• Ronaldo Mota

Contratados pelo RH e demitidos por... algoritmos


Foto: Artturi Jalli / Unsplash

Nós educadores já estamos habituados a fazermos uso de inovadoras plataformas de aprendizagem inteligentes. Muito além da educação a distância das décadas anteriores, esses novos ambientes virtuais de aprendizagem estão ou estarão recheados com analítica da aprendizagem, algoritmos, assistentes virtuais por fala, laboratórios de simulação e múltiplas realidades, metacognição, edugenômica etc. O que estamos menos acostumados é com a dimensão da aplicação dessas tecnologias e técnicas similares em outras áreas conexas, tais como empregabilidade.


Em 1936, com Alan Turing (1912-1954), nasce a Ciência da Computação ou Ciência de Dados Moderna. A Máquina de Turing constitui o marco inicial, mas atualmente fomos muito além. “Machine Learning” ou Aprendizagem de Máquina, por exemplo, é uma área da Inteligência Artificial que permite que um sistema aprenda a partir de dados, não mais via somente uma programação explícita.


Para lidar adequadamente com os dados em grandes quantidades (“Big Data”) e deles extrair funções, há que se construir modelos, cujos parâmetros são derivados do tratamento conferido a esses dados. “Deep Learning” ou Aprendizagem Profunda, por sua vez, descreve as técnicas para construir esses modelos utilizando Redes Neurais, as quais permitem aprender funções muito complexas.


Por que essas funcionalidades acima passaram a ser, rapidamente, tão relevantes no mundo contemporâneo? A resposta mais simples é que jamais tivemos a abundância de dados de que dispomos hoje, bem como seria inimaginável a capacidade computacional absurda que temos em mãos. Isso tudo, agregado aos desenvolvimentos recentes em algoritmos e acesso a novas ferramentas e estruturas. Assim, está dada a receita para uma enorme revolução em curso.


O impacto do vórtex digital está sendo em todos os setores da sociedade, sem exceção. No mundo da empregabilidade, por exemplo, ser demitido por um algoritmo é uma novidade cada vez mais comum a partir de agora. Infelizmente, mas esse é o destino que aguarda a maior parte das pessoas empregadas. Ou seja, ingressamos muito rapidamente em um cenário em que as pessoas serão contratadas e despedidas por máquinas, sem nenhuma intermediação humana. Aos mais jovens, é possível que muitos deles passem por esse ciclo de “destruição criativa” por diversas vezes. É, provavelmente, o fim do emprego para a vida toda, aquilo que era tão comum ao longo do século XX.

Em meados do ano passado, somente a título de ilustração, a empresa de software Xsolla fez uma reestruturação “inovadora” de sua equipe. Sem prévio aviso, ela decidiu demitir 150 dos 450 funcionários de seus escritórios em Los Angeles e em Moscou seguindo apenas a recomendação de um algoritmo de eficiência no trabalho que os considerou “improdutivos” e “pouco comprometidos” com os objetivos da empresa.


Há um universo do mundo do “business” sobre o qual temos pouco controle. Mesmo assim, a nós, educadores, resta, ao lado de ensinarmos conteúdo, incorporarmos ética e civilidade na formação dos futuros formandos, quaisquer que sejam as áreas em que eles venham a atuar. Debatendo com os educandos sobre como se comportar em um ambiente recheado e preenchido por tecnologias. Essas complexas decisões, mesmo que via algoritmos, atendem sim a uma determinação que, em última instância, foi desenhada por um humano e que impacta a vida de tantos outros, igualmente colegas.


Haveremos de empreender todos os esforços em nossas escolas para ensinarmos, profundamente, algoritmos e ciência de dados ao ponto em que, enquanto profissionais e cidadãos, saibam lidar com essa realidade. Não temos, como professores, soluções prontas, dada a enorme complexidade do tema, mas que não seja por falta de conhecimento que esses nossos futuros gestores deixem de fazer aquilo que entendam correto. Cada qual a partir de seu juízo pessoal e intransferível.


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Ronaldo Mota é diretor acadêmico do ITuring.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.