• Demétrio Weber

Com história em quadrinhos, escola muda imagem de bairro da periferia



Um professor de história, na periferia de Belo Horizonte, levou seus alunos a pesquisar a origem do bairro criado na década de 1980 para abrigar famílias de sem-teto. Nasceu assim uma revista de histórias em quadrinhos que deu voz a antigos moradores e ajudou a transformar a maneira como estudantes e a comunidade percebem – e valorizam – o lugar onde vivem.


A experiência foi retratada em uma série de reportagens da Rede Minas, emissora pública de TV de Minas Gerais, em agosto de 2018. O repórter Renato Franco e a equipe da Rede Minas foram à Escola Municipal Anne Frank e percorreram o bairro do Confisco, na divisa de Belo Horizonte com o município de Contagem.

Lá conheceram o professor de história Moacir Fagundes Freitas. Ciente de que estudantes sentiam vergonha de contar que moravam no bairro, Moacir bolou o projeto: dezenas de alunos do ensino fundamental foram atrás de líderes comunitários e dos primeiros moradores para resgatar a história do Confisco.

Luta por moradia

Ao longo de doze entrevistas, quase todas realizadas na própria escola da rede municipal de Belo Horizonte, os estudantes ficaram sabendo que o bairro teve origem na mobilização popular por moradia, sob a liderança de mulheres. “Viemos com uma lona preta, debaixo de uma lona preta. O resto a gente não tinha estrutura nenhuma, nem água, nem esgoto, nem asfalto”, disse a moradora Maria Celeste da Silva ao repórter da Rede Minas.


Os entrevistados viraram personagens da revista ou, nas palavras do professor Moacir, pessoas-livro: “Já que a história do bairro não está contada nos livros didáticos, então a pessoa-livro é a fonte histórica nossa”, afirmou ele. 


Na reportagem, Moacir revela que o projeto buscou aproximar a sala de aula da realidade dos estudantes. “Na minha vida escolar, têm disciplinas ou matérias que eu não gosto, que não consegui gostar até hoje, porque foram apresentadas a mim como sendo algo bastante abstrato, distantes, sem nenhuma ligação, conexão com a minha vida”, disse Moacir. "A história a ser ensinada não dá para ser essa história abstrata, que não tem nada a ver com a realidade da menina e do menino que é nosso aluno."


Preconceito

O professor destacou a mudança de percepção dos estudantes sobre o Confisco – como se esse bairro da capital mineira, antes desprezado e desvalorizado aos olhos dos alunos, tivesse ganhado outra aura. “Eles já tinham incorporado um discurso que é feito e que é carregado de preconceito sobre a história do bairro”, enfatizou Moacir durante uma das entrevistas.


O projeto escolar foi realizado em 2016 e contou com a participação da então estudante de licenciatura em história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Luiza Rabelo Parreira, cujo estágio de prática docente se deu na Escola Municipal Anne Frank. "Fiquei com muito medo de vir fazer o estágio aqui", contou Luiza ao repórter Renato Franco, lembrando o que sentiu ao saber aonde iria estagiar. Dois anos depois, ela continuava ligada ao projeto, planejando aproveitar a experiência em um mestrado.


Professora de Luiza na UFMG, a doutora em história Ana Paula Sampaio também foi entrevistada por Renato. Ela destacou a importância e a amplitude do projeto, no sentido de ir além dos conteúdos propriamente ditos: "O conteúdo não é, me parece, algo que é a finalidade. O conteúdo, na forma como foi trabalhado nesse projeto, me parece que é o começo para você falar de outras coisas significativas para aqueles alunos”, disse Ana Paula.


O professor Paulo Ferreira, que leciona literatura na Anne Frank, elogiou o impacto da iniciativa do professor Moacir na vida dos estudantes: “Traz uma contribuição incrível para a identidade deles", disse Paulo. "Eles começam a se apropriar tanto do espaço escolar quanto do espaço da comunidade.”

Série premiada

Um dos alunos envolvidos na elaboração da revista de histórias em quadrinhos, João Vitor Souza também dá seu depoimento na reportagem: “Eu não gostava nem de falar onde eu morava. Mas, depois disso, assim, eu passei a ter menos vergonha de falar onde eu moro”, afirmou o garoto, complementando: "Comparado com o que era antes, agora é muito melhor."

A série Confisco – História Revista rendeu a Renato Franco e aos demais integrantes da equipe da Rede Minas TV (Bruna Cevidantes, William Félix e Romina Farcae)

o Prêmio Estácio de Jornalismo 2019, na categoria Modalidade Regional – TV


Confira aqui as reportagens exibidas no Jornal Minas da Rede Minas TV em agosto de 2018.

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