• Dilvo Ristoff

Esqueça um pouco os objetivos


Foto: Vitolda Klein / Unsplash

Um certo rei que gostava muito da companhia de Mulá Nasrudim, e de caçar, ordenou que o guru o acompanhasse numa caçada de ursos. Nasrudim estava apavorado. Quando, após a caçada, retornou a seu vilarejo, alguém lhe perguntou:

“Como foi a caçada”?

“Maravilhosa!”

“Quantos ursos viram?”

“Nenhum”.

“Como, então, pode ter sido uma boa caçada?”

“Quando você sai para caçar ursos, e você é como eu, não encontrar urso algum é uma experiência maravilhosa..."

– Michael Quinn Patton



– Se você é como eu ­– disse-me Michael, ao me servir o segundo cálice de vinho – você foi educado para definir os seus objetivos e, depois, sair no seu encalço.

– Igualzinho – respondi – sou como você, mas quem não é? A bem da verdade, acho que eu teria dificuldades de viver sem objetivos.

­– Pensei que o chato era só eu – disse Michael.

­– Chato? Como assim, chato?

­– Você tem razão! Pensando bem, não somos só nós os chatos! É assim com quase tudo na vida: os times de futebol da série A querem ser campeões, classificar-se para a Libertadores, classificar-se para a Sul-Americana, não ser rebaixados, etc.

­– Isso! E os times da série B, como o meu Avaí, querem ascender à série A, e o teu Figueira, da C, está louco pra voltar à B; os atletas olímpicos estão de olho nas medalhas.

­– E as universidades querem estar bem situadas no RUF, no Times Higher Education e no ranking de Shangai. Querem, se possível fazer parte das World Class Universities...

­– E as IES privadas querem a aprovação do MEC e mais lucros. Extrapolando: os ricos, como os banqueiros, querem ficar mais ricos, a classe média sonha em morar em Portugal e todos veem no alcance dos objetivos estabelecidos o sucesso, o coroamento de seus esforços ou de sua esperteza. Ninguém parece conseguir viver sem objetivos. Nem você, nem eu!

­– É o que eu acho. Ninguém consegue! Como professor, sempre fui obstinado pelos objetivos, atribuindo principalmente a eles o bom aproveitamento dos alunos na disciplina. Sempre preparei o meu plano de ensino, comuniquei o plano aos alunos e busquei cumpri-lo na íntegra.

– ­É mesmo? Você e a torcida do Flamengo! – ironizou.

­– Mais do que isso: por algum tempo, eu entregava o meu plano de aula a cada um dos alunos, numa página impressa no mimeógrafo, no início de cada aula...

­– Opa! Mímeo o quê? Faltou só dizer que era a álcool! Você é exagerado mesmo! Temos a mesma idade, ainda me lembro vagamente do que era um mimeógrafo, mas você, caramba!, é muito, mas muuuito pior que eu.


Tentando talvez amenizar a discordância comigo, ele fez uma longa pausa, enquanto eu procurava pelo país de origem e o teor alcoólico do vinho.

­

– Mas, de fato – continuou Michael, tentando ser mais gentil,­ em princípio, não há nada de errado com isso. És a demonstração mais cabal da importância dos objetivos no processo educacional. Impressionante! O sucesso está em atingir os objetivos traçados no plano, certo?

­– Certo! E sinceramente eu não consigo ver nada de errado nisso! Exceto, claro, quando os objetivos são falsos, dominados pela esperteza e esse negócio de querer ganhar sempre mais! Na avaliação também é assim. Desde os tempos do Tyler...

–­ Certo, certo, certo! – disse Michael, com certa irritação –­ mas, cá entre nós, você não fica às vezes com a sensação de que deixou de dar atenção a outras coisas importantes, só porque ficou preso aos objetivos?

­– É verdade! – tive que confessar. –­ Às vezes fico mesmo com essa sensação, especialmente quando os objetivos estão nitidamente inflados, minimalizados ou fora de lugar.

­– Pois, meu amigo, é por isso que tem muita gente querendo retomar a tal avaliação goal-free, livre dos objetivos. Nunca dei muita bola pra isso, apesar dos alertas de Scriven, Patton e outros, mas acho que há, de fato, algo a aprender com ela. Veja esta estória do Mulá Nasrudim.


Foi então que me mostrou a estória dos ursos, acima. Li de novo e fiquei pensando que nunca tive e não tenho dúvidas de que os objetivos me ajudam a expressar o que quero da vida, pelo menos em certos momentos, definindo com clareza o caminho a ser seguido. Se o caminho for interessante, maravilhoso! E se não for, ah, sim, daí a perda pode ser grande e é melhor mesmo cair fora enquanto dá. Mas, como diria o poeta Robert Frost, um caminho leva a outro e voltar é quase impossível. Ou seja, vamos sempre flutuar entre o alívio pela escolha feita e o arrependimento por nunca vir a saber como teria sido o caminho não trilhado...


– A estória é interessante, Michael, mas lamento dizer que quando vou pescar quero pegar peixes. Sei que há muito mais do que peixes na pescaria, mas ...

­– Aí é que está! Você, como a maioria, avaliaria a caçada de Nasrudim como um fracasso. Mas, há bem mais que isso!

­– Verdade! A primeira coisa errada nessa estória é o rei ordenar alguém a acompanhá-lo numa caçada. Rei não convida, não?

­– Convite de rei, tu sabes, é uma ordem... – disse Michael.

­– Vá lá! –­ pensei com os meus botões. ­Desde que não seja ordem de reizinho para pescar em área de preservação ambiental e que não mande exonerar o fiscal que o flagrou na ilegalidade...

­– Rei de bom gosto, esse! – falei. ­Conversar com um educador como o Mulá Nasrudim deve ser divertidíssimo...

­– Viu só? Você já está me dizendo que pode haver coisas além do objetivo da caça, que é caçar. Mas, entre nós, esse Nasrudim parece ser um péssimo avaliador! Afinal, considerou maravilhosa uma caçada que fracassou. Fracassou, é preciso dizer, sob a estrita ótica dos objetivos da caça.

­– Verdade, mas o que, meu caro Michael, teria levado Nasrudim a avaliar uma caçada fracassada como maravilhosa? Medo?

­– É possível, pois o texto diz, de fato, que “Nasrudim estava apavorado”. Ou seja, é preciso estar com muito medo para fazer uma avaliação dessas, uma avaliação contaminada. Estamos claramente diante de uma situação em que os sentimentos do avaliador e não as qualidades e as características do objeto avaliado (a caçada) determinam a avaliação.

­– Verdade! Interessante!

­– A segunda resposta à tua pergunta – continuou Michael – ­poderia ser que há bem mais numa caçada do que a caça. Ou seja, os objetivos originais nem sempre precisam ser o que mais importa. Talvez outros aspectos, como o prazer da experiência ao ar livre, a boa conversa, a camaradagem etc. etc., poderiam determinar que a caçada foi maravilhosa e aí teríamos que redimir o Nasrudim como avaliador, pois a sua avaliação poderia ser considerada justa. O fato, meu caro amigo, é que a avaliação só pelos objetivos parece bastante limitada, pois não abre espaço para outras revelações importantes.

­– Caramba! Acho que tens razão! Fiquei aqui tentando traduzir isso para a avaliação que fazemos dos cursos de graduação. Se o objetivo da visita da comissão de avaliação in loco for avaliar cursos fracos – aquela avaliação do INEP que só avalia cursos considerados fracos, orientada pelo frágil Conceito Prévio de Curso (CPC) –, não encontrar nenhuma fragilidade pode ser uma experiência maravilhosa... Por dois motivos: (1) não há necessidade de enfrentar os dissabores associados à comunicação aos dirigentes da IES ou do curso de que a avaliação foi negativa e (2) pode ser motivo de satisfação descobrir que o curso é bem melhor do que você imaginava.

­– Et tu, Brute! – exclamou Michael – um dos pais da criança identificando algo perverso nesse tipo de avaliação! Traidor do SINAES!

­– Epa, nem tanto! – protestei.

­– Cara, é perverso você sair a campo com a ideia pré-determinada de que um curso é deficiente e só querer encontrar fragilidades. Mas, o mesmo pode ser dito para avaliações orientadas a partir de uma suposta excelência. Ambas partem de pré-juízos, pré-conceitos e por isso mesmo levam à tendenciosidade e impedem que o avaliador veja algo além do que foi preparado para ver.

­– Por isso mesmo – concordei – tenho insistido que é salutar avaliar todos os cursos, periodicamente, deixando que eles falem para muito além dos indicadores pré-determinados. E idem, idem para as IES! Mas, há dificuldades...

­– Claro – disse Michael – claro! Todos devem ser avaliados, mas não só pelos objetivos. Eles nos levam a uma espécie de cegueira, à perda da visão periférica.

­– É verdade! Pensando bem, numa pescaria com amigos há bem mais coisas do que peixes. Peixes a gente pode comprar na peixaria.

­– Pois, então! Quando penso em objetivos, sempre me lembro da estória do Mestre Halcolm, contada pelo Patton. Conheces?

­– Não, essa eu não conheço. Tens ela aí?

­– Deixa-me ver. Tenho. Vou ler para você. Não é muita longa!


Halcolm era conhecido por se preocupar tanto com o bem-estar físico quanto com o bem-estar mental de seus estudantes. Era perceptível o seu esforço constante por relacionar as duas coisas em seus ensinamentos. O retiro incluía um programa de corrida. Todos os estudantes deviam correr até 8 km por dia uma meta difícil, mas atingível. Quando, depois de algum tempo, todos os estudantes haviam atingido essa meta, alguns mais facilmente que outros, ele os reuniu para um novo exercício.


“Hoje pela manhã”, disse Halcolm, “eu escolhi um novo trajeto para vocês percorrerem. Não se preocupem com a distância. Corram a distância que quiserem e com a velocidade que quiserem. Seu ponto de parada será registrado e a distância será repassada a vocês mais tarde. Vamos em frente! Corram!”


Naquela noite, depois de comer e descansar, Halcolm reuniu outra vez os estudantes.


“Hoje”, falou Halcolm, “alguns de vocês correram uma distância bem maior do que a dos outros dias. A maioria correu aproximadamente os mesmos 8 km do treinamento diário. Alguns correram bem menos. O que vocês têm a dizer sobre esses resultados?”


Um estudante mostrou-se surpreso com o fato de que vários estudantes tivessem percorrido uma distância bem menor do que os 8 km, considerando que todos tinham recentemente atingido a meta nos treinamentos.


“Algumas pessoas”, explicou Halcolm, “precisam de metas quantitativas específicas para se orientarem e para levá-los ao que de outro modo não atingiriam. Outros se sentem limitados por essas metas, buscando atingir só o necessário e não o possível. Alguns são capazes de atingir uma meta, revisá-la e seguir adiante em busca de novas metas. Alguns não necessitam de metas para continuar progredindo”. Halcolm fez uma pausa e depois continuou:


“A mesma diversidade vale para os programas. No percurso de uma avaliação, as metas afetam os programas de diferentes maneiras. Às vezes elas ajudam e às vezes atrapalham”.


“Mas, como”, perguntou um estudante, “podemos saber de que os programas ou pessoas necessitam? Quando as metas ajudam e quando atrapalham?"


“Nem sempre é possível saber”, disse Halcolm. “Às vezes você precisa tentar adivinhar. É claro que observações cuidadosas e experiência com diferentes situações o ajudarão a melhorar os seus palpites. Tome! Isto talvez te interesse”.


Halcolm entregou ao estudante um pequeno diário e partiu. O diário estava aberto na página que marcava o dia anterior à corrida sem metas. Os nomes dos estudantes estavam listados em três categorias: aqueles que Halcolm previu que percorreriam mais do que os 8 km; os que percorreriam algo próximo à meta do treinamento; e aqueles que percorreriam uma distância bem menor. Halcolm havia previsto, corretamente, o desempenho de cada um dos estudantes diante da corrida sem metas. No final do registro do diário havia uma pergunta: “Quando um palpite deixa de ser palpite?”

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– Que estória interessante, Michael! Muito interessante! Muita coisa pra pensar... Mas, qual era mesmo o objetivo desta nossa reunião?

­– Discutir a avaliação centrada nos objetivos, com queijo e vinho...??? – disse Michael, sem muita convicção.

­– Ufa! Se o objetivo da reunião tivesse sido discutir isso com queijo e cerveja, eu, como Nasrudim, daria graças a Deus por não ter visto cerveja. Às vezes é mesmo melhor não atingir os objetivos...

­– Ora, com um bom vinho, quem precisa de objetivos! Espere para ver o que o terceiro cálice tem a revelar!


Confesso que, depois dessa conversa com o amigo Michael, fiquei menos, digamos, obcecado por objetivos. Sei que nunca vou descartá-los por completo. Seria uma tolice, pois eles continuam sendo extremamente úteis: é sempre algum objetivo imediato, algum ikigai que me tira da cama todas as manhãs. Mesmo assim, posso garantir que minha visão periférica desde então melhorou sensivelmente, e as revelações até que são interessantes.


* * *

Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.