• César Steffen

Dimensão humana na EAD



Muito se fala − e é inevitável − da dimensão tecnológica da EAD. Em um momento em que os acessos e a necessidade de estrutura literalmente 'explodiram', aparecem todos os problemas que obviamente surgem nessa hora − e escancaram a precariedade do acesso à rede mundial de computadores no país.

Mas a maioria, quanti e qualitativamente, dos problemas acontecem na outra ponta: a dimensão humana do ensino. Claro, a EAD é feita de pessoas (professores) facilitando a aprendizagem de outras pessoas (estudantes). A essência do processo tem a mediação da tecnologia, mas isso não elimina o foco no crescimento e nas diversas formas de aprender e de ensinar.

Por mais que a tecnologia tenha evoluído, em um país com as diferenças e a dimensão do nosso, as questões humanas e da sua relação com a tecnologia acabam maximizadas, escancaradas em um momento como o atual.

E o conhecimento da tecnologia, por quem está na frente da máquina, por mais acessível que esta seja hoje, acaba interferindo no processo de ensino.

Barreiras

Sim, dos velhos sistemas Unix e DOS com telas monocromáticas e longas linhas de comando para operar − muitos talvez nem saibam a que nos referimos −, chegamos às interfaces gráficas e aos sistemas de operação totalmente visual, que requerem pouco aprendizado e oferecem uma experiência de uso rápida e intuitiva. Praticamente ligar e usar. Mas essa facilidade traz armadilhas, e certas operações mais complexas acabam não encontrando um usuário preparado − e aí surgem as primeiras barreiras à EAD.

Além disso, os dados e pesquisas indicam que o celular já se mostra como o principal meio de acesso à EAD em muitas cidades e instituições. O que não significa que a adaptação do conteúdo para esses dispositivos esteja na ordem do dia dessas instituições − escolas, faculdades e mais . Além disso, o celular nem sempre é do último modelo ou sistema, e a velocidade da conexão no Brasil é limitada, mesmo com o 4G. Mais uma barreira ao acesso à EAD

Complexificação

Somando essas barreiras às limitações de tempo e energia de um mercado cada dia mais competitivo, vemos que a complexificação da EAD não está na tecnologia, nos sistemas de gestão de conteúdos ou nas estratégias avaliativas, mas na capacidade do estudante de lidar com o ambiente e de se envolver com a aprendizagem. Não por acaso, os índices de evasão na EAD ainda são altos, principalmente se comparados ao ensino presencial.

Ou seja, a real expansão da EAD, não somente quantitativa, mas qualitativa, com real impacto no acesso à educação, passa pela capacitação do estudante para lidar com as variações e os formatos da EAD.

Como? Ótima pergunta. Ainda estamos experimentando para chegar a essa resposta.


* * *


César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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