ele é física e cognitivamente privilegiado dentro dos parâmetros socialmente esperados para o sexo masculino: garoto branco, classe média, atlético, expansivo.


Aparentemente teve tudo o que ousou desejar e se saiu bem no que se propôs a aprender: afetos, habilidades, objetos materiais. Mas é bem verdade que ele só pediu o que a gente (pais) podia dar. E ainda tem muita coisa que ele não descobriu que existe. Apesar de morar no Brasil, não vive rodeado de disparates de desigualdades sociais. Estas, quando surgiram, o colocaram em situação privilegiada, e não o contrário. É que vivemos numa bolha: bairro bacaninha de Brasília, cidade compartimentada por classes, onde todos os apartamentos ao redor têm o mesmo tamanho, e o mesmo número de vagas na garagem. Tudo fazemos por aqui pelas redondezas: escola particular, futebol, clube, tênis, natação, inglês.


Até que demorou. Mas eu sabia que esse dia chegaria. Inescapável que ele se deparasse com a riqueza que não tem e objetos de consumo sedutores que nem sabia existir.


Foi numa tarde na casa nova de uma amiga minha de infância. Ela havia acabado de se mudar, com filhos e marido, do apartamento que morava pertinho do nosso para este condomínio residencial abastado. “Mamãe, você já viu uma porta daquela altura? Ela deve ser mais alta do que o segundo andar do nosso prédio”, observou, logo que chegamos. Na simplicidade das brincadeiras infantis no parquinho da área comum do condomínio, eis que chega um garoto de 6 anos pilotando um mini buggy. Toda a criançada corre pra pedir pra dar uma volta. Meu pequeno ficou por último, era o único que não fazia parte da vizinhança. E acabou ficando de fora. Logo chegou outro garoto, desta vez da idade dele, dirigindo seu pequeno automóvel. Menino bonito, franjão caindo no rosto, celular no bolso. Era amigo em comum com os nossos amigos. Perguntei se meu menino queria que eu pedisse pra ele dar uma volta. “De jeito nenhum. Não vou no banco do passageiro, só vou dirigindo”, afirmou, orgulhoso. “Mas, meu filho, você não sabe dirigir.” “Aprendo agora.” Não permiti a ousadia. Percebendo a cena, o garoto dono do buggy ofereceu diretamente ao meu filho dar uma volta. “Não, obrigado, não quero, não”, ele respondeu, de nariz em pé.


Enxerguei em seus olhos um sentimento de inferioridade que eu nunca tinha visto lá. Ele havia se deparado com a falta de algo material que representava tudo do que, até então, ele se sentia pleno: força, energia, poder, liderança, liberdade. De repente, descobriu que não, ele não tem tudo. E tem gente que tem mais.


“Mamãe, compra um desse para mim?”

“É caro, filho. Além de perigoso.”

“Caro quanto, mil reais?”.

“R$ 10 mil”, respondeu minha amiga.

Um brinquedo de dez mil reais.


Cabisbaixo, ele voltou pra casa murcho. Para mim, foi determinante para uma compreensão mais profunda de que a inveja é a base da lógica capitalista. Imprescindível para a manutenção deste estado de coisas, que funciona à base do desejo de status, eliciado desde a infância. Inescapável neste nosso país que se sustenta de desigualdades.


Não fiz vista grossa nem mudei de assunto. É importante nomear esse sentimento que ninguém gosta de sentir, mas todo mundo sente. Ao testemunhá-la nascendo, melhor acusar o golpe, para miná-la ainda no ninho.

“Filho, o que você tem?”.

“Nada.”

“Porque você não quis dar uma volta de buggy com aquele garoto?”

“Ah, sei lá, mamãe, ele ficaria ainda mais exibido.”

“Mas, filho, por que você acha que ele foi exibido?”

“Porque ele é antipático.”

“Mas ele foi legal com você. Sem te conhecer, te convidou pra andar com ele no buggy. Você que fez que não estava nem aí... Quem foi antipático? Sabe, quando a gente quer ter algo que acha legal demais ou ser como alguém que admira, mas acha que não pode ou não consegue, é engraçado, a gente faz e fala o oposto do que tá com vontade. Já reparou? A gente fala que não gosta, não quer... finge que não está nem aí...”

Ele riu. “É verdade.”


“Pois é, filho, o nome disso é inveja. Isso que você sentiu.”


Ele pulou do banco. Já conhecia o significado da palavra proibida. E recusou veementemente o rótulo. “Eu não sou invejoso, mamãe! Não sou!”.


Inveja é sentimento-tabu. Vive em silêncio entre nós. Assumi-la, pecado capital.


“Meu amor, não faz mal sentir inveja, é normal! E sabe que os adultos são os que mais sentem inveja uns dos outros? É que tem muita gente grande que para de brincar, se esquece de se divertir, e só fica querendo comprar e exibir o que comprou e comparar com o que o amigo comprou e assim por diante. Por isso, sabe o que eu acho? Que criança não tem que ter carro, tem que correr, pular, subir, escalar. Da mesma forma que não tem que ter celular. Tem que conversar e brincar. E a única coisa que tem que disputar com outras crianças é bola no futebol, com o intuito de se divertir.” Ele concordou e disse “É por isso que eu amo os amigos do meu bairro, e tô louco pra encontrar com eles amanhã e jogar futebol.” Relaxou e voltou a ser ele.


Eu poderia ter saído dali pensando em trabalhar duro pra comprar um buggy “para fazer meu filho feliz”. “Pra ele nunca mais se sentir diminuído por aqueles garotos.” Deve ter muito pai que sente assim. Acho mais interessante quando, em vez de sucumbir à disputa por poder econômico, usando o filho como o objeto narcísico que vai encampá-la, os pais mudam o foco para aquilo de particular que se é, a diversão genuína causada pelo lúdico e a automotivação eliciada pelo aprendizado constante.


A maneira como se lida com a inveja diz do modo como se lida com as diferenças, as faltas/ausências/buracos. Tem gente que passa a vida tamponando o buraco (que só fica coberto, mas segue fundo). E tem gente que brinca ao redor do buraco, encara o buraco, faz arte com o buraco. Saber lidar com a inveja é aceitar o fato de não ser completo, de não ser perfeito e de jamais poder alcançar a satisfação total.


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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene. O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.