• Ronaldo Mota

Dissecando fake news


Foto: Reprodução.

Circulam na praça um conjunto de vídeos irracionais, irresponsáveis e, socialmente, danosos. Alguns deles tratam de falsos impactos na glândula pineal causados pelo uso de termômetros de infravermelho na testa. São centenas, talvez milhares, de vídeos similares completamente absurdos e , deliberadamente, distribuídos por redes de militantes organizados e robôs.


É menos inocente do que parece explorar o senso comum para convencer alguém de algo sem nenhum fundamento científico ou base real. Trata-se de preparar seres humanos para serem convencidos de 'fake news', mesmo quando absolutamente inverídicas.


Afirmar que a Terra é plana pode parecer inocente e quase bem-humorado, porém, é a mesma lógica que opera quando se quer, por exemplo, travestir um político, claramente desonesto e incompetente, em alguém supostamente honesto e competente.


Espalhar, sem nenhuma base científica, que um termômetro infravermelho faz mal à saúde, quando apontado para a testa, é parte do mesmo jogo que visa convencer pessoas a acreditar em qualquer coisa que a mesma rede organizada transmita.


Termômetro e energia


O termômetro infravermelho faz uso da propriedade física associada ao fato de que todas as coisas (incluindo seres humanos), a uma temperatura acima de zero absoluto (equivalente a -273,15 graus Celsius), emitem calor na forma de radiação térmica.


Os átomos estão em constante estado de movimento, possuindo energia cinética. As transições rotacionais e vibracionais de átomos e moléculas ou quando duas moléculas excitadas colidem: em qualquer dessas situações, energia na forma de radiação térmica eletromagnética é emitida.


O tipo de radiação térmica (infravermelha, luz visível ou ondas de rádio) emitida depende da temperatura da fonte. Além disso, quanto mais alta a temperatura, mais rapidamente os átomos e as moléculas se movem e maior a quantidade de radiação emitida.


Um termômetro infravermelho típico possui as seguintes partes: sensor infravermelho (conhecido como termopilha, que converte energia térmica em eletricidade), laser, lente convergente, sensor de temperatura ambiente, amplificador e outros componentes eletrônicos para converter e exibir os resultados em valores numéricos.


Quando o termômetro é apontado para algo ou alguém, um laser é acionado unicamente com o propósito de localizar bem o objeto, sendo de baixíssima potência, totalmente inofensivo e, o mais importante, não é o laser que mede a temperatura.


A radiação infravermelha, no caso, é emitida pelo próprio corpo humano, a qual é captada pelo aparelho. A radiação absorvida, passando pela lente convergente dentro da pistola, incide sobre um lado da termopilha. A temperatura da termopilha, no lado onde a radiação infravermelha impacta, aumenta proporcionalmente à intensidade de radiação incidente. O lado oposto da termopilha permanece a uma temperatura mais baixa. Essa diferença de temperatura leva ao desenvolvimento de uma diferença de tensão e, portanto, de eletricidade, o que caracteriza o efeito termoelétrico.


A leitura da temperatura da fonte emissora é propiciada por um circuito típico de aquisição de dados, e a leitura final é exibida em um painel de LED. Um sensor ambiental localizado próximo à termopilha ajuda a compensar qualquer outra radiação térmica que entra no aparelho a partir do próprio ambiente ao seu redor.


Ofensa à ciência


Em suma, as pistolas de temperatura, se bem calibradas, permitem verificações de temperatura mais precisas, rápidas e absolutamente seguras. Elas têm sido empregadas, sem contestação científica séria, para verificar se há um quadro de febre nas pessoas durante eventos epidêmicos como o da covid-19.


O uso de uma pistola de temperatura reduz o risco de contaminação devido à sua abordagem sem contato. Além disso, as leituras de temperatura são obtidas em um ritmo muito mais rápido que os métodos tradicionais. O posicionamento do laser na testa (em tese, poderia ser em qualquer parte do corpo) é porque a temperatura nessa região do corpo, em geral, não é afetada pelo uso de roupas.


Quando se levanta suspeita sobre esse procedimento, sem nenhuma base científica, é sim parte da preparação explícita para a maldosa arte de convencer pessoas sobre qualquer coisa, por mais inconsistentes e perigosas que elas possam ser.


Via a disseminação de receios sem fundamento e de teorias conspiratórias absurdas, aduba-se o terreno para ofensas à ciência, à educação, à cultura e às artes. É parte de uma estratégia de atacar a democracia, culpar os pobres pela sua própria pobreza, justificar teorias racistas e estimular, impunemente, o extermínio do que resta de meio ambiente.


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Ronaldo Mota é diretor científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação. Atua nas áreas de Novas Tecnologias e Metodologias Inovadoras em Educação. Foi chanceler e diretor executivo de Educação a Distância do Grupo Estácio, reitor da Universidade Estácio de Sá, professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador do CNPq, secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, secretário nacional de Educação Superior, secretário nacional de Educação a Distância e ministro interino do Ministério da Educação. Realizou pós-doutoramentos nas universidades de Utah/Estados Unidos e da Columbia Britânica/Canadá e foi professorial visiting fellow no Instituto de Educação da Universidade de Londres/Reino Unido, tendo sido condecorado pela Presidência da República do Brasil como Comendador, na Classe Grã-Cruz, da Ordem do Mérito Científico Nacional. Editor da Coluna reitoronline do Portal iG e Autor Convidado do Blog CISCO #EducationNow series (USA).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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