• Demétrio Weber

Toda criança alfabetizada: sim, é possível

Garantir o direito à aprendizagem é o desafio permanente de toda escola e de todo educador. O que dizer, então, do direito de aprender a ler e escrever?


A cada ano, no Brasil, milhões de crianças começam a desbravar e a decifrar o universo das letras. Quem consegue enxergar sentido no que antes pareciam traços aleatórios abre as portas de um novo mundo. Ficar para trás nessa hora faz e fará toda a diferença.

É notório que tropeços na alfabetização podem comprometer a vida escolar e o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos. Daí a centralidade do tema em qualquer projeto pedagógico.

O Brasil tem experiências exitosas que mostram que é possível, sim, universalizar a oferta de educação de qualidade. Em Sobral, no Ceará, e em Lagoa Santa, em Minas Gerais, as respectivas redes municipais adotam estratégias múltiplas.


Em Sobral, os professores contam com uma articulada rede de apoio. Autonomia pedagógica, financeira e administrativa fazem parte da receita, que inclui fortalecimento da gestão escolar (há processo seletivo para os cargos de diretor e coordenador) e formação docente, com gratificações e premiações. "Temos como prioridade reconhecer publicamente o trabalho dos professores", diz a professora e diretora de escola Ticiane Maria de Souza Silva.


Ela lembra que era comum crianças do município chegar à 4.ª série do ensino fundamental (atual 5.º ano) sem saber ler nem escrever, como constatou um primeiro diagnóstico, em 2001. Numa cidade que decidiu priorizar a educação, a alfabetização virou o primeiro item da lista. Nas palavras de Ticiane, a rede municipal bate de frente na (falsa) ideia de que filho de pobre não aprende. "Aprende, sim", retruca ela. "Ninguém em Sobral fica para trás. Digo isso com muito orgulho, como professora da rede que eu sou."

Em Lagoa Santa, a professora Mirlene Barcelos integra o Núcleo de Alfabetização e Letramento, sob a liderança da professora emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares. O Núcleo orienta e apoia a atividade docente.


A exemplo de Sobral, a avaliação dos alunos é ponto de partida para definir estratégias e para rever práticas de ensino. "A Magda nos diz para falar para o professor e os pais a diferença entre diagnóstico e avaliação. A gente não está avaliando o que aluno aprendeu: a gente está fazendo diagnóstico do que precisa aprender", explica Mirlene. "(Aí) discute por que errou, onde foi que a gente errou."


A professora de Lagoa Santa conta que as escolas municipais ganharam o reforço de professores para ajudar, fora de sala, alunos com dificuldade de aprendizagem. "A rede faz toda a diferença", diz Mirlene, que há 28 anos trabalha com a alfabetização de crianças. "Escolas do centro e da periferia têm os mesmos resultados."


Na mesma linha, Ticiane destaca a importância do esforço coletivo e do apoio, por parte de gestores e administradores, aos docentes em Sobral: "Você não está lá só para cobrar do professor, você tem que ser um apoio para o que ele precisar", diz Ticiane."Falar de alfabetização é falar de uma rede de apoio ao professor como imprescindível no sucesso. E os resultados aparecem."


A experiência das duas cidades na alfabetização de crianças foi tema do 3.º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), no último dia 20 de agosto, em São Paulo (SP). O painel com Ticiane e Mirlene teve a mediação da jornalista Ana Carolina Moreno. Repórter do portal G1 especializada na cobertura de educação, Ana Carolina destacou a importância de que a imprensa dê cada vez mais voz aos professores: "A gente fala muito sobre professores na cobertura de educação, mas a gente fala pouco com professores", disse a mediadora.

O painel começou com um vídeo produzido pela prefeitura de Sobral, mostrando algumas das atividades de alfabetização no município cearense. "Buscamos sempre colocar o aluno como protagonista da aula. A gente pensa em estratégias para fazer com que o aluno se sinta pertencente à sala, sinta-se pertencente à aula de um modo geral", diz uma das entrevistadas no vídeo, a professora Daiane Rodrigues, do Centro de Educação Infantil Dolores Lustosa.


A íntegra do painel "Alfabetização na prática: como trabalham os professores" do 3º Congresso da Jeduca, incluindo o vídeo de Sobral, pode ser vista aqui ou na seção de vídeos deste blog.




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