• César Steffen

Educação sem distância

Atualizado: Nov 9



Somos seres sociais e em sociedade nos formamos e nos constituímos. Ao chegar à escola, à faculdade, à universidade, levamos nossa sociabilidade e nossa formação, nossas experiências, informações, aquilo que entendemos e pudemos aproveitar e assimilar do mundo e do nosso ambiente familiar e social como um todo, em sua amplitude de manifestações e aspectos.


Sabemos que o afeto é um ingrediente primordial em qualquer relação humana e que este deve estar presente em todas as fases da vida do indivíduo. Isso inclui, claro, a escola, a universidade e todos os locais, formas e processos nos quais uma pessoa possa e seja colocada em busca da construção de saberes necessários para sua vida.


Na obra de Paulo Freire, com destaque para Pedagogia da autonomia, nota-se a importância e a presença da afetividade como elemento e dimensão do processo educacional, vista como cuidado, interesse, empatia, amorosidade, proteção e até mesmo amizade na relação presencial e formal do educando com o educador.


Diversos outros teóricos e estudiosos da educação, mais precisamente nomes como Jean Piaget, Henry Wallon e Vigotsky, buscam compreender a importância do afeto na relação entre professor e aluno e seu impacto no processo de construção de conhecimentos, muitas vezes tendo ou construindo uma visão diferenciada do processo educacional tradicional, pautado pelo pensamento cartesiano.


"No século XIX, o pensamento newtoniano-cartesiano influenciou as ciências e todas as atividades desenvolvidas na era industrial. O ser humano acreditou que podia dominar totalmente o saber, fragmentando em áreas os conhecimentos. Esse processo reducionista influenciou todas as ideias. Esse paradigma newtoniano-cartesiano teve como foco o conhecimento, que foi dividido em partes fragmentadas o que dificultou o domínio do todo", escreveu Marilda Aparecida Behrens, em O paradigma emergente e a prática pedagógica.


Historicamente o homem e sua ciência preocupam-se mais com a razão e a lógica, deixando de lado um importantíssimo componente do ser humano, que é seu lado emocional, inseparável da personalidade e da sua psique. E essa visão estrutural, um tanto ainda rígida e formal, está impregnada nas formas de pedagogia ainda vigentes em nosso sistema educacional.


Mas a emoção, o afeto não se separam, não são esquecidos, apagados, abafados, desligados quando o aluno entra em sala de aula. Pelo contrário, estão presentes na formação das turmas, na organização das mesas, no desenvolvimento de trabalhos em grupos, até mesmo nas inimizades e desavenças normais, comuns ao ser humano.


Como diz Paulo Freire em Pedagogia da autonomia: “Tenho direito de ter raiva, de manifestá-la, como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga porque, histórico, vivo a história como tempo de possibilidade e não de determinação.”

Piaget reforça esta ideia de que o afeto é um importante componente do desenvolvimento cognitivo, mas estará sempre acompanhado da racionalidade:


O ser humano não é programável. Não se liga e desliga a afetividade e a racionalidade conforme o interesse ou o momento, eles caminham juntos na manifestação do ser em sua relação com o cenário e ambiente em que circula e se insere, adquirindo maior ou menor força e impacto a depender do cenário e objetivo.


Logo, não se pode descartar a afetividade no pensamento educacional. Segundo Wallon (1998), a afetividade é a manifestação do psiquismo, impulsionando o desenvolvimento cognitivo do ser, criando vínculos com que o cerca, e em manifestação sadia contribui para melhorar as condições de aprendizagem dos alunos.


O pensamento e as reflexões de Wallon, Vygotsky, Piaget consideram o pensar e o sentir como aspectos fundamentais e indissociáveis da aprendizagem. Os três autores convergem em suas visões e conceituação, quando apresentam e defendem a ideia de que a evolução da afetividade depende das construções realizadas no plano da inteligência, assim a evolução da inteligência depende das construções afetivas, indo assim ao encontro de Piaget.


De certa maneira, e guardando aqui os devidos limites entre pedagogia e psicanálise, convergem com Freud nesta visão. Já muito do pensamento de Freire se constrói com a ideia da relação aberta entre professor e alunos, na ideia de uma pedagogia orientada por, para e pelo pensamento afetivo.


Para Freire, um bom professor consegue trazer o aluno para junto de si, construindo uma proximidade e transformando em intimidade intelectual, de pensamentos, que unem e facilitam a construção do conhecimento. Como diz Paulo Freire em Pedagogia da autonomia: “Não é possível ao professor pensar que pensa certo, mas ao mesmo tempo perguntar ao aluno se “sabe com quem está falando.”


EAD


Mas surge, assim, a pergunta que nos provoca a refletir e escrever: como levar e construir essa afetividade, essa relação de troca, de confiança, de apoio e cuidado no ensino remoto e na EAD?


Claramente muitos podem citar que a principal barreira é a tecnologia, mas sabemos por várias experiências, canais e recursos que a tecnologia não raro facilita a afetividade, a troca, a interação e o relacionamento entre as pessoas. Logo, não se trata de pensar e investir em tecnologia, mas sim em processos, em procedimentos, em ações que ocorram e se coloquem por e através da tecnologia


Necessitamos, penso, de uma pedagogia que dê conta do digital, da EAD, do remoto e de sua complexidade além das técnicas e da mediação tecnológica, indo além da simples transposição de metodologias de ensino-aprendizagem, mas principalmente levando em conta a relação professor-aluno e superando, de vez, o pensamento newtoniano-cartesiano que ainda se faz presente e afeta os formatos de ensino.


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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