• Demétrio Weber

'Quem quer resultado não pode aplaudir confusão', diz Priscila Cruz


Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira (13/4), a presidente-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz, falou de antigos e novos desafios da educação brasileira nestes tempos de escolas fechadas, de ensino remoto improvisado e de incertezas ligadas à Covid-19.

Com clareza e serenidade, ela ajudou a desconstruir equívocos, como a ideia de que o Brasil gastaria demais com educação ou de que o sistema educacional brasileiro não teria nada de bom, uma vez que seus estudantes tiram notas baixas em avaliações internacionais.

Para Priscila, é hora de ampliar os investimentos na educação. O que passa pela aprovação de um novo formato do Fundeb − o fundo que financia a educação básica e cuja vigência termina em dezembro.

Retomada


Enquanto alunos, professores e pais tentam se adaptar à nova rotina de estudos, Priscila chamou atenção para o esforço que deverá ser feito na reabertura das escolas − seja lá quando isso for. A retomada do ano letivo, segundo ela, será o momento em que as redes de ensino poderão reduzir os efeitos negativos do fechamento das escolas.

As maiores críticas Priscila reservou ao Ministério da Educação (MEC) e ao ministro Abraham Weintraub, com quem a presidente-executiva do Todos pela Educação tem divergências públicas.

Instada a indicar quem poderia substituir o atual ministro, Priscila citou a nova secretária de Educação Básica do MEC, Ilona Becskeházy, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e autora de artigo publicado neste blog, no ano passado.

Confira trechos do que disse Priscila Cruz no Roda Viva:

Ensino remoto: Nenhum país tem conseguido chegar em uma solução perto de algo razoável, perfeita. Todo mundo está tentando descobrir o que tem que ser feito. Aqui no Brasil, a mesma coisa. A gente tem uma diversidade de respostas muito grande no país.

Volta às aulas: O que vai reduzir a desigualdade, o que pode recuperar esses alunos, diminuir o impacto dessa pandemia na educação é a volta às aulas. É o que a gente vai fazer quando essas crianças, esses jovens todos voltarem para as aulas. A gente tem que levar muito a sério isso. Eu cobro menos dos gestores o que eles estão fazendo agora. Mas eu, o Todos pela Educação, a gente vai cobrar demais as ações na volta às aulas.

Retomada: É possível fazer a recuperação, mas a recuperação não é no curto prazo. Ou seja, não é algo que a gente vai recuperar nos primeiros meses ou até no primeiro ano pós-pandemia ou pós essa crise mais profunda.

Merenda: A gente vai enfrentar várias crises sobrepostas, entrelaçadas. A gente já está começando a viver isso. Isso vai ficar muito forte no pós-pandemia. A gente vai viver uma crise econômica, uma crise educacional, uma crise sanitária de todo o sistema de saúde, uma crise de desemprego, uma crise social. A gente vive uma situação também que é, talvez, das que mais preocupam: a das crianças em situação de violência doméstica, estresse tóxico. Essas crianças vão voltar diferentes para a escola. Os professores vão voltar diferentes para a escola. Então, assegurar esses esteios básicos da educação, um deles a alimentação, é fundamental.

Enem: [Priscila defende o adiamento das provas] Muito jovem não vai se inscrever, porque está fora da escola. A gente já tem aí uma primeira injustiça. A segunda injustiça é que algumas escolas estão conseguindo fazer um trabalho muito bom não é perfeito, mas muito bom de ensino remoto. As outras não estão com um trabalho tão bom assim. Não é justo, são condições completamente diferentes. (...) Não vejo prejuízo nenhum da gente ter o Enem em janeiro, em fevereiro.

Fundeb: É na crise que a gente toma as decisões que vão moldar o nosso futuro. Uma decisão muito importante agora é preservar o Fundeb, porque a gente vai precisar ter um investimento substantivo em educação. E, quando eu digo substantivo, não é com irresponsabilidade fiscal.

Desigualdade: Apenas 9% dos alunos que concluem o ensino médio têm o aprendizado mínimo adequado em matemática. Sendo que os 25% mais pobres têm uma taxa de 3%, e os 25% mais ricos, de 64%. Estamos falando aqui de uma diferença de 61 pontos percentuais que está separando o mais pobre do mais rico. Eu não consigo não ficar indigada com uma situação como essa.

Tamanho do investimento: Esse é o problema da gente ter palpiteiros discutindo questões que são muito técnicas. O Brasil investe mais de 5% do PIB em educacão, acima da média da OCDE. Mas a gente precisa fazer duas distinções aqui: o nosso PIB per capita é muito menor do que nesses países todos. Então, o investimento por aluno é 40% do investimento dessa média dos paises da OCDE. A gente tem 48 milhões de alunos no Brasil. Quando a gente divide por essa massa toda, o recurso por aluno é muito menor.

Boas práticas: Eu queria ter a oportunidade também de falar um pouco que a gente não é terra arrasada. A educação tem bons resultados também. É falácia que a gente investe muito. Agora, com o que a gente investe, a gente poderia ter um resultado muito maior, muito melhor.

PT: Tem um ministro da época do PT que até hoje não fala comigo. Não é uma exclusividade desse ministro atual. A gente também teve problemas com os ministros da época do PT, e tem esse que realmente ficou muito chateado com a gente, comigo pessoalmente, porque nao aceita crítica.

MEC: Fazer política educacional é uma sequência muito longa de ações, políticas, todas entrelaçadas. Você tem que convencer e você tem que ter pessoas engajadas e implementar aquela política até chegar na sala de aula. Sem articulação, sem conversa, simplesmente do alto das redes sociais, fazendo confusão, isso não vai dar certo. Quem quer resultado não pode aplaudir confusão. Confusão é [algo] antagônico a resultados. A gente precisa aplaudir resultados. Aplaudir lacrada, a luta contra comunista, Paulo Freire etc., isso é bobagem. O que a gente precisa aplaudir são os resultados. E a gente precisa combater esse tipo de atitude, infelizmente, muito ruim para a educação.

Abraham Weintraub: Deve ser muito aterrorizante você ser ministro sem ter um preparo técnico, sem ser um gestor público. Acho que eles caíram numa armadilha, que é culpar o outro, criar um inimigo, ter uma retórica mais bélica, usar uma retórica do ódio, criar uma nuvem de diversionismo.

Confira a íntegra do programa Roda Viva de 13 de abril de 2020.

A educação passa por aqui.

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