• Demétrio Weber

Escolas que ensinam a sonhar



As melhores escolas não se limitam a ensinar português, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e línguas estrangeiras. Seus currículos revelam genuína preocupação com a formação integral dos estudantes − o que vai muito além dos conteúdos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou de qualquer vestibular.


O mais recente estudo da série Excelência com equidade aponta nessa direção. O levantamento mapeou as cem melhores escolas públicas brasileiras de ensino médio frequentadas por alunos de baixo nível socioeconômico. Das nove escolas visitadas e investigadas a fundo, a maioria adota currículos com uma parte comum e uma parte diversificada. O relatório destaca impactos positivos da diversificação curricular.

A parte comum é a dos conteúdos tradicionais − e já mostramos aqui como essas cem escolas são capazes de monitorar a aprendizagem dos alunos e de usar os resultados das avaliações para corrigir rumos e aprimorar o ensino. Tratamos agora da parte diversificada: Projeto de Vida, Empreendedorismo, Física Experimental, Oficina de Redação e Estudo Dirigido são algumas das opções.


Autoconhecimento

As disciplinas da parte diversificada costumam ser eletivas e não valem nota. O que não significa descompromisso por parte dos estudantes. Ao contrário, conforme assinala o relatório, a parte diversificada tem reflexos positivos inclusive nas matérias da parte comum: "[...]os resultados podem ser percebidos na postura mais participativa dos estudantes (inclusive em outras aulas), na melhora da aprendizagem e na redução da evasão escolar."


Os alunos do 1°ano, aqueles que acabaram de ingressar no ensino médio, são o foco do Projeto de Vida. As aulas tratam de temas relacionados à identidade dos estudantes, com o intuito de promover autoconhecimento, autoestima e autoconfiança. Nas turmas de Projeto de Vida e de Empreendedorismo, os jovens descrevem como imaginam estar daí a cinco ou dez anos.


Nas escolas visitadas em Goiânia, os alunos novatos são recebidos por veteranos que os convidam a escrever uma carta com suas expectativas sobre o ensino médio. As cartas, depois, são lidas novamente nas aulas de Projeto de Vida. Estudantes entrevistados pelos pesquisadores comentaram que os sonhos mudam: "Na chegada, muitos escrevem que não têm sonhos e, na escola, são ajudados a descobri-los", diz o texto.


O estudo destaca que iniciativas como a do Projeto de Vida "conversam com a realidade dos alunos", isto é, estabelecem uma "conexão entre a escola e o que os alunos vivem fora dela". A conclusão é clara: "Essa articulação possibilita aos alunos um maior entendimento do próprio contexto de vida e faz com que eles se reconheçam mais na escola e na comunidade, além de produzir aprendizagens mais significativas."


Autonomia

O relatório realça a importância da parte diversificada para a autonomia, a liberdade e o pensamento crítico. "Esse modelo curricular também abre mais espaço para trabalhos autorais dos estudantes – projetos interdisciplinares que proporcionam a aplicação prática dos conteúdos, com estímulo à conexão de saberes, à reflexão e à expressão mais ampla das habilidades de cada um, produzindo conhecimento e formando pensamento crítico. Nesses projetos, o professor atua como um orientador, de maneira semelhante ao que acontece num trabalho de conclusão de curso (TCC) de faculdade, devendo instigar e incentivar os jovens", diz o estudo.

Uma das escolas de Goiânia oferece uma disciplina eletiva sem professor. Isso mesmo: sem professor. De acordo com o relatório, os próprios estudantes sugerem projetos que são submetidos aos colegas matriculados na turma, que é aberta a alunos de todas as séries do ensino médio. Os projetos que atraem o maior número de inscritos são desenvolvidos em encontros semanais. Os temas são variados − redação para o Enem, teatro, dança, esportes −, e os estudantes devem entregar um trabalho escrito ao final.


Nas escolas de Goiás e Pernambuco, as disciplinas da parte comum do currículo são intercaladas com as da parte diversificada. O objetivo é sinalizar a importância de ambos os tipos de aula. Cabe lembrar que 82 das cem escolas funcionam em horário integral, o que favorece a oferta de atividades diversificadas. As cem escolas destacadas no relatório atingiram bom desempenho em avaliações do Ministério da Educação e seus índices de aprovação de alunos superam 95%.

Sonhar


O estudo Excelência com equidade no ensino médio − a dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas, contudo, enfatiza que ainda há muito a avançar, especialmente nas escolas que atendem majoritariamente alunos de famílias de baixa renda. Das 5.042 escolas públicas de ensino médio frequentadas por alunos de baixo nível socioeconômico no país, apenas 2% (100) atingiram os patamares de qualidade estabelecidos pelos pesquisadores. "Não há hoje nenhuma rede estadual de ensino garantindo o nível de aprendizagem que os alunos precisam ter ao final do ensino médio", resume o texto.


Apesar disso, há experiências exitosas que servem de exemplo para todo o Brasil, caso das escolas mapeadas no levantamento. Nas palavras dos pesquisadores, essas escolas conseguem agregar conhecimento aos estudantes, engajá-los na construção de projetos de vida e até mudar seus sonhos.


Sonhar é preciso! E transformar sonhos em realidade, mais ainda.

A educação passa por aqui.

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