• César Steffen

Experiências com EAD na pandemia



Como professor na EAD e avaliador do MEC, conheço professores, digo, colegas de muitas áreas e instituições diferentes com quem troco, converso, convivo com uma frequência muito facilitada pelas redes digitais.

Tenho recebido e travado contato com muitos relatos de experiências, tentativas, modificações, ajustes, enfim, formas diferentes e diferenciadas de fazer ou experimentar a EAD durante a pandemia, algumas com resultados muito positivos, outras nem tanto.

Selecionei algumas neste artigo, tomando o cuidado de não expor o colega nem a instituição. Então, se alguns detalhes ficarem faltando e a curiosidade pedir mais, pode manter contato, que terei prazer em trocar uma ideia, mas sempre preservando o espaço e a identidade de todos.

Mais escuta

Uma colega trabalha com disciplina introdutória, que reúne alunos de vários cursos, objetivando trabalhar comportamentos e atitudes de relacionamento pessoal e profissional, preparando-os para lidar com o mercado e mesmo com atividades do ambiente do ensino superior.

Ao final do semestre, a colega trabalhou com os alunos um momento de feedback, de troca e de avaliação da disciplina. A EAD era uma novidade para ela, como era para os alunos do presencial, e ela considerou que a troca serviria para trabalhar as habilidades de comunicação dos estudantes, além de trazer elementos que a ajudassem a planejar o novo semestre, que já começa na EAD.

Um dos relatos que mais chamaram sua atenção foi o de um aluno que afirmou que a EAD havia melhorado a qualidade dos trabalhos em grupo, pois permitia uma comunicação mais clara, mais afetiva, mais atenciosa entre os participantes.

Segundo o aluno, por não estarem cara a cara, a escuta entre os colegas foi melhor, houve mais espaço para ouvir o outro, mais respeito à opinião e às sugestões, o que melhorou a qualidade do trabalho − e isso seria algo que ele tentaria levar para as atividades presenciais.

Considerei interessante essa observação, pois apresenta um benefício inesperado da EAD, aquilo que muitos chamam de 'comunicação não violenta', aplicado à sala de aula e às atividades. É algo a ser pensando e explorado em detalhes pelos professores.

Intimidade e confiança ampliadas

Outro colega narrou uma sensação, uma percepção de maior proximidade e até mesmo de intimidade com a turma ao longo das atividades a distância.

Muitos mostravam os cachorros, os gatos e fotos da família, de viagens e de amigos, quando a discussão chegava a pontos em que isso poderia contribuir. Nos dias mais frios, não foram poucos, segundo ele, que narraram e até abriram a câmera mostrando estarem literalmente 'debaixo das cobertas' para ficarem aquecidos durante a aula. E mesmo os debates trouxeram opiniões e considerações mais claras e estruturadas.

A impressão dele − que compartilho em parte − é que a ausência do olhar direto do outro, a não presença física do colega trouxe mais conforto, uma sensação de liberdade, deixando todos mais à vontade para se mostrar. Ele mesmo se viu assim quando os gatos e até o filho pequeno resolveram aparecer no meio da aula, e o obrigaram a uma pausa para socialização e trocas.

Segundo esse colega, a volta do presencial será melhor: ele acredita que poderá levar esta experiência para a sala de aula física, buscando formas de aproximar e de gerar mais aproximação com os alunos e destes entre si.

Ferramentas para o presencial

Uma disciplina que demanda muitas atividades em grupo, exercícios e brainstorms exigiu de um outro colega uma extensa, quase exaustiva pesquisa de ferramentas on-line.

Ele disse literalmente que “se quebrou”, identificando e aprendendo ferramentas na internet que permitissem o desenvolvimento das atividades necessárias e que pudessem, de alguma forma, ser abertas ou mesmo acessadas pelo LMS [Learning Management System, a plataforma de ensino on-line] da instituição. Não foi uma nem duas vezes que me abordou pedindo dicas, sugestões e até mesmo que eu simulasse uma aula junto com ele para testar e validar as ferramentas frente aos objetivos da disciplina. Aprendi muito junto com o colega.

O esforço valeu. Segundo ele, os aplicativos e o perfil da turma, muito ligada e afeita a tecnologia, tornaram possível e até mesmo fácil realizar as dinâmicas e atividades pretendidas. Ele disse que pensa em levar essas ferramentas para a sala de aula, mas sem abrir mão dos exercícios com as metodologias clássicas do presencial.

(Continua na próxima segunda-feira)


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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