• Bárbara Semerene

Dá licença para a dor passar



Tá chorando? Corre. Dá chupeta. Põe no colo. Põe no peito. Toma a mamadeira.

Machucou? Corre. Assopra. Faz carinho. Dá beijinho. Curativo. Pronto! Já passou.

Sofrimento, dor, angústia: sentimentos aversivos dos quais a gente quer distância. O contato com eles parece insuportável, assustador, uma ameaça ao viver.

Mais insuportável ainda é ver filho sofrer. Desde que nasce, faz-se tudo para calar o pranto, enxugar as lágrimas. Queremos que sejam felizes. Vinte e quatro horas por dia. Leva para o parquinho. Judô. Natação. Aula de música. Casa dos amigos. Praia. Festa de aniversário. Disney. Cinema. Teatrinho. Casa dos avós.

E agora, pandemia. Como faz com a melancolia?

Depressão


Outro dia recebi um alerta pelo WhatsApp “preste atenção se seu filho estiver amuado, mais calado, mais nervoso, mais choroso”. Não orientava sobre o que fazer nesses casos. Só para observar, tomar cuidado, pode ser depressão. DEPRESSÃO. Depressão parece ser uma caixa onde se guardam certos tipos de sintomas, sentimentos, comportamentos. Mas será que não importa onde esteja essa caixa, se na praia ou trancada no armário? No sol ou no escuro? E a cor da caixa, importa? Se tem frestas ou é lacrada, faz diferença? Tem sempre o mesmo nome, em qualquer contexto?

Afinal, tristeza é sempre ruim? Não serve pra nada? Não cabe em contexto algum? Toda tristeza é depressão?

“Que mania que você tem de felicidade”, ouvi num filme. “Eu sei que vou te amar” era. Do Arnaldo Jabor.

Mania... Para além do senso comum, a neurociência define mania como um transtorno cerebral que está no extremo oposto da depressão: felicidade sem motivo. Fisiologicamente, excesso de atividade do sistema cerebral da recompensa. Incapacidade de autocrítica e de avaliação da realidade e de si mesmo. Tudo o que a pessoa pensa, diz e faz lhe parece extraordinário. Ela tem uma autoconfiança desproporcional. Um excesso de autossatisfação.

Me pergunto se, paralelamente e antagonicamente ao boom de diagnósticos de depressão, alimentamos uma epidemia de mania coletiva não diagnosticada. Aliás, me questiono se a quantidade de diagnósticos de depressão é, em parte, também conseqüência desta expectativa exagerada (e irreal) de felicidade coletiva, obrigatória e constante, sem brechas para que qualquer sensação desagradável escape pelos poros.

Somos e criamos nossos filhos para ser felizes. E desprezamos, ignoramos, nos cegamos para qualquer sentimento considerado “negativo”. Angústia? Inveja? Ciúme? Tédio? Vazio? Apaga. Abafa. Toma remédio. Faz exercício. Ouve uma música. Distrai.

A neurociência explica que tristeza é um sentimento adaptativo (ajuda o ser humano a se adaptar melhor em seu ambiente): indica que um fato foi doloroso e deve ser evitado na busca incessante do indivíduo por bem-estar. É um sinal para que o cérebro reveja sua maneira de interagir com os outros, o mundo à sua volta. Já a depressão é excesso anormal de ativação de regiões do cérebro envolvidas na produção da tristeza e de respostas ao estresse.


Palco

Meu filho tem sentido muita saudade de sair de casa, de ver os avós, de dormir na casa deles, deitar no colo, dar beijinho, receber carinho, lanchinho. Ao mesmo tempo, tem sentido muito medo. Reluta em dar um passeio ao ar livre. Tem tido pesadelos. A morte sempre presente nos sonhos, rondando a gente. “Mamãe, meu corpo tá esquisito, uma sensação estranha, de não querer fazer nada”, ele me diz de vez em quando. De dia, alterna entre momentos de euforia – porque lhe enchemos de carinho dentro de casa, revistinhas, novos brinquedos e temos ampliado os horários de jogos de videogame – e de uma quietude e um tédio incomum para um menino que vivia em trânsito, entre a escola, a quadra de futebol, as aulas de inglês, de judô e de xadrez, as festas de aniversário que preenchiam nossos finais de semana exaustivamente.

Angustiado com a tristeza do menino (já está tão difícil lidar com a nossa), o pai quase comete uma insensatez. “Ah, vamos deixá-lo ver os avós, dormir na casa deles. Esse isolamento é uma sacanagem.” É o mesmo impulso de dar a chupeta, dar a mamadeira, assoprar o machucado. Só que, nesse caso, o “curativo” proposto talvez seja prejudicial.

Vem a psicologia, com sua teoria do crescimento, e diz: o curativo é deixar sofrer. Dar vazão ao sofrimento faz com que ele passe com mais naturalidade. Pleno, poderoso, o sofrimento entra, sobe no palco, faz a sua cena, arrasa, e vai embora satisfeito. Abafá-lo, despistá-lo deixa restos e rastros pelo caminho, por mais tempo, assombrando os sonhos, escapando em crises de choro ou de pânico ou de raiva. O que faz o ser humano ficar “preso” em determinadas fases de vida é recalcar, guardar os sentimentos considerados “negativos” (e, no entanto, tão humanos) que não puderam vir à tona e ser expostos. Escutar, dar a mão, sofrer junto, estar do lado, deixar falar. Não calar o corpo. É assim que ele passa.

Busco também na filosofia o meu passo. Schopenhauer ensina que o sofrimento é produtivo. A consciência da morte aciona a busca por respostas, a vontade de conhecer, saber, viver. Nos leva a refletir sobre a existência. Esta curiosidade, perplexidade e espanto em relação à realidade nos desperta para o desejo de investigar. A vontade, que mais tarde Freud chamou de pulsão de vida (em um conceito um pouco diferenciado), essa força irrefreável e irracional, é o que mobiliza o ser humano. Ao tomar consciência do sofrimento humano, eu acesso não só o meu, mas o sofrimento do outro, o que implica uma experiência de compaixão, uma reflexão ética. A compaixão – que hoje costumamos chamar de empatia – nos faz transcender a individualidade e reconhecer que todos somos um, atravessados pela mesma força. Ela nos faz reconhecer experiências de injustiça, opressão, coerções.

Em tempos de pandemia, quem não sofre minimamente é que parece viver um transtorno qualquer. Ter consciência do sofrimento é preciso. Deixá-lo se expressar em nós e nos nossos filhos, necessário. Sensibilizar-nos, essencial.


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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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