• Dilvo Ristoff

Em ritmo de progéria



“No início de março de 1967, no leste do Canadá, uma criança de onze anos de idade morria de velhice. Ricky Gallant tinha apenas onze anos de idade cronológica, mas ele sofria de uma doença estranha chamada progéria, envelhecimento precoce, e ele exibia muitas das características de uma pessoa de noventa anos de idade. Os sintomas da progéria são senilidade, artérias endurecidas, calvície e pele enrugada. Na verdade, Ricky era um homem velho quando morreu, um longo tempo de mudanças biológicas tendo sido empacotadas em seus onze curtos anos de vida. Casos de progéria são extremamente raros. No entanto, em um sentido metafórico, nas sociedades de alta tecnologia, todos sofremos desta doença peculiar” (Alvin Toffler).


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A história de Ricky Gallant, acima narrada, está no livro Choque de Futuro, do psicólogo e futurista Alvin Toffler, publicado em 1970. O que Toffler discute são os impactos das mudanças sociais, econômicas e, principalmente, tecnológicas sobre a vida das pessoas. Para Toffler, choque de futuro é, na verdade, uma doença causada pela incapacidade dos indivíduos de conviverem com as mudanças quando estas ocorrem em ritmo muito acelerado. Incapazes de lidar com a mudança, algumas pessoas começam a rejeitar as inovações tecnológicas.


Metaforicamente, a 'progéria' provocada pela alta concentração de novas tecnologias impacta mais agudamente a sociedade atual do que a sociedade à qual Toffler se referia. Isso é perceptível em muitos lugares e situações: alguns rejeitam o sistema de compras com cartão de crédito, outros rejeitam o telefone celular, outros o home banking, outros as compras on-line, da mesma forma como muitos professores e alunos, no campus, rejeitam os Massive Online Open Courses (MOOCs), as lives, o e-learning e a educação a distância.


Segundo Toffler, a diferença entre o choque cultural e o choque de futuro é que, no primeiro caso, há uma solução clara à vista. Resolve-se o choque cultural voltando para a cultura de origem. Para o choque de futuro essa saída não existe, pois o futuro não mais replicará o passado, assim como o telefone, este instrumento do qual nos tornamos hoje tão dependentes, não mais será tão somente telefone, como antigamente. Queiramos ou não, o telefone será também gravador de voz, gravador de vídeo, câmera fotográfica, relógio, timer, cronômetro, alarme, calendário, caderneta de recados, espelho, calculadora, o seu banco, o seu toca-discos ou, se for mais velho, toca-fitas, o seu correio eletrônico, a sua rede social, o seu jornal, o seu espaço de pesquisa, a sua biblioteca, a sua muleta intelectual, o seu contato com o mundo. A cada dia o seu telefone será mais complexo e, pensando bem, talvez logo, logo deixe de ser chamado de telefone. Os alemães e suíços, já há algum tempo, referem-se ao telefone celular como handy, apropriando-se da palavra inglesa que significa simplesmente algo 'prático', à mão ou de fácil uso.


Futuro


Como o futuro não replicará o passado, as soluções para lidar com o choque de futuro são poucas, talvez só estas: (1) adaptar-se às mudanças ou (2) tornar-se um eremita, isolando-se da sociedade contemporânea. Alguns optam pela segunda alternativa e, de acordo com Toffler, “como sonâmbulos perambulam pela vida”, fazendo de conta que nada mudou, ignorando as mudanças, bloqueando a realidade em volta, fugindo das supostas ameaças do novo e tentando construir uma paz separada, buscando uma “imunidade diplomática à mudança”. Embora as pessoas mais velhas possam viver os últimos anos de suas vidas nessa bolha de irrealidade por elas próprias construídas, a maioria, mais cedo ou mais tarde, acaba por adaptar-se aos usos e costumes dos novos tempos e, claro, passa a incluir as novas tecnologias nos seus afazeres diários de cidadãos e de profissionais comuns.


Da mesma forma, a comunidade acadêmica, queira ela ou não, terá que considerar os impactos sobre o dia a dia trazidos pelo rápido desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação, dramaticamente acelerados pela pandemia que, no primeiro semestre de 2020, fechou as escolas do planeta.

E os impactos são muitos e serão perceptíveis por muito tempo. A cada dia que passa o campus lança-se mais à nuvem, agora com mais ímpeto em função das demandas da pandemia. É preciso ter clareza, no entanto, que essas mudanças não foram propriamente causadas pela pandemia, mas aceleradas por ela. A percepção da aceleração tem, sem dúvida, a ver com a 'progéria' psicossocial que atingiu a todos e que passou a deixar claro que não podemos ficar alheios às suas demandas. Subitamente, como Ricky Gallant, vivemos muitos anos em um e 'envelhecemos' ou amadurecemos ainda jovens para as tecnologias que estavam aí, à nossa disposição, já há algum tempo, e que só agora percebemos, de forma dramática, o quanto estavam subutilizadas.


Repentinamente, a necessidade de fazer frente ao esgarçamento das relações provocado pelo isolamento físico recolocou as tecnologias de informação e comunicação no centro das preocupações. Ao fechar as escolas e universidades, buscando restringir a propagação do vírus, vemo-nos diante de uma busca alucinada pela ressignificação do que já existe e que clama por utilização, sem, no entanto, pelo menos aparentemente, alterar a gramática profunda dos motivos de nossas ações.


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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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