• Demétrio Weber

'O que o aluno está fazendo enquanto você dá aula?'



A pergunta acima, capaz de suscitar profunda reflexão, foi feita a professores do Colégio Rio Branco, em São Paulo (SP), numa atividade de  planejamento das aulas. Causou enorme impacto e tem norteado o trabalho de toda a escola. Não à toa, é o título de um dos capítulos do livro Educando no Século XXI - Uma escola em metamorfose, editado pelo Rio Branco em 2018.


O livro, por si só, já é uma boa notícia. Reúne relatos de professores da escola sobre práticas pedagógicas exitosas adotadas do maternal ao ensino médio. Estimula, assim, a troca de experiências e a inovação, além de valorizar a prata da casa.


A diretora-geral do Rio Branco, Esther Carvalho, lembra que a intenção da pergunta foi sinalizar a necessidade de que os estudantes sejam sempre o foco do planejamento. "Quando você estiver planejando a sua aula, não me diga o que você vai fazer, me diga o que o seu aluno estará fazendo: ele estará te ouvindo? Dormindo? No celular?", resume Esther.


Entre tantas interpretações possíveis, a pergunta chama atenção para a relação professor-aluno, base da aprendizagem. Professores não podem (ou não deveriam) ignorar seus alunos. Do contrário, seu trabalho não se realiza, pois não há ensino sem aprendizagem.

Escola no século 21


O livro também discute o que se espera da escola no século 21, isto é, o perfil do aluno que se quer formar.


No prefácio, os diretores Claudia Xavier da Costa Souza e Renato Júdice de Andrade falam em metamorfose para descrever o que se passa na educação. E indagam: "Nossa metamorfose vai nos levar para onde ou para o quê?"

Uma coisa é certa: nessa nova escola, não há espaço para a ideia de que educação seja transferir conhecimentos a alunos que nada sabem. Claudia e Renato descrevem a escola como espaço múltiplo de trocas e aprendizagens. "Sim, aprendemos com o outro, alunos com alunos, professores com alunos, alunos com professores, professores com professores, pessoas com pessoas. Gente ensinando e aprendendo com gente", concluem.


Na introdução, a diretora-geral fala da diversidade como "característica da natureza humana" e da necessidade de metodologias de ensino que contemplem "possibilidades de aprendizagens diferentes". Nessa linha, os coordenadores pedagógicos Carolina Sperandio Costa da Silva e Henrique Bovo Lopes acrescentam: "Diante do fato de que cada pessoa tem uma forma diferente de aprender, torna-se inevitável que o professor tenha que ter mais que uma forma de ensinar."


O desafio, claro, é como fazer isso na prática. O que remete ao papel dos professores e à formação docente.


Carolina e Henrique apontam caminhos: "O professor como orientador e mentor ganha relevância. O seu papel é ajudar os alunos a irem além de onde conseguiriam ir sozinhos, motivando, questionando, orientando. Até alguns anos atrás, ainda fazia sentido que o professor explicasse e o aluno anotasse, pesquisasse e mostrasse o quanto aprendeu. Estudos revelam que, quando o professor fala menos, orienta mais e o aluno participa de forma mais ativa, a aprendizagem é mais significativa", escrevem os coordenadores pedagógicos.


Já a diretora-geral enumera alguns dos objetivos de qualquer escola: "(...) a construção de conhecimentos, o desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais, assim como o fortalecimento de valores como ética, respeito, tolerância, diversidade, direitos humanos, sustentabilidade e paz". Para Esther, a escola deve formar pessoas que "façam a diferença na construção de uma sociedade mais justa e solidária".


Sua definição de escola, logo no primeiro parágrafo da introdução, merece ser transcrita: "Escola é um espaço multifacetado que reúne expectativas, sonhos e demandas de diferentes sujeitos. Nessa fascinante complexidade, traduz-se num organismo vivo, dinâmico e rico em desafios e oportunidades. As pessoas que ali se encontram passam por um contínuo aprendizado, uma vez que educar não é trivial, não tem receita pronta e, num espaço em que há gente formando gente, não existe mesmice!", escreve Esther.


O que emerge do livro é a importância de um ambiente seguro e de apoio ao professor. Inclusive nos momentos em que o professor errar. Sim, o erro pode fazer avançar: "Cada vez mais temos discutido a importância do erro como parte fundamental dos processos de aprendizagem. Em um ambiente onde erros se tornam oportunidades de aprendizado, cria-se um clima de confiança. Sendo assim, os professores podem se arriscar mais, pensar em novos caminhos, experimentar estratégias e dar novo sentido a suas práticas. E, se os professores se sentem encorajados a aprender a partir de seus erros, certamente, estarão dispostos a permitir que seus alunos também o façam", afirmam Carolina e Henrique.


Os dois coordenadores pedagógicos assinam o capítulo cujo título escancara a preocupação com o foco na aprendizagem dos estudantes. Eles encerram o texto com a mesma provocação do título: "E você, já parou para pensar no que o seu aluno faz enquanto você dá aula?"

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