• César Steffen

Digitalização e continuidade (2)

Atualizado: Nov 17



Seguimos, nesta semana, destacando e analisando dados da pesquisa Deloitte-Cisco sobre o panorama da aplicação da tecnologia no Brasil durante a pandemia. Focamos, claro, no que tange à educação.


Um elemento destacado pela pesquisa, e que precisa ser analisado por quem atua em educação, é a dimensão de recursos educacionais digitais (RED) aplicados, ou seja, os AVAs, bibliotecas digitais, recursos de avaliação, provas, testes, exercícios, interação direta e suporte ao aprendizado. Quando utilizados no contexto de sala de aula, REDs podem ser importantes agentes no processo de educação remota e a distância, e se tornam agentes incentivadores de práticas pedagógicas inovadoras.


Apesar disso, os REDs eram pouco utilizados nas escolas em geral, com uso moderado em escolas das classes A e B. Escolas de classe C e D tinham baixo uso e, nas escolas públicas, o que havia era ausência plena. Geograficamente, a aplicação se apresenta maior nas Regiões Sudeste e Sul, diminuindo significativamente no Nordeste e mais ainda no Norte. O mapa de aplicação parece reproduzir não somente o mapa econômico, mas também o de resultados nas avaliações nacionais.


Importante observar a variedade de recursos disponíveis. As soluções envolvem desde sistemas e aplicativos para sala de aula, bibliotecas virtuais, distribuição de conteúdos e criação individual e coletiva até a automação parcial de testes e provas, a partir de conteúdos gerados (o professor gera a questão, mas o sistema monta e avalia a prova para cada aluno).


Ou seja, não faltam soluções prontas ou adaptáveis. O que parece ter faltado até aqui foram velocidade e capacidade de gestão para a sua aplicação plena e com resultados. A tecnologia, tão pouco usada por alunos e professores, como citamos no artigo anterior, não atinge seu pleno potencial pela limitação daqueles que dela poderiam se beneficiar.


Urgência


A educação digital se mostra urgente em nossas escolas, sob o risco de ficarmos atrasados em relação a outros países ou mesmo de nos tornarmos reféns de redes sociais e de outros recursos digitais não educacionais, mas que impactam o ambiente escolar.


A liberação das aulas EAD devido à pandemia levou à adoção abrupta da tecnologia no ensino fundamental − como já comentamos em artigos anteriores. Mas novamente a distância entre ensino privado e público se mostra de forma clara e até mesmo dramática. Nas escolas privadas o percentual foi de 85% de adoção. Nas escolas públicas, 20%.


Ou seja, podemos inferir que mais de 80% dos alunos do ensino fundamental ficaram desassistidos em grande parte da pandemia − sendo que muitos provavelmente ainda estão. E essa interrupção nas aulas teve agravantes: a falta de estrutura tecnológica que citamos no artigo anterior somada à demora das secretarias estaduais e municipais de Educação em tomar decisões e providências em relação ao ensino remoto.

Mas isso não foi privilégio do ensino público. O ensino privado também enfrentou seus percalços, especialmente no que tange ao desenvolvimento das metodologias e das aulas. Muitas estratégias levaram em conta a participação direta e o envolvimento dos pais nas atividades.


Entretanto nem sempre os pais, envolvidos em suas atividades profissionais, conseguiram cumprir esse papel o tempo todo, o que não necessariamente chegou a prejudicar os alunos, mas, em alguns casos, atrasou o cronograma.


Adaptabilidade e flexibilidade foram as palavras-chave destes tempos. Todos, professores, gestores escolares, pais e alunos tiveram que aprender, muitas vezes, juntos. Além dos AVAs, até o WhatsApp foi citado como recurso de contato e interação entre professores e alunos, o que demonstra o nível de adaptabilidade que a pandemia colocou no cenário da educação.


Professores


Finalmente, cabe destacar um dado referente diretamente aos professores: a maioria citou que possuía equipamentos adequados para dar aulas remotas, mas mais de 80% mencionavam não se sentir capacitados para aulas on-line.


Além disso, mesmo com mais de 90% dos professores afirmando que seus equipamentos eram adequados, foi dito que esses equipamentos eram compartilhados com familiares, o que, sabemos, limita o tempo de organização e de preparação das aulas.


A pandemia trouxe desafios, mas também soluções e inovações. Seus impactos ainda serão medidos não somente nos alunos e professores, mas também em pais e na sociedade.


Voltaremos ao tema.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2. O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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