• Ronaldo Mota

Ensinar 'o outro' ao outro



É madrugada e um menino em um patinete se diverte cruzando na contramão com a sirene antifurto acionada. Em uma sociedade menos selvagem, a cena sequer existiria, dado que jamais a empresa usaria um sistema de proteção de propriedade baseado no prejuízo aos ouvidos alheios.


Mas o tema é o garoto. Ele e a reflexão de um educador insone na janela observando a cena. Já dei aula de estatística quântica, mas me confesso incapaz de abordar “o outro” com aquele aluno barulhento.


São contextos diversos, mas percebo que é muito mais complexo o desafio no caso do que com a quântica. O drama é que tentar elucidar acerca do “outro” talvez seja um de nossos maiores desafios educacionais contemporâneos. Se falharmos, estaremos cada vez mais distantes de construirmos uma sociedade, minimamente, fraterna e feliz, a qual valha a pena habitar.


Começo imaginando em que medida aquele garoto não é ele mesmo “o outro”. Quem sabe durante o dia eu com ele cruze e jamais me reconheça enquanto alguém com quem os seus olhos se cruzem. Erroneamente, mas compreensível, ele, como que por instinto, pensa: “Se ele nunca me vê, porque devo eu refletir sobre os seus ouvidos; ele é somente um ser distante na janela.”


Na mesma cena social há um presidente que no dia anterior afirmou que a melhor vacina é o próprio vírus, insensível a qualquer noção mínima do que seja “o outro”. A menos que esse “outro” seja um de seus filhos, aos quais reservou toda sua sensibilidade.


É o mesmo cenário onde as altas cortes de justiça tentaram antecipar para si o direito à vacina, passando muito distante da eventual possibilidade de existência do “outro”. Compõem esse mesmo ambiente corruptos e corruptores que não estabelecem nenhuma ligação entre expropriar dinheiro público e a carência de recursos em hospitais públicos e no SUS.


Enfim, estamos numa cadeia infinita, são fractais de nós mesmos que, de alguma forma, aquele menino, intuitivamente, captou e se permite não se sentir estimulado a levar em conta o senhor na janela.


Sendo bem sincero, como um educador deve ser, minha insônia não foi provocada pela sirene do patinete e sim pelas demais questões aqui abordadas. Volto a dormir e uma canção de Belchior não me sai da cabeça: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”.


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Ronaldo Mota é diretor científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação. Atua nas áreas de Novas Tecnologias e Metodologias Inovadoras em Educação. Foi chanceler e diretor executivo de Educação a Distância do Grupo Estácio, reitor da Universidade Estácio de Sá, professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador do CNPq, secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, secretário nacional de Educação Superior, secretário nacional de Educação a Distância e ministro interino do Ministério da Educação. Realizou pós-doutoramentos nas universidades de Utah/Estados Unidos e da Columbia Britânica/Canadá e foi professorial visiting fellow no Instituto de Educação da Universidade de Londres/Reino Unido, tendo sido condecorado pela Presidência da República do Brasil como Comendador, na Classe Grã-Cruz, da Ordem do Mérito Científico Nacional. Editor da Coluna reitoronline do Portal iG e Autor Convidado do Blog CISCO #EducationNow series (USA).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.