• César Steffen

Formar redes na EAD



Um dos grandes benefícios do ensino é criar contatos, amigos e trocas que podem inclusive facilitar a vida profissional. Mas surge a pergunta: os ambientes EAD oferecem essa possibilidade? Talvez seja preciso olhar para as redes sociais e trazer as lógicas de socialização lá operantes para ampliar os usos e recursos dos ambientes EAD.


Ingressei na faculdade em 1991, me graduei em 1997. Muito do que aprendi na graduação já está superado, mudou ou virou história junto com algumas das tecnologias da época, como o VHS e o CD. E me exigiu atualização. De lá para cá, já fiz vários cursos, de especialização em EAD a mestrado e doutorado em comunicação - e vários outros de tantas áreas que nem vale elencar, porque tomaria muito espaço.


O que trago desse tempo, além dos aprendizados e experiências que coloco em sala de aula, na EAD, nos cursos livres e nos artigos que escrevo, é a rede de amizades e de trocas que construí ao longo destes anos. Muitos de meus colegas de faculdade são amigos e parceiros até hoje − inclusive o editor deste portal.


De um deles, já fui padrinho do casamento e do filho. Outro indiquei para um emprego. Já ajudei um a estudar para uma seleção e fui ajudado na revisão de texto e artigos. Já tirei a corda do pescoço de outro, e já afrouxaram a minha quando precisei. Já soube que um colega que não era muito próximo na faculdade me bloqueou em um processo seletivo. Faz parte, não se agrada a todos.


Faltaria espaço, e eu certamente esqueceria de tantas coisas legais - e, às vezes, nem tanto - que vivi com essa rede de pessoas que conheci na faculdade. Então, histórias pessoais à parte, trago isso para ressaltar a importância de um elemento no ensino, especialmente no superior: a formação de redes de relacionamento que podem afetar e facilitar o desenvolvimento da carreira profissional e ajudar no crescimento e no desenvolvimento pessoal.


O conhecido Q.I. − quem indica − é um grande diferencial em um processo de seleção. Brincadeiras à parte, ter uma referência dentro de uma empresa é um grande facilitador da seleção e até de mudanças de carreira.

E não é só isso. Com nossas redes profissionais aprendemos e travamos contato com novas tecnologias e ferramentas. Nos atualizamos com o que os outros aprendem, e os outros aprendem conosco.


Mas, desde a pandemia e com o rápido crescimento da EAD nos últimos anos, fico me perguntando se os alunos não estariam perdendo essa oportunidade de trocas maiores, de aprofundamento em relações pessoais e profissionais que trazem, sim, muitos benefícios.


Claro, sempre temos os trabalhos em grupos, os seminários e outras formas de trabalhar, de desenvolver atividades que fazem os alunos se envolver. A modalidade remota tão utilizada nestes tempos de isolamento tem mostrado que há inúmeras formas de transportar as avaliações e outras atividades típicas do ensino presencial para a EAD. E que isso não é nenhum bicho de sete cabeças.


Para os alunos na EAD e no ensino remoto, não raro é nesses momentos que surgem as maiores − e talvez únicas − oportunidades de socialização, de trocas com os colegas. Até é fácil identificar o colega que trabalha, o que se envolve, o que sabe negociar e trocar, o que só quer impor sua opinião, o que não faz nada e mais uma variedade de perfis de trabalho que existem.


Mas uma rede vai além disso: envolve identificação, sinergia, aproximação. E não se faz apenas durante trabalhos e atividades acadêmicas. Na verdade, o corredor, a lancheria da faculdade, o ônibus ou mesmo o diretório acadêmico são os locais mais propícios para que a socialização ocorra e as amizades aconteçam no presencial.


Alguém pode argumentar que também existem as redes profissionais, e o aluno EAD pode se apoiar nelas. Sim, também tenho até hoje amigos que fiz em locais em que trabalhei. E é uma rede boa, importante, mas, em muitos casos − principalmente para quem vai direto do ensino secundário para o superior −, a rede da faculdade muitas vezes é a primeira e mais importante para começar a carreira.


Facebook e Instagram


Por isso, olho para as redes sociais como Facebook e Instagram e penso o quanto a EAD teria a aprender sobre trocas e socialização, e o quanto não deveríamos já estar evoluindo, nos direcionando para tais lógicas.


Alguém pode argumentar, com razão, que os alunos podem se conectar por lá, no Facebook, no LinkedIn. Sim, sem dúvida. Mas por que o sistema de EAD, no qual eles já estão presentes, não pode ofertar isso? Por que não trazer para o ambiente de ensino as oportunidades de socialização que as redes têm, ampliar o tempo de contato e, quem sabe, até melhorar a interação e a participação dos alunos?


Também penso o quanto as IES teriam a se beneficiar disso. Um aluno mais conectado se envolve mais, fortalecendo o vínculo. Assim seria possível ampliar os espaços e formatos de relacionamento dos estudantes com as instituições, ampliando o prazo de permanência deles.


Pensemos.


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.