• Dilvo Ristoff

Epidemia da descrença


Foto: Johnatan Borba / Unsplash

Se nada permanecer destas páginas, algo – pelo menos – esperamos que permaneça: nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens, na criação de um novo mundo em que seja menos difícil amar. Paulo Freire




Relatei recentemente a minha experiência com a vacinação contra o coronavírus, quando destaquei a minha surpresa ao ver os aplicadores das vacinas tão preocupados em mostrar que havia líquido na seringa antes da aplicação e, depois, que ela estava vazia.


Fiquei com a impressão de que as pessoas insistiam em filmar o momento, menos para celebrar a chegada da tão esperada vacina e mais para ter a certeza de que o aplicador de fato enfiou a agulha no braço e apertou o êmbolo.


Concluí, portanto, que mesmo tendo superado o receio de virarem jacarés, criarem barba, falarem fininho ou, ainda, se tornarem agentes a serviço do partido comunista chinês (vai que a vacina é mesmo um chip líquido implantado sob as nossas peles!!!!), a descrença de muitas pessoas permanece grande. Elas desconfiam não só da vacina, mas também das pessoas que as rodeiam.


Pensei que eu tivesse exagerado quando falei que entendia que esta desconfiança generalizada mostrava que algo estava profundamente errado com o país. Era, afinal, um relato de uma observação pessoal, aqui do meu canto em Florianópolis. Pelas reações de muitos leitores, no entanto, percebo que a epidemia da descrença se alastra em velocidade hipersônica pelo país como um todo.


Uma leitora, de Brasília, confirmou que"foi assim quando meu pai foi vacinado ficavam insistindo para eu acompanhar tudo. Tempos estranhos”.


Outro leitor, do Rio de Janeiro, destacou que “também fiz questão de filmar e ter alguém observando de perto a seringa antes e durante a aplicação. É bem triste que tenhamos chegado a esta situação. Efeitos colaterais inexistentes até o sexto dia quando apareceram alguns daqueles descritos na bula. Mas até aplaudo isto porque confirma que realmente tomei a vacina. A desconfiança que circula não é boa companheira. Lamento”.


Parece que, em alguns locais de aplicação, o grau de desconfiança é ainda maior. Um leitor destaca a existência do que chamou de “protocolo da desconfiança”. Vejam o que escreve: “fiquei constrangido com o ‘protocolo da desconfiança’: (1) estou tirando o vidro da caixa; (2) veja o rótulo, tem 10 doses (ou 5, não lembro); (3) vou tirar 0,5ml; (4) veja a agulha, é descartável; (5) veja a seringa, tem 1/2ml (fiz as contas); (6) vai doer um pouco (não doeu nada, não sei se jogou fora); (6) me mostrou a seringa vazia. Fico com pena que profissionais honestas, tão cuidadosas, tenham que passar por isso. Mas, no ambiente louco que estamos, tudo é possível”.


Algumas leitoras destacaram que a desconfiança pode estar relacionada à questão de gênero. Uma leitora, de Porto Alegre, destaca que ela tem a mesma desconfiança da minha cara-metade e que é “um pouco mais desconfiada ainda”. Conta que tem filhos farmacêuticos e que estes vão esperar outra vacina. Ela decidiu que não vai se vacinar.


Uma leitora, em especial, depois de destacar que acredita na ciência, lembrou que a ciência é feita por seres humanos e que “algumas dessas criaturas têm permitido que seus achados sejam manipulados, em vários momentos, de acordo com as conveniências, e tomem destinos que não o benefício dos seres humanos e não humanos”. Diante disso, ela se pergunta: “O que será que nos faz, nós, mulheres, duvidar mais do que crer? Seria diferente se fôssemos em maior número no campo científico? Político? Não tenho respostas.”

Também não tenho respostas, mas fiquei pensando sobre estas questões e cheguei a algumas conclusões. Corrijam-me se eu estiver equivocado, mas constatei que a desconfiança generalizada que vivenciamos ultrapassa o nível das relações de vizinhança e que ela não é algo exclusivo ao DNA nacional (esta discussão fica para mais tarde), não é algo que caiu do azul do céu e tem causas indefinidas. Está a cada dia mais evidente que estamos perdendo o respeito pelas instituições e que isso respinga sobre o comportamento e as ações diárias de todos os cidadãos comuns. O que vivemos hoje não é uma simples crise de confiança, mas uma aguda epidemia da descrença.


Antes da vacina, pelos jornais diários, já havíamos aprendido que não dá para confiar cegamente na justiça, porque, politizados, juízes vendem sentenças, forjam provas em conluio com procuradores e condenam inocentes; não dá para confiar cegamente na polícia, porque há tantos policiais comprovadamente envolvidos com o tráfico de drogas, milícias e crimes, que a coisa há muito deixou de ser exclusividade do Rio de Janeiro; não dá para confiar na delegada, porque ela manda prender, espetaculosamente, com mais de uma centena de policiais uma autoridade educacional (que, até prova em contrário, é inocente!) como se fosse um bandido da mais alta periculosidade. Depois, descobre-se que a mesma delegada fabrica depoimentos, constrói falsos testemunhos, faz acusações infundadas e promove a construção de narrativas que humilham a ponto de levar inocentes ao suicídio; não dá para confiar no Zero Zero, porque ele, como podemos observar, tem memória tão fraca que não se lembra do que falou na última segunda-feira; não dá para confiar nos médicos, porque tantos deles – além de se tornarem mais políticos do que profissionais da saúde –, desde 1970, não querem mais médicos formados[1] e, como corporação, sempre olharam mais para o próprio umbigo do que para os interesses do país; não dá para confiar na mídia, porque tantos de seus destacados profissionais têm se mostrado sistematicamente parciais e partidários; não dá para confiar cegamente nos políticos, porque são tantos os que vendem a alma a seus patrocinadores, são tantos os que usufruem de seus mandatos ao invés de exercê-los e, agora, não dá para confiar nem mesmo no aplicador de vacina, porque, para os desconfiados dos confins da pátria, ele pode estar aplicando vento, pode não apertar o êmbolo, pode te “vacinar” com soro fisiológico, pode fraudar até mesmo a fraude... bem, nós vimos na televisão! Ou seja, amigos, bem-vindos à era da descrença.

Diante de tudo isso, concluo que estamos sendo simultaneamente vítimas de duas terríveis pragas que vêm infernizando a vida brasileira nos últimos anos: o negacionismo e a suspeição. São coisas diferentes, mas ambas são profundamente deletérias à vida social.

O negacionismo implica rejeitar o conhecimento, as evidências e os conceitos científicos mais consolidados em troca de crenças, crendices ou profecias. Para o negacionista, a Terra é plana e fixa, o Sol passeia de um lado a outro sobre a Terra, criando o dia e a noite, a pandemia do coronavírus não existe, fumar não causa câncer e não faz mal à saúde, e o chá do curandeiro é preferível ao remédio comprovadamente eficaz receitado pelo médico.


A suspeição, por outro lado, implica confiar desconfiando e, nos casos mais graves, não acreditar em nada e em ninguém, nem em si mesmo. A desconfiança, portanto, envenena e destrói a relação dialógica e educadora entre os indivíduos. Como bem lembra Paulo Freire, em sua Pedagogia do Oprimido: “Um falso amor, uma falsa humildade, uma debilitada fé nos homens não podem gerar confiança. A confiança implica no testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e concretas intenções. A confiança não pode existir, se a palavra, descaracterizada, não coincide com os atos. Dizer uma coisa e fazer outra, não levando a palavra a sério, não pode ser estímulo à confiança.”


Na atualidade brasileira, em termos genéricos, isso leva quase todos à suspeição: a justiça é suspeita, a mídia é suspeita, os cientistas são suspeitos, a indústria farmacêutica é suspeita, os médicos são suspeitos, os governantes são suspeitos, os políticos, os jornalistas, o síndico do prédio, o dono do posto de gasolina, os correios, o carteiro, o fiscal do IBAMA... Enfim, se gritar “pega suspeito”, não fica nem presidente, nem governador, nem vereador, nem prefeito.


Combine-se a isso, no contexto específico da atual pandemia, o abandono vacinal. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 9 de abril último, cerca de meio milhão de vacinados com a primeira dose não retornaram para a segunda dose. O mais chocante é perceber que mesmo profissionais da saúde parecem não confiar na vacinação. Destaca a Folha: “Os dados mostram que 7 em cada 10 vacinados que abandonaram a trajetória vacinal... são, sobretudo, profissionais da saúde (especialmente técnicos e profissionais de enfermagem) e indígenas”. Se os profissionais atuantes na área não confiam na ciência, o que podemos esperar dos demais comuns mortais? Como bem lembra o epidemiologista Pedro Hallal, “nenhum percentual de abandono é OK. Temos que tentar chegar muito perto do 0 ou, no máximo, 1%”. Em suma, quando o negacionismo e a suspeição se combinam, o cotidiano das relações de um povo se torna um inferno e a propensão para o desastre passa a estar logo ali na esquina. Temo que esta seja hoje a nossa situação e é urgente que façamos algo a respeito.


Entendo que não há uma solução mágica que faça com que repentinamente reconquistemos a confiança mútua e passemos a acreditar mais em nós mesmos como país, na nossa capacidade criativa e na nossa capacidade de viver a vida em harmonia e de igual para igual com as nações da Terra. No entanto, acredito que, como tudo na vida, também isso se aprende. Ou não!


Diante da epidemia de descrença nas instituições, é estarrecedor perceber que elas − centros irradiadores de poder − são lideradas ou conduzidas não por pessoas de pouca ou nenhuma escolaridade, mas quase que exclusivamente por pessoas formadas por nossas instituições de educação superior (profissionais da mídia, promotores, juízes, advogados, delegados, administradores, economistas, banqueiros, governantes, médicos, etc.). O alto nível de escolaridade, no entanto, parece que não tornou algumas ou muitas dessas pessoas nem mais confiantes na ciência nem mais confiáveis como cidadãos, deixando a desagradável impressão de que a escolaridade, a fé e o comportamento ético do qual brota a confiança pertencem a galáxias distintas.


Se é verdade, como quer Paulo Freire, que a educação não muda o mundo, mas que a educação muda as pessoas que podem mudar o mundo, talvez esteja mais do que na hora de repensarmos seriamente os modos de tornar a educação, dentro e fora das salas de aula, mais agressivamente voltada ao desenvolvimento do espírito científico e à formação cidadã, participativa e libertadora. Afinal, da mesma forma como aprendemos o que é um anacoluto ou um nanômetro, podemos aprender também a respeitar a ciência, a distinguir fatos de mitos, a distinguir conhecimento de fé, a rejeitar, sem perder a fé, que a Terra é fixa e plana e a aceitar, pelas evidências científicas, que ela é redonda e está em movimento. A educação participativa e libertadora é aquela que também nos ensina a conviver com o diferente, a respeitar o meio ambiente e a vida, a sermos solidários, democráticos e justos, e, claro, ao remover de dentro de nós os modelos hegemônicos dos poderes que alimentam a descrença, a confiar.

Aprendemos a ser cidadãos participativos, solidários e respeitosos pela educação que recebemos, mas é sempre bom relembrar que essa educação não vem só da escola, da família e da cidade, mas de todos os poderes constituídos do país – dos seus bons e dos seus maus exemplos. E, para que o bom exemplo possa triunfar e vir também dos espaços dos poderes constituídos, precisamos formar cidadãos altamente qualificados e não bárbaros eticamente desqualificados. Precisamos ainda abandonar de vez a desilusão, a apatia política, a politische Verdrossenheit, que nos assolam. É urgente provocar mudanças profundas nas plataformas do poder de nossa sociedade. E isso, hoje, significa, entre outras coisas, que precisamos, para manter a esperança de dias melhores, de mais Educação libertadora e de menos superstição. Como diria Paulo Freire, “num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”.


Confira aqui a crônica de Dilvo Ristoff mencionada na primeira frase deste artigo.

[1] Aos descrentes, sugiro que leiam “Uma saúde do tamanho do Brasil”, disponível em: http://flacso.org.br/?publication=opiniao-n9-uma-saude-do-tamanho-do-brasil


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.