• Ronaldo Mota

A cobra mordeu o rabo


Imagem: Victoria Cotton/Pinterest

Inovação é considerada hoje o elemento propulsor da economia mundial. Ela está associada ao desenvolvimento de um novo produto ou processo, bem como à funcionalidade inédita de um serviço ou produto já existente ou à geração de nichos previamente inexistentes de mercado.


Portanto, educar estimulando a capacidade de inovar, contemporaneamente, é considerado estratégico. Porém, a grande dificuldade no campo educacional é que os modelos tradicionais, em geral, estão centrados, basicamente, em transmitir conhecimentos. Gerar abordagens educacionais que incorporem a ênfase em desenvolver capacidades inovadoras é um desafio gigantesco.


Explorar como o mundo da produção do conhecimento tem se modificado pode ajudar a inspirar diferentes abordagens acerca de como formar pessoas compatíveis com essa nova realidade.


Estávamos acostumados a uma cadeia linear simples, onde a ciência engendrava tecnologias que, a depender da capacidade de absorção do mercado e da escala do público consumidor, podiam se caracterizar como inovação. Essa cadeia linear distanciava a livre e descompromissada produção do conhecimento, a ciência, da extremidade oposta vinculada a atender as demandas do mercado consumidor, que é a inovação.


Nos séculos anteriores, a ciência se assentava na liberdade individual de cátedra e em linhas de pesquisa que caracterizavam o pesquisador tradicional, cuja função primeira era alargar as fronteiras, indo além do estado da arte. Nos tempos atuais, os balizadores com que se produz ciência têm se alterado de tal forma que uma nova dinâmica impõe que as demandas da sociedade passem a ser, cada vez mais, os elementos definidores, ainda que não sejam os únicos, dos principais programas de pesquisa.


Redes


Para tornar ainda mais complexo o contexto, atualmente, as inovações mais disruptivas vão além de atender demandas. Elas se caracterizam por criarem a própria demanda. Significa gerar produtos e serviços tão inovadores que o consumidor se convencerá ser impossível viver sem algo de que, curiosamente, jamais sentiu falta antes.


Ou seja, da pesquisa quase individual passamos rapidamente às imprescindíveis redes de pesquisa, das linhas de pesquisa quase isoladas estamos migrando para programas de natureza multidisciplinar, motivados por demandas em geral complexas e, portanto, praticamente intratáveis à luz de linhas de pesquisa ou indivíduos isolados.


Os movimentos acima podem ser descritos por uma substituição gradativa da cadeia linear sequencial, do tipo ciência, tecnologia e, por fim, inovação, por um círculo completo, na forma de um círculo, sem origem ou fim, envolvendo, simetricamente, ciência, tecnologia e inovação. Neste caso, as demandas da inovação influenciam e de certa forma definem os rumos da ciência. É a cabeça da cobra que mordeu o rabo.


Resolver problemas


Educacionalmente, a versão similar diz respeito à substituição gradativa da ênfase dos modelos tradicionais no domínio de conteúdo, técnicas e procedimentos, em direção a ampliar a capacidade de aquisição permanente e sofisticada de qualquer conhecimento. Significa ir além da cognição e explorar a metacognição, associada ao aumento de consciência, por parte do educando e do educador, acerca de como, onde, por qual mídia e com quem melhor aprendemos. São elementos essenciais para viabilizarmos trilhas de aprendizagem híbridas, flexíveis e, especialmente, personalizadas.


Nesse contexto, mais do que a compreensão de áreas específicas do saber, trata-se de explorar as conexões entre os domínios diversos, gerando ferramentas transdisciplinares capazes de resolver problemas ou missões, quaisquer que eles sejam. O conhecimento individual se mostra extremamente limitado caso não saiba ser conjugado com trabalhar em equipe, fruto da percepção empática sobre os demais membros e de suas características socioemocionais.

Há um relevante elemento-comum subjacente tanto à educação como à inovação: as tecnologias digitais assentadas na abundância de dados e na capacidade computacional inimagináveis há poucos anos. Tudo isso acrescido das possibilidades impressionantes em termos de algoritmos sofisticados, inteligência artificial e de máquinas que aprendem.


Educacionalmente, a cobra morder o rabo poderá ser a percepção de que formar profissionais capazes de enfrentar, com sucesso, os novos desafios passa por transcender o domínio simples e passivo das ferramentas digitais e de seus complementos.


A capacidade de inovar, fazendo uso ativo e criativo das novas tecnologias, passa também pelo domínio da cultura clássica e por apreço pelas artes. Isso inclui formar profissionais e cidadãos que saibam se situar onde estão, geográfica e historicamente, calcados numa formação humanística geral, tornando-os capazes de entender a totalidade e a complexidade do novo contexto.


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Ronaldo Mota é diretor científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação. Atua nas áreas de Novas Tecnologias e Metodologias Inovadoras em Educação. Foi chanceler e diretor executivo de Educação a Distância do Grupo Estácio, reitor da Universidade Estácio de Sá, professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador do CNPq, secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, secretário nacional de Educação Superior, secretário nacional de Educação a Distância e ministro interino do Ministério da Educação. Realizou pós-doutoramentos nas universidades de Utah/Estados Unidos e da Columbia Britânica/Canadá e foi professorial visiting fellow no Instituto de Educação da Universidade de Londres/Reino Unido, tendo sido condecorado pela Presidência da República do Brasil como Comendador, na Classe Grã-Cruz, da Ordem do Mérito Científico Nacional. Editor da Coluna reitoronline do Portal iG e Autor Convidado do Blog CISCO #EducationNow series (USA).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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