• Rômulo Paes

Crônica de uma queda



Que me perdoem os amigos que fizeram de Brasília sua morada, mas o inverno na Esplanada é quase glacial. As estações mais quentes também maltratam os distraídos. Pois bem, distraído estava o brevíssimo ministro da Educação, que foi lançado ao mar nesta semana. Sim, Brasília tem um mar sempre revolto, pronto para devorar grumetes.

O anúncio do novo ministro até que foi bem recebido. Se não era um pesquisador, havia realizado um formação acadêmica completa. Tinha experiência docente de várias décadas. Colocava alguma diversidade em um gabinete de homens brancos (envelhecidos machos alfas). Ele sabia exibir um sorriso sincero, o que conta bastante em um governo que está sempre pronto a odiar alguém. E, o melhor que tudo, substituía um ministro muito ruim, que acabara de cair para cima, destinado a levar as suas provações digitais para Washington. I’m singing in the World Bank (ou não, diria um moderno compositor baiano).

Não resistiu à primeira lufada de vento. Aqui vai um breve inventário dos golpes que lhe foram desferidos:

1 – A imprensa laica de Brasília não perdoa o passado de ninguém. Os navegantes têm que estar preparados para ser confrontados com as vilanias que deixaram guardadas em algum lugar. O Currículo Lattes é um dos piores lugares para isso.

2 – Ninguém lança no seu currículo a história dos seus fracassos. Contudo, muitos gostam de converter em sucesso títulos que não foram obtidos. Dois ministros informaram mestrados que não obtiveram e um secretário do Tesouro foi flagrado ostentando um doutorado não concluído no MIT. Aliás, no curso da polêmica, foi até dispensado de ressarcir a União pelas bolsas recebidas. Em governos anteriores, também situações do gênero foram observadas.

3 – Não é preciso ter doutorado para ser ministro da Educação. Mas, não é de bom tom que um ministro recém-chegado tenha que responder por tantas controvérsias quanto aos seus títulos. Ainda mais quando a pasta que dirige avalia as instituições de ensino superior, escrutinando a qualificação dos professores e suas produções acadêmicas. Desde o segundo reinado, o Brasil virou o território dos bacharéis. Os títulos acadêmicos facilitam a ascensão social e atribuem competências aos que as envergam como lustrosas medalhas. O prestígio que os títulos nos conferem antecede às pessoas e às suas obras. No Egito, observei que é comum se colocar no cartão de visitas, entre parênteses, o nome da universidade em que os doutores obtiveram os seus títulos. Uma amiga que presenciou uma posse de um setentão em um cargo público, no governo Temer, notou as inúmeras vezes em que o empossado se referia ao seu doutoramento em um prestigiosa universidade americana. Ela me perguntou: será que ele nada fez de relevante depois dos trinta e poucos anos? Sim, levaremos para o túmulo essa vaidade. Um dia, muitos seremos defuntos-bacharéis. Contudo, é provável que o bonachão São Pedro esteja mesmo interessado nas nossas obras. O inferno é um lugar repleto de loquazes doutores, diriam Dante e Soljenítsin, que sabiam tudo de todos os infernos.

4 – Outros ministros resistiram a crises maiores. O ministro do Meio Ambiente salvou-se do incêndio da Amazônia, o ministro do Turismo resistiu a uma chuva de laranjas mineiras, o ministro das Relações Exteriores triunfa sobre os vexames de cada dia e até o exilado ex-ministro da Educação demorou uma eternidade para cair. A diferença estava na ausência de apoio político do novo e distraído ministro da Educação. Os bacharéis de espada que o patrocinavam pularam fora do barco e até a FGV o lançou ao mar. A presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares até protestou contra a covardia da FGV em negar o vínculo precário que tinha com o ministro em queda livre, já que são justamente os vínculos precários que dominam as relações trabalhistas de muitas instituições que ela conhece bem.

5 – Por fim, o ministro descobriu que estava só: sem partido, sem igreja, sem patente militar, sem o maior dos títulos acadêmicos, sem o mercado, sem a solidariedade dos movimentos sociais de qualquer matiz ideológico.

Sim, naquele momento, a Esplanada era o lugar em que o destino o quis na solidão absoluta dos decaídos sem glória: no deserto sem saudade, talvez com remorso, só.

* * *


Rômulo Paes é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do site Educa 2022.

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