• Bárbara Semerene

(Re)produzindo miniadultos?

Atualizado: Set 10



O vocabulário, os trejeitos, a forma de se expressar: em um espaço de seis meses, meu filho de recém-completos 8 anos parece ter se transformado em um miniadulto. Fico procurando achar nele aquela criança que voltava imunda da escola até fevereiro, trazendo gírias novas que aprendeu com os amigos e relatando a briga que teve por conta de um entrevero no jogo de futebol. Eu quase acho fofo e sinto orgulho quando o vejo articulando as palavras e descrevendo seus sentimentos e opiniões com a eloquência de gente grande, se metendo em nossas conversas sobre política e a pandemia. Mas logo me dou conta do quão penoso é acelerar este processo e encurtar a infância. Mais do que isso: noto que é um fardo pesado, e que é superficial esta aparente maturidade: os momentos de “miniadulto” são alternados com escapadas noturnas para minha cama no meio da noite após pesadelos, pedidos de colo e uma vozinha meio tatibitate que há tempos não o via fazer. Acho que não sou a única me deparando com estes comportamentos aparentemente contraditórios.


Está sobrando conteúdo e faltando recreio para nossos aluninhos virtuais. Está faltando rolar na grama, pique-pega, “belém-belém nunca mais estou de bem até o ano que vem”, “bem-me-quer, mal-me-quer”. Está faltando contato corpo a corpo com seus pares da mesma idade, especialmente para quem é filho único. As extenuantes aulas on-line, sem o respiro de brincar com os colegas (talvez a principal motivação das crianças irem para a escola), somadas a uma convivência quase que exclusiva entre adultos dentro de casa − testemunhando suas conversas, embates, reuniões de trabalho, preocupações, assistindo a seus programas na TV, acompanhando as tarefas domésticas − têm produzido uma representação adultizada dos nossos pequenos. Eles ainda têm tido de lidar de forma precoce mais proximamente com o medo da morte e, muitas vezes, com a própria morte de familiares e pessoas próximas, com o luto e depressões.


Algumas características do atual cenário nos remete às sociedades anteriores ao século XVII – claro que tomadas as devidas diferenças de todo o aprendizado e as experiências de lá pra cá.


Durante muitos séculos, as crianças foram consideradas adultos em tamanho miniatura, com uma função utilitarista na família. Não se conheciam suas especificidades psíquicas nem as etapas do desenvolvimento infantil. E a não existência de um sistema escolar de ensino institucionalizado e segmentado de acordo com faixas etárias tem tudo a ver com isso.

Até a Idade Média, a escola era reservada a um pequeno número de clérigos e misturava as diferentes idades. O que importava era a matéria ensinada, qualquer que fosse a idade dos alunos. Além disso, não havia um espaço exclusivo para a escola, eram aproveitados espaços na rua, um puxadinho aqui, outro ali. Muito menos havia um canto separado para as crianças. A maioria vivia imersa na família e era tratada como uma espécie de “menor aprendiz” dos ofícios dos pais dentro de casa. As famílias funcionavam como equipes de trabalho, numa época em que o ganha-pão se confundia com o lar. Tudo reunido em um mesmo ambiente. Alguma semelhança com o que estamos chamando de “novo normal”?

A descoberta da infância


O historiador Philippe Aries retrata bem a evolução histórica da infância em seu livro História Social da Criança e da Família, um clássico publicado nos anos 1960. O historiador francês relata que, dos pais, não se exigiam os cuidados afetivos com cada filho como hoje. A família não tinha esta função para os filhos, apenas a de ensiná-los a viver com honra e dignidade. Isso já começava entre os cônjuges: o sentimento de “amor” não era o que unia os casais naquela época, eles eram escolhidos de acordo com os interesses financeiros de cada família. Naquela cultura, “doçura” era considerada prejudicial à disciplina e ao ensino da moral à criança. A educação tinha conotação moral, absolutista, discriminatória, punitiva, coercitiva.


As frequentes mortes de recém-nascidos e crianças contribuíam para uma certa “frieza” em relação aos pequenos, visto que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Além disso, era comum serem afastados de suas mães logo que nasciam, e ficarem com uma ama de leite até que estivessem mais fortes, porque eram considerados vetores de grandes pestes, infecções e tudo quanto é tipo de contaminação, que facilmente atingiam seus corpos frágeis e desprotegidos.


A maior popularização das escolas a partir do século XVII, inicialmente com intuito disciplinador e catequizador, foi o que propiciou o início da descoberta das peculiaridades da infância. Ao reunirem muitas em um mesmo espaço exclusivo para elas, foi possível observar, pela maneira como se relacionavam umas com as outras, que tinham não só o corpo em formato menor do que os adultos, mas também necessidades particulares, especificidades cognitivas e afetivas diferentes das dos adultos. Ainda houve resistência de muitas partes até que a preocupação com a idade se tornasse fundamental, a partir do século XIX. Então começa um processo que culmina com as famílias se organizando em torno da criança, que passa a ganhar enorme importância, o que tornou necessário limitar seu número para melhor cuidar delas. A evolução da medicina, com o surgimento das vacinas, também proporcionou queda na mortalidade infantil, o que quebrou a resistência dos pais a se permitirem amar seus filhos desde pequeninos.


Depois de séculos de aprendizado a partir da escola, da evolução da medicina, da pedagogia e com o surgimento da psicologia e da psicanálise depois do século XIX, o grande perigo em que incorremos atualmente, ao ver nossas crianças com uma forma “adultizada” de se colocar, é achar que este comportamento revela um amadurecimento precoce e passar a tratá-los de igual para igual. Os pais precisam estar atentos para não se deixar enganar pelas aparências e tratar seus filhos pequenos como se fossem capazes de elaborar, como adultos, temas delicados e complexos, expondo-os sem filtros a dilemas e dificuldades humanas e a uma rotina sem fábulas e sem ludicidade. É preciso blindá-los minimamente e incentivar a imaginação, as brincadeiras. Nem sempre damos conta. Mas estar ciente desta questão já é um bom começo.


* * *

Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".