• Dilvo Ristoff

Educar para mudar


Foto: Oladimeji Odunsi / Unsplash

Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo ... A esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã.


Paulo Freire – Pedagogia da Esperança








Em sua Pedagogia da indignação, Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, escreve que “se a educação não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. E acrescenta: “Se nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não da sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção”.


O mesmo podemos dizer da Universidade: ela, por si só, não muda a sociedade; ela identifica talentos, educa pessoas, dissemina o saber, forma profissionais e os entrega à sociedade para que eles possam contribuir para a transformação do mundo. Se a opção formativa da universidade for progressista, as chances são de que a sociedade poderá, com a ajuda de profissionais qualificados, melhor ajudar-se a si mesma.


E por que precisamos discutir isso? Simplesmente porque, como bem sabemos, as transformações trazidas pelos profissionais formados nem sempre significam mudanças sociais profundas e muito menos a melhoria da qualidade da vida para todos, por maior que possam ser as esperanças institucionais. Qualquer leitor minimamente assíduo das mídias terá a impressão, talvez a certeza, de que as grandes falcatruas país afora são perpetradas não por pessoas humildes e de baixa escolaridade, mas, ao contrário, por pessoas com educação superior, muitas delas formadas nas nossas melhores instituições.


É espantoso saber do engenheiro que, não por falta de conhecimento, mas por falta de escrúpulos, constrói prédios usando materiais inadequados – prédios que ele sabe que poderão cair e matar pessoas; do juiz que rouba milhões dos cofres públicos e que, assim procedendo, zomba da percepção de cidadãos comuns sobre o sentido de fé pública; do juiz que aceita auxílio moradia ao arrepio da lei; de procuradores que orientam as suas ações movidos por preferências políticas ou relações de amizade; de médicos que falseiam atestados; de farmacêuticos que falsificam receitas para aumentar as suas vendas de medicamentos; de delegados que abusam de sua autoridade; de militares de alta patente que afrontam as regras da democracia; de agrônomos que não se importam com o veneno que vai à mesa das pessoas; de biólogos que dão aval a políticas de destruição da vida; de economistas que se locupletam, fazendo uso de informações privilegiadas na bolsa de valores; de pastores que pregam a beligerância e confundem o amai-vos uns aos outros de que falava Cristo com armai-vos uns aos outros... Tudo isso nos leva a crer que algo está faltando à formação universitária. Embora o poder da educação para transformar as pessoas seja reconhecidamente significativo, fica evidente que algo mais precisa ser feito para mudar esse quadro que nos envergonha.


Relembro que Thomas Jefferson, ex-presidente dos EEUU – o homem que escreveu que todos os seres humanos nascem iguais e com direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade –, viveu a sua vida inteira sem libertar mais do que meia dúzia de seus mais de 600 escravos e que construiu um campus universitário com o cuidado de assegurar, junto à moradia de cada estudante, um espaço onde o estudante pudesse alojar o seu escravo. Esse espaço era o porão logo abaixo da moradia do estudante. Impossível não ficar perplexo com a crueza dessas revelações e com o malabarismo intelectual necessário para conciliar a afirmação, redigida por sua própria pena, de que todos os homens nascem iguais e livres com uma universidade que claramente afirmava o contrário. A instituição que criou, como percebemos, reproduzia a sociedade racista do seu tempo e buscava claramente instrumentalizar as novas gerações da aristocracia agrária para que estas pudessem assim, devidamente municiadas pela educação recebida, melhor preservar a sua posição hegemônica. Tratava-se, portanto, não de uma educação para mudar as pessoas para que elas pudessem contribuir para a transformação da sociedade, não de uma educação libertadora, como a que pregava Paulo Freire, mas de uma simples e deliberada instrumentalização dos filhos das elites.


É claro que os tempos hoje são outros e, em breve, com a crescente atividade acadêmica em redes interligadas – tendência que a pandemia do coronavírus acelerou e escancarou – a própria ideia de campus como um lugar parecerá coisa do passado das universidades, o que não nos faz deixar de duvidar que as elites mais azedas e obstinadas encontrarão na nuvem espaço para os seus escravos contemporâneos. É fato também que as universidades americanas, assim como as dos países europeus, democratizaram-se e, mediante políticas significativas de inclusão, expandiram o acesso aos grupos sociais excluídos. Registre-se que esses países têm hoje taxa de escolarização, bruta e líquida, várias vezes maior do que a do Brasil e dos países da América Latina, o que mostra o quanto a expansão e a inclusão se fazem necessárias à nossa educação superior.


Nossas carências, no entanto, não devem ser razão para negligenciarmos os alertas relativos às opções institucionais no tocante à qualidade da formação universitária. O que estou tentando argumentar vem ao encontro da segunda parte da declaração de Paulo Freire que serve de epígrafe a este texto. No sentido freireano, a opção progressista é a que quer mudar as pessoas para mudar o mundo. Como? Buscando a equidade, promovendo a justiça, respeitando o direito de todos, assegurando a liberdade para todos, aprendendo a conviver com a diferença, promovendo a vida. A outra opção formativa, importante mas insuficiente, é a que apenas busca a sofisticação e a atualização tecnológica ou, em outras palavras, o refinamento das técnicas e métodos para manter tudo como dantes no quartel de Abrantes.


Às vésperas da 3ª Conferência Mundial de Educação Superior, penso que chegou a hora de propor uma formação universitária à luz dos objetivos da Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas, para que a opção progressista de que fala Freire possa se materializar em nossos campi.


É claro que o acesso à educação de qualidade deve ser direito de todos, em todos os níveis e ao longo de toda a vida (Objetivo 4), mas a luta pelos demais objetivos da Agenda – pelo fim da pobreza, pelo respeito às diferenças, pela igualdade de gênero, pela paz mundial, pelo meio ambiente, pelo acesso à Justiça, pelo direito a uma vida plena e saudável, etc. – também é da universidade. E essa luta, hoje, requer de nós a criação de ambientes de formação para a cidadania e, de modo muito especial, para a formação da cidadania global. A Agenda 2030, assim como a sociedade brasileira, clama não só por profissionais municiados com as últimas tecnologias, mas também por cidadãos comprometidos com a justiça, com a liberdade e com a sustentabilidade da vida no planeta. E isso, penso, exige um redesenho urgente do fazer universitário.


Exige também que superemos a simples esperança de que o mundo vai mudar, como num passe de mágica, simplesmente porque as pessoas tiveram acesso à educação superior. Para que a educação superior possa contribuir para mudar o mundo, ela não pode ser simplesmente instrumental. Ela precisa ser libertadora e formar também formadores que vão promover a educação básica como prática de liberdade.


A educação libertadora, no entanto, não nascerá da esperança, mas da ação direta sobre a realidade em contextos específicos. Como diria Paulo Freire:


“Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo ... A esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã.”


Para que não caiamos na desesperança, no pessimismo e no fatalismo, e para que a nossa espera não seja vã, é urgente que façamos do campus brasileiro não só um espaço de formação de profissionais altamente qualificados, mas também um ambiente sociopolítico e cultural para a formação de cidadãos respeitosos e compromissados com a vida, com a justiça, com a equidade e com o convívio pacífico no país e no planeta.


Precisamos, por fim, um pouco mais da Pedagogia da indignação do patrono de nossa educação, que afirma que “não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor”. No contexto atual, em que fazer arminha, especializar-se em matar gente deixou de ser brincadeira de criança, repensar o campus para formar cidadãos é hoje um imperativo ético e uma rejeição categórica à continuidade do reino dos que, em conluio com a morte, zombam da vida.


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.