• César Steffen

Experiências com EAD (2)

Atualizado: Set 5


Foto: XPS/Unsplash

Como diz a sabedoria popular, nem tudo são rosas. Na educação a distância (EAD), não é diferente.


Recentemente um colega narrou uma situação que o deixou preocupado com a reação dos alunos e até mesmo em relação ao seu papel na respectiva instituição de educação superior (IES).


Ele leciona uma disciplina eminentemente prática, de final de curso, na qual os conceitos e teorias são aplicados em atividades práticas. Não chega a ser laboratorial, pois não demanda estrutura específica para a realização, mas trata, sim, de aplicação de conhecimento profissional de forma prática.


Como transpor essa prática de atividades presenciais para a EAD foi o seu desafio, que ele não conseguiu cumprir nem mesmo com o apoio do núcleo pedagógico da IES que, segundo ele, mais atrapalhou fazendo cobranças e exigências do que trouxe qualquer contribuição efetiva.


O resultado foi que os conteúdos e atividades a ser revistos e aplicados acabaram ainda em maio. Naquele momento, havia mais cinco semanas de aulas pela frente, um tempo que acabou sendo ocupado com debates e revisão de conteúdos que geraram pouco engajamento dos estudantes. Ele chegou a comentar que chamava alunos para falar e muitas vezes não recebia resposta. Ao que parece, relatou o professor, os alunos estavam conectados apenas para garantir presença, sem ouvir nem participar das atividades em determinados momentos.


Trocamos muitas ideias agora, durante a organização do semestre que se inicia, para que ele possa superar isso. Pude notar certa resistência dele à tecnologia e à EAD o que credito, em parte, à pouca qualificação e à falta de treinamento ofertado pela instituição.


Não tenho acompanhado tão de perto como gostaria para saber os resultados, mas, com apenas três semanas de aula, imagino ainda não ser possível constatar se algo melhorou. Torço para que sim.


Avaliação confusa


Outro problema que ouvi de muitos colegas foi em relação à avaliação.


A dúvida sobre se as aulas voltariam ou não fez com que muitos colegas, uma delas em especial, adiassem os instrumentos de avaliação ou mesmo começassem, na EAD, algo que deveria ser terminado ou entregue fisicamente, no ensino presencial, o que acabou não sendo possível.


Temos aqui uma ideia bem clara de como a gestão confusa do poder público afeta não somente a área da saúde, mas a sociedade como um todo e em aspectos que nem imaginamos.


Além disso, a limitação de formatos de entrega no LMS (plataforma digital) limitou, segundo ela, as abordagens de entrega das atividades. Assim, a solução foi pedir para os alunos fotografar ou escanear seus trabalhos, a fim de postá-los no ambiente em PDF, o que virou um problema, pois nem todos conseguiram boas fotos, e muitos nem sequer sabiam como gerar PDF com isso, trazendo a necessidade de muitos ajustes na forma de receber a atividade. Podemos imaginar que padrão de formato de entrega não existiu.


O problema aqui, nota-se, é um somatório da espera infundada da volta à sala de aula causada por uma comunicação confusa do poder público, a pouca qualificação dela para a EAD, algumas limitações técnicas dos alunos e limitações claras do sistema da IES que não foram tratadas pela IES. Desde o início da quarentena, segundo ela, segue tudo igual, com limitações no ambiente para as quais não encontro justificativa.


Estes relatos mostram algumas das barreiras da EAD. A tecnologia afeta, mas não determina, o sucesso das experiências: isso é gerado pelo envolvimento das pessoas em seus papéis.


Entendo que capacitar para a EAD vai além do instrumentalizar para as ferramentas dos sistemas e LMS, foco da maioria das IES com que tenho contato. É preciso focar principalmente na forma de construção do conhecimento, a relação com o aluno e os processos de avaliação.

Friso também a importância de trazer o aluno para perto, de ter uma comunicação clara e uma relação o mais aberta e positiva possível, de forma que problemas tenham suas soluções construídas em conjunto.


Sigo em contato não só com estes colegas, mas com muitos outros também, monitorando e registrando experiências, sucessos, dificuldades. Voltarei a estes temas mais adiante.


Por enquanto, vamos aprendendo.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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