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Ensino: não depender só do professor

Atualizado: Out 19


Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Arquivo

Por Gilberto Costa e Mariana Tokarnia


O ano de 2020 reservou muitos desafios para a educação. A continuidade da aprendizagem, entretanto, não pode depender exclusivamente dos esforços individuais dos professores, afirma o diretor e fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Ernesto Faria.


Na avaliação dele, é necessário engajamento de toda a rede de ensino e das unidades federativas para que o ensino seja garantido aos estudantes.


“Tem que haver um bom modelo de gestão, não passa só pela iniciativa do professor fazer algo inovador ou estar próximo dos alunos”, diz. “Tem que ser sistemático: o professor passa as informações para o coordenador pedagógico ou diretor, o diretor passa para a secretaria de educação, e aí é possível visualizar se os alunos estão aprendendo ou não."

Com a perspectiva de que o ensino remoto se estenda para o próximo ano letivo, Faria destaca que será preciso oferecer formação aos profissionais. “Há uma nova realidade: ensino, tecnologia e trabalho a distância vão se tornar mais presentes e uma necessidade. Há uma pauta formativa que precisa de investimento e precisa de olhar e acho que passa por secretarias [de educação] maiores, que têm mais estrutura, ajudar a oferecer formação para as secretarias menores.”


No estudo A Educação Não Pode Esperar, apresentado em junho, o Iede mapeou desafios e alternativas do ensino público durante a pandemia.


Em todo o mundo, de acordo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), mais de 180 países determinaram o fechamento de escolas e universidades, afetando 1,5 bilhão de crianças e jovens, o que corresponde a cerca de 90% de todos os estudantes no mundo. Aos poucos as atividades vão sendo retomadas. Os dados mais recentes mostram que cerca de um terço dos estudantes do mundo segue sendo impactado pela pandemia.  


'Tecnologia é irreversível'


O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Martins Garcia, avalia que ainda está em tempo de se adotar uma política de articulação nacional de ação emergencial para garantir as atividades escolares em meio à covid-19, atender quem deixou de aprender, capacitar professores e preparar a acolhida dos alunos quando a pandemia passar.


Garcia pondera que, mais do que possível, a ação é necessária, uma vez que o uso de tecnologias para lecionar “é irreversível”.


Já a presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Maria Helena Guimarães de Castro, afirma que há recursos públicos disponíveis para equipar escolas e apoiar professores e alunos.

Segundo ela, cerca de R$ 30 bilhões do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), criado em 2000, podem ser usados com essa finalidade.

Para Maria Helena, a pandemia fez com que a educação básica vivesse um novo momento, não só no Brasil. Ela acredita que haverá aprofundamento das mudanças após o retorno do funcionamento dos colégios e aposta na adoção do ensino híbrido, no incremento de atividades complementares nas escolas e de ensino por projetos e em mais atividades de pesquisa para os alunos.

Ela alerta, no entanto, que há risco de “acirramento das desigualdades” entre as escolas da rede privada e da rede pública, e que os alunos de colégios particulares devem sair na frente.

Condições distintas

As diferenças entre as condições de trabalho na rede pública e na rede privada fazem parte do cotidiano do professor de geografia Sidnei Felipe da Silva, que leciona em três cidades no litoral norte da Paraíba. Duas escolas são públicas, nas cidades de Mataraca e Marcação, onde também atende alunos da zona rural e de aldeias indígenas. O terceiro emprego é em um cursinho pré-vestibular, no município de Rio Tinto.

Na escola preparatória para exames, que é particular, as aulas são transmitidas das próprias salas, que ganharam câmeras e iluminação. “Às 9h, a aula começa, on-line e ao vivo, diferentemente do que ocorre nas escolas públicas”, compara. “O dono do cursinho percebeu que, se os professores ficassem dependendo das suas redes domésticas, existia o risco de perdemos conexão e os alunos ficarem no prejuízo.”

Já para as escolas da rede pública, Sidnei conta que posta matéria por meio de videoaulas, para que o aluno acesse a internet “na hora que puder”. Há também aqueles que recebem apenas material impresso com o conteúdo das aulas. E outros com os quais o professor consegue manter contato por WhatsApp.

Estúdio e blog

Para conseguir dar melhores aulas nas escolas públicas, Sidnei Felipe fez do quarto de hóspedes de sua casa um pequeno estúdio, criou canal no YouTube e mantém atualizado um blog para seus alunos. “O trabalho triplicou”, observa. O esforço do professor é reconhecido pelos alunos, que enviam mensagens carinhosas e de agradecimento.

Apesar do êxito com a educação remota, Sidnei Felipe não abre mão do ensino presencial e do contato com os estudantes. “Presencialmente tem o retorno do aluno no instante que a relação de ensino e aprendizagem está acontecendo”, afirma. “É justamente no contato em sala de aula que nós conseguimos diagnosticar as necessidades dos alunos. Só assim é que traçamos estratégias diversificadas para suprir as necessidades da turma.”


Edição: Lílian Beraldo

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