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Boas práticas e casos de sucesso na educação

Os 200 anos da Independência do Brasil serão celebrados em 2022, mas somente com educação de qualidade − e para todos − é que seremos verdadeiramente livres.

 
 
  • Demétrio Weber

Em Sobral, formação de professores dialoga com o 'chão' da sala

A professora Ticiane Maria de Sousa Silva trabalha há 11 anos na rede municipal de Sobral, no Ceará, cidade com o maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Brasil. Formada em pedagogia, ela já atuou como coordenadora pedagógica e diretora de escola de ensino fundamental – atualmente dirige um centro de educação infantil. Nesta entrevista, Ticiane traça um panorama das estratégias de Sobral para garantir o direito à alfabetização.


Educa 2022O que as escolas da rede municipal de Sobral fazem para alfabetizar seus alunos?

TICIANE SILVA– Dão o seu melhor através dos seus profissionais, que são muito dedicados e comprometidos. Temos acompanhamento individual para as crianças, aulas no contraturno, projetos de leitura, amplo acervo de livros de literatura infantil e material estruturado. Nas escolas há um acompanhamento diário da frequência, bem como reconhecimento para os alunos, por seu esforço, além de constante busca pela parceria com as famílias. Contamos com o apoio da Secretaria da Educação de Sobral, que elegeu a alfabetização como prioridade nos últimos 22 anos, o que faz a diferença para que a rede consiga um bom resultado. Dessa forma, temos acompanhamento por parte da superintendência pedagógica e administrativa, que dialoga com as escolas in loco, sempre auxiliando em nossas necessidades. Através desse acompanhamento, discutem-se estratégias, estudam-se resultados, há observação de sala com feedback para os professores, sempre com vistas a apoiá-los.


O que é mais importante na hora de alfabetizar uma criança?

– Para alfabetizar uma criança, é importante que a aula seja boa, atrativa, lúdica, de forma a gerar nela o desejo de aprender e o gosto pela leitura e pela escrita. Em Sobral, há uma rotina estruturada, que é a base para o planejamento do professor, garantindo uma grande qualificação do tempo pedagógico, que é a todo momento rico em aprendizagem. Essa rotina é flexível, tendo cada escola sua autonomia, de acordo com as necessidades. Há a realização de avaliação diagnóstica, para verificar as dificuldades das crianças, com vistas a gerar dados para discussão e replanejamento, buscando trazer estratégias que levem as crianças a avançar e a se alfabetizar no tempo certo. Temos ainda material estruturado, que dialoga com a rotina: tanto um material adotado pela Secretaria da Educação de Sobral, quanto o do Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Além disso, o professor tem autonomia para elaborar material de acordo com a necessidade de sua turma. Outro aspecto que não pode faltar no processo de alfabetização é a qualificação docente: em Sobral, todos os professores têm formação superior. No caso dos alfabetizadores, são pedagogos e têm formação continuada em serviço, ofertada pela Secretaria da Educação, através da Escola de Formação Permanente do Magistério e da Gestão Educacional, sempre em diálogo com o “chão” da sala. Por fim, para alfabetizar uma criança, o professor precisa de apoio, e, em Sobral, temos uma rede de apoio que dá suporte ao professor e o reconhece publicamente por seus resultados.



O que é mais difícil na alfabetização de uma criança? 

– A maior dificuldade dá-se quando não contamos com o acompanhamento em casa, pois fica a responsabilidade, que deveria ser compartilhada, apenas para a escola. Quando falamos de acompanhamento das famílias, é no sentido de, minimamente, zelarem por sua frequência, de darem atenção aos seus filhos. Para superar tal dificuldade, nossas escolas desenvolvem várias estratégias, como promoção de reunião de pais, plantão pedagógico para tratar com cada família sobre a aprendizagem de sua criança, visitas domiciliares, busca ativa, que objetiva trazer a criança para a escola em casos em que a família não a leva. Para a busca ativa, contamos com o apoio de profissionais da equipe administrativa.


É possível alfabetizar 100% dos alunos?

– Olhamos para 100% dos alunos, cada um com suas particularidades, fazendo-os avançar de acordo com suas possibilidades. Importante mencionar que, assim como em todas as redes, temos algumas crianças com deficiência, que poderão levar mais tempo para ser alfabetizadas. O mais importante é fazê-las avançar dentro de suas possibilidades, acreditando nelas e investindo em estratégias customizadas, em projetos, em planejamento específico e em muito acompanhamento por parte do professor e da coordenação pedagógica, bem como garantir a oferta do Atendimento Educacional Especializado. Essas estratégias fazem os alunos avançar.


Há um intenso debate sobre métodos de alfabetização no Brasil. Na sua opinião, o país deveria adotar um único método?

– Nota-se uma intensa preocupação com os métodos de alfabetização, como se eles fossem o principal assunto a ser discutido. No entanto, começar com essa discussão não é o mais importante para resolver os problemas de analfabetismo. Cada professor tem seus métodos, e cada criança tem sua forma de aprender. Para alfabetizar, às vezes faz-se necessário usar vários métodos: depende da necessidade da criança e dos conhecimentos do professor. Em Sobral, não temos método definido, pois acreditamos que o professor precisa de autonomia. O método é o que é melhor para a criança e para o professor.


Como as famílias podem ajudar na alfabetização de suas crianças?

– Tendo o compromisso de zelar pela frequência delas, perguntando como foi o dia na escola, de forma a demonstrar interesse e acompanhamento. Isso gera segurança na criança. Mesmo as famílias que não sabem ler nem escrever podem acompanhar, do jeito delas, garantindo que a criança esteja na escola todos os dias. Isso faz uma grande diferença. Temos, em Sobral , vários casos de famílias em que mães e pais não sabem ler, mas conseguem alguém para ajudar: um vizinho, uma tia, um irmão mais velho. E, nos casos em que isso não é possível, que pelo menos participem das ações na escola, como das reuniões, das palestras, dos eventos e que levem a criança no contraturno para acompanhamento individual, quando for solicitado pela escola, o que, no caso, ocorre quando a criança está com dificuldade na aprendizagem.


Na sua opinião, a formação que os futuros professores recebem na faculdade é suficiente para alfabetizar crianças?

– A pedagogia é um curso muito amplo. Não dá conta de formar um professor especificamente para alfabetizar. Embora em seu currículo tenha disciplinas sobre alfabetização, são poucas, diante da responsabilidade e do desafio que é fazê-lo. Penso que é preciso adequar a grade do curso às práticas necessárias a uma alfabetização eficaz.


Com base na sua experiência em Sobral, a qualidade da formação de professores melhorou ou piorou nas últimas décadas?

– De uma forma geral, a qualidade da formação dos professores melhorou muito nos últimos anos. Apesar de sabermos que ainda há um longo caminho a ser percorrido, quando o assunto é formação de professores, os pedagogos de Sobral têm a oportunidade de fazer um estágio remunerado nas escolas através de uma seleção pública, o que em muito contribui para que dialoguem entre teoria e prática. Além disso, em Sobral há uma Escola de Formação Permanente que ministra formação em serviço para os professores da rede, sempre à luz das necessidades da sala de aula.

 

Quem faz o blog

Demétrio Weber é jornalista, mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Violência e criador do blog Educa 2022. Acredita que a educação pode mudar o mundo.

Como repórter nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, entre 1995 e 2015, especializou-se na cobertura da área de educação.

Foi assessor de imprensa e consultor da UNESCO no Brasil. 

É autor, entre outros, do Guia do Ideb da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), dos capítulos 6 e 10 do livro Políticas educacionais no Brasil − O que podemos aprender com casos reais de implementação? e da reportagem More than money, failures of U.S. schools require new strategies, publicada no site do jornal The Washington Post.