• Ronaldo Mota

Educação com a cabeça na nuvem



Há um bom tempo o ensino deixou de estar confinado entre as quatro paredes de uma sala, restritamente associado a um professor, acompanhado de quadro e livros-textos.


Não há nada de errado com o cenário acima. Pelo contrário, foi um enorme sucesso nos séculos anteriores e, particularmente, ao longo do século XX, o ensino tradicional contribuiu para que avançássemos muito. Em termos de expectativa de vida, passamos de 43 para 76 anos, em média. Educação, ciência e tecnologia foram responsáveis, direta e indiretamente, pelo expressivo ganho em qualidade de vida no século passado.


No entanto, a realidade é que nestas duas primeiras décadas deste século muita coisa aconteceu. Entre elas, o fato inquestionável de que os nossos educandos estão todos, o tempo todo, conectados via os ambientes virtuais. Portanto, a adoção de novas tecnologias e de metodologias inovadoras compatíveis, na prática, deixa de ser uma opção para as instituições e para os educadores, tornando-se uma condição sine qua non.


O mais relevante é que podemos usufruir dos predicados deste novo contexto. Em tese, temos, enquanto possibilidade, a oportunidade de cumprirmos uma promessa educacional que jamais levamos a cabo antes: conjugar qualidade com quantidade. Torna-se viável ampliarmos qualidade exatamente porque temos quantidade.


Abandonamos a concepção de que, para ser excelente, há que ser necessariamente ofertado a poucos, e avançamos para um novo paradigma: “para ser bom, educacionalmente, há que se ter muitos atores envolvidos, abundância de dados e capacidade analítica.” Em outras palavras, quanto mais informações disponíveis, mais conhecemos cada educando e, por conhecê-lo melhor, podemos desenhar e disponibilizar trilhas de aprendizagem mais compatíveis e efetivas.

A chamada “nuvem”, ou a “computação em nuvem”, é uma das ferramentas indispensáveis nesta cruzada por uma educação de qualidade e acessível a todos, disponível a qualquer momento e em qualquer lugar, customizável para cada contexto e propósito educacionais e, especialmente, personalizada. Progressivamente, a educação, com ganhos aos seus propósitos específicos, terá sua “cabeça” integralmente incorporada na nuvem.


Nuvem é, basicamente, uma tecnologia complexa que muda a ênfase até aqui concentrada em redes de computadores instalados em um determinado local específico para um espaço totalmente virtual, sendo este muito mais eficiente, incrivelmente mais seguro e, praticamente, ilimitado, em termos de capacidade computacional. Há muitos ambientes de nuvem disponíveis e cada qual com suas características e vantagens. Os mais conhecidos são: Azure da Microsoft, AWS da Amazon e Google Cloud.


O tempo todo − e cada um do seu jeito


Via nuvem, é totalmente viável implementar ambientes de aprendizagem compartilhados por alunos, docentes e gestores educacionais em plataformas inteligentes e integradas. Essa opção libera as instituições educacionais, em qualquer nível, do ensino básico à universidade, de manterem seus próprios centros de computação e demais ferramentas operacionais e de gestão, permitindo a elas, de forma segura, concentrarem-se no seu papel principal, ou seja, educar.


A adoção de ambientes de aprendizagem sofisticados, incluindo salas virtuais acompanhadas por um serviço permanente de analítica de aprendizagem (learning analytics), e a incorporação de conteúdos digitais, como laboratórios de simulação e realidades múltiplas, são elementos-chave para acompanharmos o desempenho de cada educando, permitindo customizar trilhas de aprendizagem personalizadas de maneira competente. Tais procedimentos seriam, literalmente, impossíveis, em escala, no ensino tradicional.


Em termos de custos envolvidos, pode significar, caso a caso, ganhos extraordinários, tanto do ponto de vista da escola como dos alunos. Com um ingrediente fundamental, só se paga pelo que se usa, garantindo uma relação custo-benefício ótima para todos. Além disso, a instituição educacional é dispensada de estar permanentemente atualizando hardware e software, que, além do custo, demandam envolvimento e tempo. O próprio ambiente virtual de aprendizagem pode estar envolvido no acesso à nuvem, o qual, necessariamente, para ser bom, demanda que seja desenhado para cada circunstância educacional, o que é complexo, porém, imprescindível.


Certamente, os benefícios educacionais podem ser imensos na adoção da nuvem, tanto para as instituições como para educandos e educadores. São caminhos ainda não totalmente explorados. Quanto antes aprendermos a lidar, maiores serão os proveitos advindos dessas inovações que viabilizam que todos aprendam o tempo todo e cada qual da sua forma única e personalizada.


(Publicado originalmente nas redes sociais do autor)


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Ronaldo Mota é diretor científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação. Atua nas áreas de Novas Tecnologias e Metodologias Inovadoras em Educação. Foi chanceler e diretor executivo de Educação a Distância do Grupo Estácio, reitor da Universidade Estácio de Sá, professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador do CNPq, secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, secretário nacional de Educação Superior, secretário nacional de Educação a Distância e ministro interino do Ministério da Educação. Realizou pós-doutoramentos nas universidades de Utah/Estados Unidos e da Columbia Britânica/Canadá e foi professorial visiting fellow no Instituto de Educação da Universidade de Londres/Reino Unido, tendo sido condecorado pela Presidência da República do Brasil como Comendador, na Classe Grã-Cruz, da Ordem do Mérito Científico Nacional. Editor da Coluna reitoronline do Portal iG e Autor Convidado do Blog CISCO #EducationNow series (USA).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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