• César Steffen

De volta para o futuro

Atualizado: Set 9



O atual modelo de escola se baseia em formatos e premissas que remontam a séculos. E os alunos muitas vezes chegam ao ensino viciados no formato de um professor transmitindo conhecimento e eles sentados, absorvendo. Um formato que talvez já esteja em xeque, apesar de estar se repetindo e espalhando até mesmo na EAD.


Digo sempre para meus alunos em todos os níveis, e já faz bastante tempo: o principal desafio que eles precisam enfrentar não é compreender os conteúdos, os conceitos, as fórmulas, mas sim suas relações, a forma como foram construídos, o processo de pensamento que os desenvolveu. Assim, a compreensão e a aplicação se tornam mais perceptíveis, naturais, e o conhecimento é solidificado.


Aprender a aprender é o principal desafio que se coloca para estudantes de qualquer nível e vejo isso das séries iniciais à pós-graduação, onde não raro encontro estudantes cheios de conceitos e teorias, mas que têm dificuldades de relacionar, extrapolar as informações com que travam contato e dificuldade de tomar decisões frente a situações inesperadas.


Aprender a aprender requer um esforço de desapego. É preciso ser capaz de esquecer fórmulas, abandonar conceitos e duvidar do que se aprendeu e se sabe.

A zona de conforto do que sabemos é suficientemente confortável para atrapalhar ou travar isso. E a escola, em seu formato atual, ajuda bastante a criar esta zona de conforto.


Sabemos muito de física e química, mas nada sobre orçamento doméstico. Compreendemos a origem dos animais, nossa ascendência primata e a função dos órgãos, mas pouco sobre o funcionamento de nosso cérebro e sobre a gestão de nossas emoções.


Não quero, com isso, dizer que os conteúdos e matérias não sejam relevantes. Conhecer o mundo e o que faz parte dele é essencial no processo de educação. E a escola tem um papel essencial que deverá ser atualizado, revisto e reforçado em breve de socialização, de ensinar o convívio, a resolução de crises e problemas, de enfrentar desavenças, de lidar com a autoridade e várias outras habilidades e competências psicossociais.


Mas, mantendo-se em um formato de mera transmissão de conteúdos, a escola verá rapidamente sua importância social reduzida e isso já está acontecendo.


Algoritmos


Um algoritmo com inteligência artificial é capaz de rastrear e compilar dados e prever o que você irá comprar e quando. E prever também qual estímulo e qual oferta poderá levar você a agir.


Em um momento em que um smartwatch da Apple já foi homologado como fonte de dados médicos nos EUA, é fácil imaginar que um algoritmo possa 'ler' seu processo de aprendizagem, a maneira como você está lidando com o conteúdo, identificar pontos fortes e fracos e desenhar um percurso de aprendizagem e avaliação que trabalhe os conteúdos e as competências necessárias.


contei como fui superado em biologia dos pombos pelo meu enteado graças a um desenho animado da Netflix. Ele nem precisou do Google, da Wikipédia ou de outros sistemas tecnológicos que tanto nos fascinam. Imagine agora esse menino chegando aos bancos escolares e ouvindo um professor ou professora falando por duas horas sobre regras de crase ou sobre o clima do planeta. Eu já imagino o bocejo e a vontade de ter o videogame à mão que ele sentirá.

A EAD e outras formas de educação estão repetindo estes formatos, estes padrões, estas lógicas. E muitas tentativas de mudança de padrão esbarram nas naturais resistências.


É errado? Não. Mas a pergunta que fica é: até quando, quanto tempo irá durar e perdurar essa lógica?


Não sei responder. Vejo muitos analistas e 'futurólogos' tecendo regras e modelos que deverão substituir o que temos hoje, mas com muito foco na tecnologia e nos processos, nem sempre dando o devido destaque ao processo humano.


Não me fascino com a tecnologia. Como o historiador Yuval Noah Harari, questiono se nós dominamos as tecnologias ou se elas já não começaram a nos dominar. Lembro da cena do jantar em família do filme De volta para o futuro II em que os filhos aparecem imersos em realidade virtual: é inevitável a comparação com os smartphones e as redes sociais de hoje. E penso que deslocamos o foco do essencial, do humano.


A tecnologia não é dominante, afinal, ainda é desenvolvida por e para seres humanos. Então, imagino que somente quando tivermos na sala de aula professores que vivenciaram essa realidade tecnológica dentro e fora da escola e da faculdade é que teremos mudanças reais. Até lá, os velhos paradigmas seguirão ditando as regras, e os novos formatos enfrentarão resistências.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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