• Dilvo Ristoff

Evasão em alta em Santa Catarina

Atualizado: Mar 11


Balançando a cabeça, ele seguiu para a cidade e foi direto para sua própria casa... Diante dela estava um estranho pastor em roupas esfarrapadas, e perto dele um cachorro, velho e surrado, que rosnou e mostrou os dentes para Peter quando ele o chamou. Ele entrou pela abertura, que antes havia sido fechada por uma porta, mas encontrou tudo lá dentro tão desolado e vazio que saiu cambaleando feito um bêbado. Chamou a sua esposa e filhos, mas ninguém o ouviu e nenhuma voz respondeu.

Peter Klaus – Lenda Germânica


Como sempre, havia uma multidão junto à porta, mas ninguém de quem Rip se lembrasse. O próprio caráter das pessoas parecia mudado. Havia um tom agitado, alvoroçado e polêmico sobre as coisas, e não a pasmaceira de costume e a tranquilidade sonolenta. Ele procurou em vão pelo sábio Nicholas Vedder, com seu rosto largo, queixo duplo e cachimbo longo e louro, emitindo nuvens de fumaça de tabaco em vez de discursos sem sentido; ou Van Bummel, o mestre que compartilhava o conteúdo de um jornal antigo. No lugar deles, um sujeito magro, de aparência biliosa, com os bolsos cheios de folhetos, discursava veementemente sobre os direitos dos cidadãos eleições membros do congresso liberdade Bunker's Hill heróis de setenta e seis e outras palavras, que eram um jargão babilônico perfeito para o perplexo Van Winkle.

Rip Van Winkle – Washington Irving.



Um leitor catarinense mostrou-se surpreso e incrédulo com os dados de diplomação e evasão na educação superior brasileira apresentados no meu artigo Pelos (des)caminhos da evasão, de 28 de janeiro último, aqui no Educa 2022.


Naquele artigo, mostro o que aconteceu às gerações de estudantes brasileiros, de 1991 até 2019, quatro anos após o seu ingresso na educação superior, e concluo que cerca da metade dos ingressantes não cola grau, nem mesmo se incluirmos os retardatários.


Para os que acham incorreto considerar as gerações estudantis como tendo, em média, quatro anos de duração, é importante lembrar que (1) a grande maioria dos 40.427 cursos de graduação existentes no país são cursos de 4 anos de duração; (2) 21% dos cursos são cursos superiores de tecnologia, mais curtos, e (3) que os cursos com cinco anos ou mais de duração (e.g., engenharias, direito, medicina, etc.) representam apenas cerca de 13% do total.


Estudo dos cursos de engenharia – cursos que, em geral, têm cinco anos de duração – feito por Oliveira et al. (2012), abrangendo o período de 1996 a 2011, conclui que, mesmo consideradas gerações de seis anos para cursos de cinco, as taxas médias de evasão ficam em torno de 50%. E, pior, foi constatado que havia alteração mínima se o prazo fosse estendido para sete anos.


Esses dados, além de mostrarem que a análise por gerações é um indicativo que não doura a pílula das taxas de diplomação e evasão, confirmam o que já sabemos há muito tempo: grande parte da evasão ocorre nos primeiros dois anos do curso (ver estudo de John Thelin sobre a tradição da evasão nos Estados Unidos da América ou, no Brasil, por exemplo, os dados do nosso maior processo seletivo, o Sistema de Seleção Unificada (SISU).


Pois, o meu incrédulo e atento leitor quis saber a posição de Santa Catarina com relação a essas médias nacionais de evasão e diplomação. Fez questão de me lembrar de artigo anterior em que eu destacara que Santa Catarina, Amapá e o Distrito Federal eram as únicas unidades da federação que já haviam atingido a Meta 12 do Plano Nacional de Educação (PNE), que trata da democratização do acesso à educação superior. Como as médias são, de fato, muitas vezes enganosas, fui pesquisar o que ocorreu em Santa Catarina nos últimos dez anos (2010-2019). Eis o que descobri nas sinopses estatísticas do Censo da Educação Superior publicadas anualmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep):


Dos 59.128 ingressantes de 2010 formaram-se, quatro anos mais tarde, 39.384 (67%); dos 97.195 que ingressaram em 2011, formaram-se 40.884 (42%); dos 114.057 que ingressaram em 2012, formaram-se 53.870 (47%); dos 103.895 ingressantes de 2013, formaram-se 48.878 (47%); dos 121.406 ingressantes de 2014, formaram-se 51.928 (43%); dos 126.056 ingressantes de 2015, formaram-se 54.522 (43%) e dos 127.006 ingressantes de 2016 formaram-se em 2019, 55.998 (44%).


Outra forma de olhar para esses números: ingressaram de 2010 a 2016, nas IES catarinenses, públicas e privadas, 748.743 estudantes. Colaram grau, de 2013 a 2019, apenas 345.464 estudantes (46%). Em âmbito nacional, a taxa de diplomação para o mesmo período foi de 57%, ou seja, onze pontos percentuais acima da taxa catarinense.


Chama a atenção o fato de que o número de ingressantes de 2010 para 2011 saltou de 59.128 para 97.195, o que representa um crescimento percentual expressivo de 64%. Quando avançamos quatro anos no tempo (2013-2014), no entanto, eis a grande surpresa: um crescimento no número de concluintes de pífios 4%.

Em suma, embora em outras metas do Plano Nacional de Educação (e.g. taxa de escolarização bruta e taxa de escolarização líquida) Santa Catarina se encontre à frente da quase totalidade dos estados brasileiros, o mesmo não pode ser dito em termos de diplomação na educação superior. Os dados indicam que, em Santa Catarina, a expansão do acesso não se traduziu em mais diplomação ou, dito de outro modo, fica claro que a partir dos caminhos da expansão abriram-se novas e indesejadas avenidas para a evasão.


As razões para o crescimento significativo do número de ingressantes em Santa Catarina a partir de 2011 são conhecidas: ele vem na esteira de um conjunto de políticas nacionais e estaduais de expansão e democratização do acesso da educação superior. Nesse sentido é bom lembrar que, em janeiro de 2010, foi implantado o novo FIES, com juros altamente subsidiados e com financiamento a fundo perdido para estudantes das licenciaturas e de medicina que, após formados, atuem nos sistemas públicos de ensino e de saúde. O FIES facilitou enormemente o acesso de estudantes carentes ao financiamento estudantil e, assim como os já consolidados Programa Universidade para Todos (PROUNI) e a assistência financeira assegurada pelo Artigo 170 da Constituição catarinense, permitiu que ingressassem em cursos de instituições de educação superior privadas.


No setor público, o crescimento do número de ingressantes se explica pela consolidação do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), com a criação de mais de uma centena de novos campi e a implantação de várias centenas de campi dos institutos federias. Em Santa Catarina, estas políticas se traduziram, entre outras, na interiorização da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com a implantação de vários novos campi em cidades do interior do estado, na implantação, em Chapecó, da Universidade Federal da Fronteira Sul e na criação dos dois institutos federais, hoje com um total de 35 campi em funcionamento. Cabe, igualmente, destaque ao crescimento do número de ingressantes na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), levado a efeito por uma agressiva política de interiorização.


Todas essas medidas, sem dúvida, contribuíram, de alguma forma, para a expansão observada, mas é importante destacar que a parte mais expressiva do crescimento ocorreu no setor privado e na modalidade a distância (EAD). Sem pretender esgotar as explicações, fica evidente que a flexibilização, a partir de 2009, no credenciamento de instituições para a oferta do ensino a distância responde por grande parte dessa expansão. Voltemos aos dados: só no ano de 2011, dos 97.195 ingressantes em IES catarinenses, 30.398 (31%) ingressaram na modalidade EAD. Este percentual tem aumentado ano após ano, de modo que, em 2019, dos 176.652 ingressantes na educação superior do estado, 99.917, ou seja, 57%, ingressaram na modalidade EAD. Destes, a quase totalidade ingressou no setor privado. Essa foi, igualmente, a tendência nas outras duas unidades da federação (Amapá e Distrito Federal) que já atingiram a Meta 12 do PNE. No Amapá, em 2010, os ingressantes na EAD representavam apenas 17% do total; em 2019 esse percentual saltou para 56%. E a evasão que representava 49% no início da série sob análise passou a representar 73%. No DF, os ingressantes EAD que em 2010 representavam 14% passaram a representar 40% do total, e a evasão, que começou com 47%, atingiu em 2019 expressivos 59%. Detalhe: a geração de 2014, ano em que o número de ingressantes na modalidade EAD cresceu 56% com relação ao ano anterior, traduziu-se no DF numa taxa de diplomação de apenas 38%.

Isso talvez responda, pelo menos em parte, a outra pergunta que não quer calar: como explicar que um aumento expressivo no número de ingressantes não se transforme em aumento no número de concluintes minimamente equivalente? Embora a modalidade EAD tenha forte impacto sobre esses números, é claro que não cabe atribuir a culpa pela evasão unicamente a ela, até porque a evasão tem sido historicamente alta também nos cursos presenciais. As causas da evasão são, como sabemos, múltiplas e as causas dessas causas são variadas e complexas, muitas delas guardando uma relação estreita e direta com a mobilidade natural dos indivíduos, os seus sonhos, angústias e inquietudes.


De todo modo, fica evidente que estamos diante de uma modalidade de ensino em franca expansão e que, pela tendência dos últimos anos, veio para ficar e representará em breve a maioria das matrículas catarinenses e, talvez, do país. E a evasão, que já é historicamente alta nos cursos presencias, no Brasil e no mundo, será bem mais alta com os cursos a distância. Como destaca BAWA (2016), “Como um todo, 40% a 80% dos estudantes da modalidade a distância se evadem”, o que, segundo ele, é de 10 a 20% superior à evasão observada em ambientes de sala de aula tradicionais. Na mesma linha, João Vianney, especialista na área, em depoimento à jornalista Camila Rodrigues, do UOL, destaca que “Em um ciclo de quatro ou cinco anos, no ensino presencial a taxa de perda média no mercado fica ao redor de 45% a 50%. Na educação a distância esta mesma taxa pode chegar a 70%. Mas, tudo depende da qualidade de atendimento pedagógico que a instituição oferece". Mais contundente ainda é Sebastian Thrun, o pai dos Massive Online Open Courses, os MOOCS. Diante da chocante constatação de que menos de 10% dos matriculados terminavam os seus cursos on-line, ele declarou: “pouquíssimas pessoas parecem concluir os seus cursos quando não estão sentadas em uma sala de aula”.


Diante dessa nova realidade que, tudo indica, tornar-se-á nos próximos anos parte inextricável das atividades educacionais, não é mais possível fazer de conta que tudo será como dantes no quartel de Abrantes. Não será! A modalidade EAD, com todas suas variantes e possibilidades, fará parte das atividades diuturnas das comunidades acadêmicas em todos os cantos do país e do planeta. Se o isolamento trazido pela pandemia nos transformar em um moderno Rip Van Winkle ou Peter Klaus, pondo-nos a dormir e a esquecer dos problemas do nosso tempo, podemos nos deparar com desagradáveis surpresas ao acordar. A menos que as novas tendências da educação superior passem a ser estudadas com a devida profundidade, os índices de evasão prometem aumentar de forma devastadora na era pós-pandêmica, ameaçando de morte as recentes e importantes conquistas da expansão e da inclusão.


Textos consultados:


BAWA,Papia. “Retention in Online Courses: Exploring Issues and Solutions — A Literature Review.” Artigo publicado online: January 5, 2016 e disponível em https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2158244015621777. Acesso em 30 de janeiro de 2021.


OLIVEIRA, Vanderli Fava de et al. “Um estudo sobre a expansão da formação em Engenharia no Brasil”. Disponível em: https://www.ufjf.br/observatorioengenharia/files/2012/01/ExpEng-RevAbenge.pdf. Acesso em 20 de janeiro de 2021.


RODRIGUES, Camila. “Evasão é o maior problema do Ensino a Distância, aponta estudo”. São Paulo, Uol, 02/08/2012. Disponível em https://educacao.uol.com.br/noticias/2012/08/02/evasao-e-o-maior-obstaculo-ao-ensino-a-distancia-para-instituicoes-diz-estudo.htm. Acesso em 02/02/2021.


THELIN, John. “The Attrition Tradition in American Higher Education: Connecting Past and Present”. ERIC, 2010. Disponível em: https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED509617.pdf. Acesso em 16 de janeiro de 2021.


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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.