• Demétrio Weber

Na escola do século 21, o professor deve ensinar como aprendeu?



Nenhuma escola ou rede de ensino será melhor que seus professores. Logo, não resta dúvida de que a formação docente é – ou deveria ser – peça-chave nas políticas de melhoria da qualidade da educação. Esqueçamos, por um instante, das novas tecnologias, dos currículos ou da infraestrutura das escolas: o que define a qualidade do ensino, acima de tudo, é o profissional que está em contato com os alunos.


Daí o enorme desafio que escolas do Brasil e do mundo enfrentam nestes tempos de Google e redes sociais: é preciso deixar para trás o atual modelo de ensino, mas a tarefa, em grande parte, cabe a educadores formados na lógica do modelo que se quer transformar. Em outras palavras, o que se pretende, na escola do século 21, é que os professores não ensinem como foram ensinados a fazer (na faculdade) e menos ainda como aprenderam (quando crianças, na escola).

O livro Educando no século XXI Uma escola em metamorfose (Rio Branco, 2018), do qual falamos aqui na semana passada, reúne experiências exitosas que vêm mudando a cara do ensino no Colégio Rio Branco, uma escola particular de São Paulo (SP). Uma delas foi a criação, nos anos finais do ensino fundamental, de um componente curricular interdisciplinar batizado de Cotidiano em Questão, o CoQuest. A nova "disciplina" se debruça sobre temas da atualidade, sob diferentes enfoques, buscando dar total protagonismo aos estudantes.


A proposta foi elaborada a partir de uma escuta atenta, contam os professores Ana Carolina Viegas Carmo Han e Caio Mendes dos Santos. Eles ouviram um aluno dizer que não queria estudar para fazer provas, mas para entender o mundo. Outros afirmaram que queriam, sim, entender os problemas da realidade, mas que não bastaria só estudar, sem fazer nada além disso.


De um lado, Ana Carolina e Caio perceberam que os estudantes já eram "verdadeiros aprendizes do século XXI, o que não nos deixa permanecer reproduzindo a mesma escola que nos formou", conforme relatam no artigo Cotidiano em Questão: desafios de uma proposta curricular inovadora. De outro, constataram entraves para a implantação de novas abordagens, a começar por uma arraigada cultura de avaliação: "Por mais que tenhamos avançado em muitos aspectos nesse quesito, a ideia de 'provar' o conhecimento adquirido – geralmente por escrito – ainda é muito forte na cultura escolar."A saída, escrevem os professores, foi "pensar fora da caixa".


Sair da zona de conforto


As turmas são acompanhadas por professores das áreas de humanas e de ciências da natureza, que se revezam a cada bimestre. O foco é desenvolver as chamadas habilidades para o século 21: pensamento crítico, colaboração, comunicação e criatividade.

Ana Carolina e Caio falam de como é desafiador dar real protagonismo aos alunos: "(...) nosso lugar de conforto ainda é ser o 'centro das atenções'. Nesse sentido, tem sido um grande desafio planejar e conduzir aulas em que evitamos 'mostrar como fazer' e preferimos deixar os alunos 'quebrarem a cabeça', respeitando os diferentes tempos de aprendizagem. O 'controle' do processo pedagógico tem ficado menos sob nossa exclusividade e tem sido cada vez mais partilhado com nossos colegas e alunos. Passamos a estudar mais intensamente, trabalhar de forma mais colaborativa, registrar com mais assiduidade e compartilhar nossas hipóteses, experiências e resultados. Sentimos que estamos nos tornando professores do século XXI."


O livro apresenta outra experiência inovadora do Rio Branco: o chamado ensino híbrido, que adota estratégicas como a aula invertida (os alunos estudam previamente o tópico que será visto em sala) e a rotação por estações (o espaço é dividido em estações de trabalho onde grupos de alunos desenvolvem atividades variadas, passando de uma estação para outra até completar o circuito).

"Com mais informações e meios de aprendizagem à disposição, nós, educadores, deixamos de ser a primeira fonte de conhecimento e nos tornamos ainda mais imprescindíveis no papel de orientadores e mediadores do processo de aprendizagem dos alunos", escrevem as professoras Andressa Coelho Righi de Carvalho, Claudia Nakamura Chieregatti, Juliana Casari do Amaral Campos, Rosana Nogueira Guedes Ezequiel e Vanessa de Melo Zito, autoras do artigo Ensino Híbrido: quebrando paradigmas em relação ao papel do educador e do educando.


Matemática gastronômica


Já as professoras Claudia Paulino Policicio e Cristina Canto contam como foi transformar uma aula de matemática numa oficina de gastronomia para ensinar proporção. "Sabe-se que criar vínculos entre o que é ensinado e o mundo real permite dar significado ao que se aprende. Nesse sentido, trabalhar com receitas culinárias e proporções foi uma experiência rica, divertida e cheia de sabor", afirmam Claudia e Cristina, no artigo Cookies e proporção: a matemática na cozinha.


O que a escola do século 21 busca, entre tantos desafios, é tornar-se atrativa, em meio a tantas fontes de informação que disputam a atenção dos jovens. Ana Carolina e Caio observam uma mudança de comportamento nos alunos dos anos finais do ensino fundamental, em comparação com as crianças dos anos iniciais. Embora os autores não usem essa palavra, é como se a escola começasse a ficar "chata" depois de algum tempo. "Diante do desaparecimento daquele 'encantamento inicial' e daquela 'curiosidade genuína' que observamos nos menores, frequentemente nos perguntamos: quando é que a escola – ou melhor, que a aula regular – deixa de ser 'interessante'? Por que é que o 'legal' está fora da sala de aula?"


Não resta dúvida de que é preciso mudar essa percepção. O Colégio Rio Branco, entre tantas iniciativas, é parceiro de uma universidade da Finlândia, a Tampere University of Applied Sciences (TAMK), que oferece cursos de pós-graduação a distância para professores da escola. Investir na formação docente é indispensável para fazer a educação avançar.

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