• Paulo Pinheiro

Conversas desconfortáveis

Atualizado: 5 de Nov de 2020



Se você fez tudo certo, se conseguiu absorver todos os ensinamentos de uma metodologia ativa, a sua classe deve ser atualmente um lugar de debate. Os alunos se sentem confiantes para expressar suas opiniões. E claro que isso é algo positivo. Porém, certas conversas desconfortáveis podem fazer com que a aula perca o foco e podem causar constrangimento a todos os envolvidos. Mas, se nem sempre é possível evitar esses momentos, é plenamente factível administrar as ações para que a situação seja resolvida de forma breve e sem transtornos para os estudantes.


Antes de mais nada é preciso deixar claro que, como educadores, queremos que nossos alunos sejam capazes de discutir tópicos sensíveis centrados em seus próprios valores e nos de seus colegas. Essa experiência é uma parte crítica da aprendizagem e é essencial para o desenvolvimento pessoal e profissional dos alunos.


Para encorajar conversas desafiadoras, temos que estabelecer um conjunto comum de normas no início de nosso curso. O contrato pedagógico é essencial para evitar problemas desse porte. Igualmente importante é como reforçamos essas normas e facilitamos discussões difíceis.


Nesta coluna vou sugerir algumas estratégias de como os educadores podem efetivamente conduzir conversas desafiadoras em sala de aula. Também vou oferecer exemplos do que dizer aos alunos em momentos específicos da aula.

No começo da aula


Se você planeja discutir um assunto delicado ou antecipar uma conversa desafiadora, lembre-se de consultar as normas estabelecidas no início do curso. Aqui cabe usar a teoria utilizada pela professora Alexandra Sedlovskaya que ministra aulas na Harvard Business School. Ela defende o uso dos quatro Cs: curiosidade, comunicação franca, cortesia e coragem (no original: curiosity, candor, courtesy, courage). Algumas colocações a serem ditas pelo professor para administrar esses momentos difíceis seriam:


“É preciso coragem para expressar nossas perspectivas sinceras, e é preciso ainda mais coragem para ouvir e compreender as perspectivas que são diferentes das − ou estão em oposição às − nossas.”


“Ouvir e compreender não é o mesmo que concordar. Estar disposto a ouvir e compreender é como o aprendizado acontece. Aprender exige coragem. ”

“Vamos ter o cuidado de expressar nossas opiniões e responder aos outros com cortesia, assumindo boas intenções por trás de cada comentário.”


“Embora nenhum de nós tenha a intenção de ofender, isso pode acontecer sem querer. Uma vez que estamos em um ambiente de aprendizado, peço que nos informe se se sentir ofendido. Reconheço que é difícil expressar, e você pode estar preocupado em parecer excessivamente sensível. Também é difícil ouvir sem ficar na defensiva. No entanto, expressar e ouvir são partes importantes de nosso aprendizado − por isso devemos fazê-lo e fazê-lo com cortesia.”

Durante o debate


Uma oportunidade para discutir um tópico delicado pode surgir inesperadamente em sala de aula. Quando essas oportunidades aparecem, eu me esforço para reconhecê-las e abordá-las como uma chance de aprendizado. Isso não significa necessariamente persegui-los no momento − em vez disso, você pode reconhecer a importante questão levantada e, em seguida, deixar os alunos saberem que você dedicará o tempo que merece em sua próxima sessão.


Independentemente de a discussão ser planejada ou espontânea, podem surgir momentos desafiadores. Consistente com nossa resposta de luta ou fuga, podemos estar propensos a reagir de forma exagerada ou insuficiente. Repreender um aluno pode causar um impacto adverso e prejudicar um ambiente de aprendizagem seguro. Não responder pode sinalizar que um instrutor tolera o comentário ou compartilha o preconceito, levando a um resultado igualmente negativo.


Lembre-se de que os alunos podem estar formando e articulando suas opiniões pela primeira vez, e como eles expressam seus pensamentos pode ser diferente de como pretendem expressar sua posição. Digo aos alunos que a beleza da sala de aula é que temos a oportunidade de tentar várias possibilidades ("vamos tentar outra vez") e aprender no processo.

Quando um comentário parecer impróprio, considere o papel de nossa própria interpretação e aborde o comentário com o benefício da dúvida e da curiosidade. “Conte-nos mais sobre o que você está pensando.” "Que suposições básicas você está fazendo aqui?" “É sempre assim?” “O que os outros na classe pensam?”


Espere que as emoções possam ficar intensas. Ficamos emocionados com assuntos que são importantes para nós, especialmente quando nossas identidades estão envolvidas. Em vez de fugir disso, é hora de aprender com essas emoções. Como instrutor, você pode recuar e dizer: "Olha, a turma está se emocionando demais com esse tópico. Vamos voltar atrás e discutir o porquê.”


Saiba que você tem maneiras não-verbais poderosas de responder. Use sempre que possível a linguagem corporal. Apenas uma breve pausa ou um olhar surpreso pode sinalizar para os alunos a necessidade de reavaliar suas respostas e pode fornecer uma oportunidade de autocorreção no momento.


No final da discussão


As discussões de tópicos delicados podem ser especialmente assustadoras se você não tiver uma estratégia de saída. De fato, o objetivo principal, como classe, não é chegar a um acordo no final da discussão, mas sim aprofundar nossa compreensão e ampliar o pensamento sobre determinado tópico ou assunto.

- Agradeça a seus alunos por se envolverem de forma aberta e respeitosa com questões difíceis que realmente importam.


- Sintetizar os principais insights que podem elucidar as tensões subjacentes, argumentos centrais, suposições e implicações.


- Incentive os alunos a continuar refletindo além da sessão.


Uma última dica. Nunca deixe a situação sair do controle. Se a discussão ficar intensa demais use a sua autoridade enquanto professor, acalme os nervos dos alunos e tente entender com a turma em que ponto está o aspecto que provoca esse acirramento de ânimos.


* * *

Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.