• Flavio Comim

Fadas, economia e doutorado

Atualizado: há 3 dias



Qualquer bom projeto de pesquisa tem que começar com uma pergunta simples. Algo que seja entendido não somente pelos seus pares acadêmicos, mas pelo grande público. Se for uma pergunta que trata de algo que todos estão vendo, mas ninguém ainda deu um nome, voilà, você tem o efeito 'o imperador está sem roupa'. Se for algo contraintuitivo, que causa aquele efeito do 'contrário ao sentido comum', tem um impacto de revelação. Chegar a uma boa pergunta pode consumir todo o primeiro ano de um doutorado. Mas tem alguns projetos que já nascem como uma boa questão. Esse é o caso da proposta de Aletheia Vieira, que pergunta: “Existe alguma relação entre o jornalismo econômico e os contos de fadas?”

O legal é que a primeira resposta que ela vai escutar é um redondo 'não'. Claro que não! A economia é uma ciência baseada em modelos. "É a ciência do pensar em modelos e a arte de escolher modelos", como diria um dos economistas mais famosos da história, J. M. Keynes. Mais do que isso, a economia é uma ciência lastreada em fundamentos éticos utilitaristas, que, apesar de suas limitações, são universais, imparciais e impessoais. Não há espaço para contos, nem fadas, nem contos de fadas. Mais do que isso, a economia passou desde a Segunda Guerra por um processo de matematização que a deixou com um alto nível de rigor analítico. Desenvolvimentos recentes da econometria e de técnicas de avaliação de impacto reforçaram essa tendência de regrar o uso de evidências empíricas na economia. Do lado do jornalismo, que se limita a reproduzir o que dizem os economistas, parece que não há como afetar o que é dito. Assim, prima facie, essa é uma pergunta que merece um imediato e redondo 'não'.

Mas vamos olhar melhor. Vamos começar com o trabalho de Deirdre McCloskey sobre a retórica da persuasão na economia, para notarmos que modelos são nada mais do que objetos de convencimento e que toda a narrativa esconde uma estratégia retórica. Se aceitarmos o trabalho dela, jogamos pela janela essa falácia da ciência neutra e focamos as histórias que os economistas contam. Não sugiro a Aletheia entrar em discussões sobre o realismo da economia (revisitando artigos de Friedman, da década de 1950 até chegar ao realismo crítico do início deste século), pois isso a levaria a um caminho sem volta. Entender que a economia não é uma ciência neutra em valores e que existem modalidades retóricas privilegiadas me parece um bom ponto de partida.

'Ciência sombria'

Voltar às controvérsias 'Cambridge vs Cambridge' ou a como os militares americanos investiram pesadamente na formação da economia mainstream pode ser interessante do ponto de vista histórico. Livros do historiador Philip Mirowski, como o More Heat then Light: Economics as Social Physics, Physics as Nature’s Economics, de 1989, dariam ótimas leituras. Mas o mais interessante é ancorar esse processo sociológico e institucional de construção do mainstream econômico a um processo de socialização de economistas dentro desses princípios. Economistas como Arjo Klamer, desde o seu livro clássico Conversas com Economistas, de 1983, mostraram como esse processo de socialização acontece e como a economia, em grande parte, pode ser definida como aquilo que os economistas fazem.

Assim, antes de chegar ao jornalismo econômico, é interessante notar que a economia passou por uma transformação muito grande na segunda metade do século XX, cujo principal resultado foi a construção de um modelo ‘correto’ de pensar com fundamentações éticas, epistemológicas e antropológicas particulares (livros da grande antropóloga Mary Douglas mostraram o equívoco de os economistas construírem seus grandes castelos de areia baseados em pressupostos antropológicos muito limitados). Os 40 anos de livros e artigos do Amartya Sen mostraram, com as próprias ferramentas matemáticas do mainstream, as limitações éticas da 'dismal science' [ciência sombria].

Indiferença

Mas onde entram os contos de fadas? Como se sabe, a grande maioria dos contos de fadas, dos irmãos Grimm, Charles Perrault, Esopo, Andersen, La Fontaine, entre tantos outros, surgiram de histórias populares, na sua grande maioria formuladas não para crianças, mas para adultos. Interessante notar que, com o processo de escolarização de adultos, essas histórias, originalmente cruéis e sanguinárias, foram sendo convertidas em histórias para crianças, direcionadas para uma clara alfabetização moral' das sociedades. Aletheia terá que olhar com cuidado aqui se há havido uma evolução da estrutura analítica desses contos ou não; por exemplo, se a estrutura da narrativa de um Andersen pode ser reproduzida por um Perrault. Mas, em princípio, esses contos partem todos de uma situação de tranquilidade, sucedidas de um problema criado, uma situação de conflito e convergem depois para uma nova situação de tranquilidade, onde tudo fica resolvido. Esse marco narrativo foi e continua sendo usado e abusado por Hollywood e tantos escritores passados e contemporâneos.

Nesse sentido, lembra muito os modelos econômicos baseados no conceito de equilíbrio. Dos modelos mais básicos, como o modelo de oferta e demanda marshalliano, até os modelos de média complexidade, como modelos de informação assimétrica, até modelos mais complicados, como modelos de desenho de mecanismo à la Maskin. Todos partem de uma situação de equilíbrio. Introduzem um fenômeno externo. Existe então um processo de ajustamento e convergência a um outro equilíbrio. E há a introdução de uma nova situação de tranquilidade.

Mas isso talvez não seja o que há de mais interessante para Aletheia explorar. Modelos de contos de fadas têm uma clara estrutura ética que privilegia o comportamento pró-social. O egoísmo e o autointeresse são sentimentos menores e rejeitados nos contos de fadas. A vaidade, a crueldade da madrasta da Branca de Neve, o autoengano da raposa com as ‘uvas verdes’, a indolência das irmãs da Cinderela, a irresponsabilidade da Cigarra etc. são apenas poucos exemplos de como contos de fadas têm uma clara estrutura ética. E a economia também. Só que a economia foi construída na presunção de uma indiferença moral que, de fato, não é nada indiferente.

Abrindo as primeiras páginas de clássicos da economia, como Teoria da Economia Política, de Stanley Jevons, de 1870, ou Teoria do Valor, de Gerard Debreu, de 1959, Aletheia vai encontrar um argumento que define o sentimento de muitos economistas: “Estamos fazendo matemática, se alguns resultados se mostrarem promissores para a economia, ficamos contentes”. A retórica da 'economia como ciência' gerou muito conhecimento interessante nesses últimos 50 anos, e isso não deve ser negado. Mas a verdade é que a psicologia moral por trás desses modelos é muito frágil, levando a uma figura de agentes que são, na melhor das hipóteses, 'bobos racionais' (ou 'rational fools', como Amartya Sen os retratou em artigo com o mesmo nome, em 1976/77). A nova economia experimental veio para dar frescor à economia, mas há muito trabalho ainda pela frente.

Narrativas éticas


O movimento de matematização da economia (que é diferente de simplesmente usar a matemática) a afastou do sentido comum; transformou os economistas nos novos sacerdotes das sociedades ocidentais. Os economistas ganharam um poder social desproporcional. E isso enfraqueceu o jornalismo econômico. Fez do mesmo um reprodutor da narrativa e da ideologia vendida pelo mainstream econômico. Parte do problema é que os jornalistas não conseguem entender o suficiente de economia para poder ser críticos a ela. Mas a realidade é muito mais complexa, porque uma parte da heterodoxia da economia também não entende o que aconteceu na economia e oferece uma crítica a uma ciência econômica que não existe mais. Aí é que o trabalho da Aletheia pode dar uma grande contribuição ao nó que temos atualmente.

A economia hoje é altamente abstrata e idealiza situações, assim como os contos de fadas. Similarmente, a economia vende um modelo moral: o da austeridade, da poupança, do futuro, do sacrifício presente para a felicidade futura, do 'de gustibus non est disputandum' [gosto não se discute]. Além disso, a economia acredita que Mandeville e Smith mostraram como vícios privados podem ser transformados em virtudes públicas (Aletheia tem que ler o Eduardo Giannetti!). A economia tem uma estrutura narrativa em muitos de seus modelos mais populares que possui prima facie uma sequência lógica típica dos contos de fadas. Mas, a partir daí, pode ser que as duas sigam caminhos separados: enquanto os contos de fadas nos oferecem uma riqueza de narrativas éticas de caráter pró-social, a economia segue uma visão muito empobrecida do ser humano do ponto de vista antropológico, sociológico e mesmo político.

Boa sorte à Aletheia! Espero que algumas dessas reflexões a ajudem na elaboração de seu projeto de doutorado!

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