• Dilvo Ristoff

Educação superior para todos



Martin Trow foi, durante 36 anos (de 1957 a 1993), professor da Universidade da California, em Berkeley. Foi professor de sociologia e um estudioso dos sistemas de acesso à educação superior, tendo deixado como o seu mais importante legado, em vários livros e dezenas de relatórios e artigos, o registro da tendência americana rumo à migração de um sistema de educação superior de elite para um sistema de massas.


Trow teve o mérito de interpretar e descrever uma tendência americana, que ganha corpo nos anos de 1960, e de colocá-la em discussão entre as nações desenvolvidas do planeta. As suas apresentações diante dos países da OCDE, em 1973, e na Carnegie Corporation, em 1974, fizeram história. O que Trow percebeu, por mais que suas preferências e seu zelo pelas universidades de elite estivessem sempre à flor da pele, é que não cabia mais pensar o acesso à universidade como privilégio das elites. Havia chegado a hora de avançar para a ideia de que o acesso à educação superior era não um privilégio, mas um direito dos indivíduos, que deveriam ser instrumentalizados com técnicas, competências, conteúdos e métodos para que pudessem exercer papéis importantes na sociedade. A evolução da ideia de privilégio para a de direito individual, no entanto, também havia se tornado insuficiente na sua California do início da década de 1970, pois já estava em avançado processo de afirmação um entendimento muito mais forte e, potencialmente, revolucionário: o acesso à educação superior como uma obrigação social, um projeto de interesse público que deveria ser direcionado à preparação de todos para viverem em um contexto de rápida mudança tecnológica e social.


De elite, de massas e universal


Foram estas noções que levaram Trow a classificar os sistemas de acesso à educação superior como sendo de elite, de massas e universal, como etapas que inexoravelmente se sucederiam. No sistema de elite, o acesso está restrito a 15% da população da faixa etária correta; no sistema de massas, o acesso atinge entre 15 e 50%; e no sistema universal o acesso se dá para mais de 50%. Em todas as sociedades avançadas, segundo Trow, estava em curso uma transição do sistema de elite para o sistema de massas e, em algumas, deste para o universal. O que observamos hoje no mundo corrobora plenamente as observações feitas por Trow na década de 1970: um crescimento significativo da educação superior tanto nas nações desenvolvidas quanto nas em desenvolvimento. A tendência de crescimento se mantém tão expressiva que, em países industrializados, as taxas de matrícula já superam em muito os 50% projetados por Trow, chegando, em alguns casos, a até 80%, abrindo de vez o caminho para o acesso universal.


A classificação de Trow, em grossas fatias, talvez não tenha sido exatamente uma proposta, muito menos uma proposta progressista, pois fica a impressão de que os seus relatos são mais uma constatação, às vezes quase um lamento de que a festa elitista chegara ao fim, como se depreende da pergunta do título de um de seus artigos: 'Educação superior de elite: uma espécie em risco de extinção?' (1976). Talvez não em risco de extinção, mas certamente sob a ameaça do imediatismo e do utilitarismo do mercado e dos custos da expansão. No todo, Trow nos brinda mesmo é com uma descrição do processo de democratização em curso à sua volta.


Sua postura diante do processo guarda evidente ambiguidade: por um lado, reconhece a necessidade da democratização e, por outro, deixa claro que temia que o ensino superior de elite teria grandes dificuldades de se sustentar ao lado de um sistema de massas ou universal, pois, além de promover uma quebra da autoridade tradicional, a democratização poderia transformar a competição por recursos em guerra de facções acadêmicas e políticas. Por isso mesmo, a sua democratização aproxima-se muito do modelo californiano, que produziu efeitos importantes para a oferta ampla e irrestrita de educação superior à população do estado.

Modelo californiano


O Master Plan da California, de 1960, é bom lembrar, concebeu a educação superior como constituída de três modelos institucionais distintos, cada qual com a sua identidade própria: o sistema UC (University of California), do qual fazem parte, entre outras, a UC Los Angeles, a UC Santa Barbara e a UC Berkeley, esta última a universidade do próprio Trow; o sistema CalState (California State), com uma instituição de ensino de graduação em cada cidade de grande porte; e o sistema dos Colleges, com pelo menos um em cada cidade de porte médio. Desde as origens, o locus privilegiado da pesquisa de ponta e dos estudos avançados tem sido o sistema UC. É lá também que estão os mestrados, doutorados e os estudos avançados. Ao sistema CalState cabe o ensino de graduação plena (de quatro anos de duração) e alguns mestrados; e no sistema dos Colleges estão os pós-médios profissionalizantes com dois anos de duração, voltados mais diretamente a atender as exigências imediatas do mercado.


Em suma, Trow, a exemplo do modelo californiano, conseguia imaginar a convivência pacífica desses três sistemas, uma democratização segura, em que as diferentes instituições se temperam, mas não se confundem, impedindo que a força democratizante contamine por demais as instituições de elite, aumentando exageradamente o seu número de alunos, baixando padrões de exigência, enfraquecendo a autoridade dos professores catedráticos ou levando a uma participação, para ele preocupante, dos estudantes nas decisões do campus. Esta preocupação ficou evidenciada durante a revolta estudantil de 1968, que levou Trow a se isolar do departamento, desgostoso com a incapacidade da reitoria de lidar com o movimento. Certo ou errado, a verdade é que Trow tinha receio da chegada do vírus da democratização para dentro das universidades de elite. Em retrospectiva, os seus temores parecem nitidamente exagerados, pois as universidades de elite do mundo, por caminhos distintos, souberam se redesenhar para continuar a ser o que sempre foram: de elite. Pela sua alta especialização, pela alta qualificação de seu corpo docente, pela sua contribuição para o avanço da ciência, da arte e das tecnologias, pela sua capacidade de manter o apoio de governos e por se tornarem mais sensíveis às demandas da sociedade, elas conseguiram não só manter a sua reputação intacta mas, em alguns casos, apresentar-se como world class universities.


Já nos últimos anos de sua vida, por volta do ano 2000, ainda antes do advento decisivo da comunicabilidade móvel, do Ipad, do Twitter e do onipresente e onipotente celular, bem antes, portanto, dos MOOCS, Trow percebeu que as novas tecnologias de informação e comunicação trariam um novo e profundo impacto sobre a educação superior, sobre a sua estrutura de poder, sobre as formas de organização curricular, sobre percursos pedagógicos, sobre as relações entre professores e estudantes, sobre os modos de ensinar e as formas de aprender. Escancarava-se definitivamente a porta para a educação ampla, universal, disponível a todos, tornando inevitável a contaminação dos sistemas de elite, a cada dia mais forçados a adotarem modelos mistos de ensino-aprendizagem, a perceberem o campus como algo muito além de um lugar, tornando aos poucos menos importante a discussão sobre processos seletivos de acesso, fazendo a sua própria classificação de sistemas de acesso (de elite, de massas e universal) ficar com uma cara um tanto obsoleta.


Brasil


Ou será que não? Sim e não! Sim, porque, enquanto universidades de elite disputam o direito de permanecerem de elite ou de se destacarem como de classe mundial, cresce entre as nações do mundo a união em defesa de sistemas cada vez mais inclusivos de acesso, com a educação acontecendo não apenas no espaço do campus pelo período de dois, três ou quatro anos, mas ao longo de toda a vida e em todos os lugares (ver Meta 4 da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas). Não, porque por aqui, no Brasil, onde mais de meio século depois do processo de massificação do ensino superior a que Trow se referia, apenas se ensaia sair de um sistema de elite e excludente. Temos, pois, pela frente um longo caminho a trilhar até se consolidar o sistema de educação superior de massa previsto no nosso Plano Nacional de Educação. E não, ainda, porque, embora a ideia de educação superior como privilégio já esteja superada no mundo, há por aqui rançosos atores educacionais que ainda não conseguem vê-la como um direito de todos e como obrigação social. Por isso mesmo, a luta, hoje, no Brasil, é claramente pela afirmação de políticas públicas que comprometam os nossos governantes e a nossa sociedade com o acesso universal, possibilitando assim que o maior número possível de jovens possa transformar o direito em oportunidade.

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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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