• Bárbara Semerene

Games: aliados da família e da escola

Atualizado: 6 de Dez de 2020



Tidos como os vilões da atualidade, os jogos eletrônicos também podem ser usados a favor das crianças, tanto no espaço doméstico quanto no escolar. É o que demonstram pesquisas que apontam papéis positivos assumidos pelos games nas salas de aula e no fortalecimento de vínculos entre pais e filhos − na contramão do que tem sido relatado pela mídia e pelo recente documentário O dilema das redes, produzido pela Netflix.


Responsabilizados muitas vezes por criar relações de dependência, provocar comportamentos agressivos, favorecer isolamento social e sedentarismo, os games, em si mesmos, não são capazes de fazer tamanho estrago. A máquina termina onde começa o humano. É aí que ocorre o pulo do gato para fazer do limão uma limonada, sugerem as pesquisas.


Os games serão prejudiciais ou agregarão valor, tanto à família quanto ao aprendizado, a depender da função que o adulto atribuir a eles na relação com a criança. Sim, o humano ainda está no controle e, portanto, é o responsável pelo encaminhamento que dará à máquina, mero objeto. Entretanto, via de regra, os games têm sido colocados no papel de “babás virtuais” para entreter filhos, enquanto pais passam horas fazendo suas próprias tarefas, ou para distrair alunos, enquanto professores descansam um pouco. Neste caso, costumam ser prejudiciais. Para ser saudável, a relação entre os pequenos e os gadgets deve ser mediada pelo adulto, que vai dar o “tom” e a produção de sentido ao objeto, em coautoria com a criança.


Em família


O estudo intitulado "Entre pais e filhos: encontros com a cultura dos videogames”, inserido no projeto “Oficinando em Rede: videogames e espaços de afinidade”, em desenvolvimento pelo Núcleo de Ecologias e Políticas Cognitivas (NUCOGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entrevistou dez pais e mães, de 26 a 42 anos, que cresceram jogando videogames e hoje o fazem com seus filhos de 4 a 14 anos.


Eles relataram que jogar com as crianças, além de proporcionar divertidos momentos de convivência em família, promove a observação de afinidades e de diferenças de temperamento nos modos de agir e reagir diante das circunstâncias apresentadas nos cenários dos games. Também dá oportunidade para travarem diálogos e reflexões sobre os tipos de comportamento tomados pelos filhos, que podem se expandir para a vida real. Citaram o desenvolvimento da criatividade, do raciocínio lógico, da atenção distribuída, dos reflexos motores e do exercício da memória. De quebra, disseram que os jogos auxiliam na aprendizagem dos filhos na escola, pois apresentam conteúdos relacionados à geografia e história, entre outras temáticas.

Com os jogos, os filhos aprendem ainda a necessidade de dedicação e persistência para alcançar objetivos, a lidar com paciência diante de situações adversas. Absorvem ainda valores morais e éticos ao precisarem recorrer à cooperação mútua para atingir objetivos comuns.


Real x virtual


Alertaram, entretanto, que é fundamental que a criança compreenda que as consequências de suas escolhas na vida cotidiana são diferentes das vivenciadas pelos avatares nos jogos de videogame. Importante ressaltar o jogo como um sistema de regras específico: a morte do avatar nunca é a morte do jogador, uma vez que este pode voltar para começar uma nova partida.


Alguns dos pais entrevistados disseram não restringir o tipo de jogo, pois acreditam que a proibição aumenta a curiosidade. Assim, preferem que a criança jogue sob a mediação deles do que escondida, sem mediação. Outros pais só permitem jogos com temas de esportes, super-heróis ou resolução de puzzles.


Sobre as restrições do tempo limite de jogo, em algumas famílias o videogame pode ser utilizado só aos finais de semana, em outras, duas ou três vezes na semana e geralmente em um período de no máximo duas horas por vez. No restante do tempo livre, os pais costumam incentivar os filhos a praticar esportes, ler ou brincar com amigos.


Os pesquisadores levantaram uma questão que não foi mencionada pelos pais: a importância de conversar com os filhos sobre o fato de que os cenários virtuais dos games não são neutros, são espaços ideológicos. Seria importante identificar e conversar sobre os valores por trás das regras.


Gameficação em sala de aula


Outros estudos demonstram como a aplicação dos elementos e da lógica dos games no âmbito educacional pode motivar os alunos a reduzir comportamentos considerados inadequados e incentivar um maior engajamento nas atividades almejadas pelos professores.


Chamada de “gameficação”, esta estratégia de aprendizagem consiste em aplicar elementos presentes em jogos eletrônicos em outros contextos, que não o mero entretenimento, produzindo uma experiência de jogabilidade.


A gameficação envolve a apresentação de regras sobre o comportamento a ser emitido, especificação clara dos objetivos e dos passos necessários para alcançá-los, feedbacks substanciais especialmente dando a noção de aproximação sucessiva do alcance dos objetivos, apresentação de desafios e dificuldade progressiva. Também há consequências cumulativas, tais como pontos de experiência de um personagem, a noção de que é o próprio personagem do jogo quem gerencia suas decisões e a ocorrência de feedbacks visuais e auditivos constantes acerca do desempenho. Assim, alunos e professores constroem juntos novos modos de expressão e interação em sala de aula, trazendo para a escola o seu universo dos momentos de lazer. Atribuem-se assim novos sentidos ao aprendizado.


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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.


O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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