• Demétrio Weber

Aos mestres, com carinho



O Dia do Professor, neste 15 de outubro, coincide com a data de atualização do blog. Impossível não dedicar o espaço desta semana para uma homenagem a todos os professores e professoras do Brasil. São eles, no seu conjunto, que deram e dão contribuição decisiva para nos tornarmos quem somos.


Na semana passada, uma jornalista procurava personagens para uma reportagem e postou, no Facebook, a seguinte pergunta: "Você tem uma história de alguém que foi muito inspirado por um grande professor ou professora?" 

De pronto, respondi que eu havia sido inspirado não por um, mas por muitos e muitas. E logo passei a ter flashes de memória − um mergulho na riqueza de tantos aprendizados. Sim, professores abrem janelas para o mundo e nos ajudam a (tentar) decifrá-lo. Com didatismo, paciência e a força do exemplo. Acima de tudo, com respeito e empatia.


Lembro com espanto, até hoje, do momento em que a professora de química parou de falar, acendeu o isqueiro e pôs fogo numa folha de caderno. No meio da sala, na primeira aula do ano. O fogo era uma reação química, ensinava ela, e tínhamos em nossas casas um laboratório insuperável: a cozinha.


Do professor de matemática, perdi a conta de quantos exercícios fiz. Resoluto, ele ia para o quadro-negro e, giz na mão, rabiscava uma, dez, cem questões. Depois éramos chamados à lousa para resolver os problemas, diante de toda a turma. O professor vivia esbaforido. Dizia-se que lecionava de manhã, de tarde e de noite, em várias escolas.


Na aula de física, ouvi o professor perguntar se cadeiras, mesas, portas, canetas e casas, enfim, se as coisas de um modo geral tinham sempre o mesmo tamanho. A questão soava absurda: era óbvio que sim, falei baixinho para o colega ao lado. Sem dúvida, eu ainda tinha muito a aprender sobre dilatação.


Um dos coordenadores pedagógicos prezava a liberdade de pensar. Nos incitava a ver o mundo por detrás das aparências e a ultrapassar os limites da escola. Organizou uma atividade que simulava um julgamento, com acusação e defesa. Afinal, o Brasil era como deveria ser? Das janelas de nosso colégio particular, víamos uma avenida que levava a uma favela. Fiquei no grupo da acusação: era preciso denunciar a miséria e a desigualdade em nosso país.

De uma professora de história que discorria sobre o governo de Getúlio Vargas e a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, lembro de como ela prestou atenção no momento em que um aluno fez menção a navios brasileiros afundados por submarinos alemães. Era uma professora que incentivava a participação em sala. Sabia ouvir. E não tinha receio de demonstrar que podia aprender com seus alunos.


Na escola pública dos Estados Unidos onde concluí o 2º grau (atual ensino médio), a disciplina de inglês era obrigatória, assim como a leitura de um livro com centenas de páginas que desafiavam minha compreensão do idioma naqueles primeiros meses de intercâmbio. A professora percebeu minha dificuldade, e era visível que se preocupava com isso. Só sossegou após conseguir um audiolivro, para que eu ouvisse e lesse o texto simultaneamente. A aula começava, e ela já me trazia um toca-fitas e os fones de ouvido.

Na universidade, no curso de jornalismo em Porto Alegre, tivemos que fazer um ensaio fotográfico - minha tarefa foi retratar a rodoviária. Mal apresentei as fotos, e o olhar do professor já sinalizou que seria preciso refazer o trabalho. Não esqueço a maneira respeitosa e objetiva como ele expôs suas críticas: em nenhum momento demonstrou desprezo pelas fotos ou por mim. Obviamente, queria que eu aprendesse e deixou claro não ter dúvida de que eu seria capaz. Voltei à rodoviária encorajado: as novas fotos ficaram muito melhores.


Abrir caminhos


A memória embaralha o passado. Cenas se misturam. 


Da letra cursiva escrita a lápis em intermináveis cadernos de caligrafia às pecinhas de madeira que davam concretude às primeiras lições da matemática; da argila e dos frascos de tinta nas aulas de artes aos cantos e ao som da flauta nas aulas de música; dos livros da biblioteca aos mapas do Brasil e do mundo nas aulas de geografia; em cada passo, sei que havia ali uma professora ou um professor. Um profissional, cercado de crianças ou de adolescentes, que fazia da vida um abrir de caminhos para mim e meus colegas.


A todos os professores e professoras, meus parabéns. 


E muito obrigado!

PS: Na semana que vem, voltaremos ao estudo da série Excelência com equidade sobre o ensino médio.

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