• Ricardo A. Hirata

Educadores e saúde mental

Atualizado: Mar 19



A respeito do crescente número de jovens que padecem de sofrimento psíquico, escrevo a educadores, psicanalistas e psicólogos. Dados anteriores à pandemia da covid-19 confirmam uma casuística crescente que situa o Brasil com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo inteiro e o quinto em casos de depressão.


Conforme o levantamento da OMS, 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade, e a depressão afeta 5,8% da população. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE, 16,3 milhões de pessoas com mais de 18 anos sofrem de depressão, um aumento de 34,2%, de 2013 para 2019. Infelizmente, entre os mais jovens a situação não é menos preocupante.


Em adição, os efeitos da pandemia parecem formar uma grande onda de adoecimento psíquico que ainda não chegou à praia, mas dá mostras de seu tamanho no horizonte. Não por acaso, no início deste ano, o grupo que apresentou maiores índices de contaminação foi o da faixa até 29 anos.


Vale destacar, não acredito que a também crescente onda de medicalização aponte para uma luz no fim do túnel, a não ser que seja um trem vindo em nossa direção. Psicotrópicos, ainda que imprescindíveis nos casos graves, estão sendo utilizados de forma excessiva. Aliviar os sintomas, nesse sentido, não significa a cura definitiva. O aumento no uso de remédios é mais um indicativo de que precisamos reunir saberes e práticas, para que a medicalização seja cada vez menos necessária.


Trabalho com psicanálise e psicoterapia tempo o suficiente para entender que não será possível reverter a situação do crescente adoecimento psíquico entre os jovens, se continuarmos no modus operandi atual. Identificamos os casos para tratamento quando os sintomas já se agravaram, tendemos a pensar os indivíduos isoladamente, separamos o todo em partes como engrenagens de uma máquina: saúde mental com especialistas, escolaridade com educadores. Podemos fazer diferente? Pensar no aspecto interpsíquico dos grupos, no papel profilático da fala e da escuta empática, além dos efeitos terapêuticos de linguagens artísticas são a minha aposta atual.

Em linhas gerais, o tratamento da doença mental envolve duas abordagens, a medicalização psiquiátrica e a narratividade das abordagens psi. A despeito da orientação, ou linha teórica, psicanálise e psicoterapia trabalham com a verbalização, com um tipo de narração que não se confunde com a anamnese médica. E é esse o ponto de intersecção que nos aproxima, educadores e profissionais das áreas psi. Narrar o sofrimento é tão importante, porque elabora simbolicamente (por meio da fala) a tormenta das emoções, confere ao conflito inconsciente uma saída que diminui o risco de adoecer.


Com o retorno às aulas, alunos e professores regressam com um acúmulo de afetos e emoções ocasionados pelo isolamento social, adoecimento e morte de pessoas conhecidas. Uma demanda por escuta e narratividade que irá ultrapassar as capacidades do atendimento especializado, seja na rede pública ou privada.


Penso na escassez de outros lugares, onde a narratividade pode ser acolhida. Pais sobrecarregados pela rotina do trabalho, mesmo antes do home office, avós que não encontram espaço para transmissão das memórias familiares em meio à sedução das telas e smartphones, irmãos e amigos que se comunicam cd vez c menos caracteres.

Para além das abreviaturas dos internautas, vivemos numa época que privilegia a fugacidade da informação. E como afirmou Walter Benjamim em O Narrador, informações são uma ameaça à narrativa, “a arte de narrar está em vias de extinção”. Celulares, redes sociais, mídias digitais, mais do que nunca precisamos reinventar as rodas de fala-escuta. Para fazer frente à ansiedade e a depressão, teremos de constituir um “narrador interno” hábil o suficiente para fazer, do medo e da angústia, boas histórias.


Em psicanálise, desde as origens do método, o relato do sofrimento psíquico se assemelha à literatura: “(...) a mim mesmo ainda impressiona singularmente que as histórias clínicas que escrevo possam ser lidas como novelas (...)”, afirmou Freud em 1895, na obra Estudos sobre a histeria.


Antonino Ferro, psicanalista italiano nascido em 1947, destaca que temos medo quando estamos sós, ou seja, sem a companhia de um “narrador interno”. Contos de fadas são tão importantes nesse sentido, porque inscrevem na criança um primeiro narrador, a companhia primordial para se adormecer, lidar com o escuro breu ou no despertar súbito de um pesadelo.


Por ora, são apenas ideias soltas, à espera.


* * *


Ricardo A. Hirata é psicanalista e escritor. Mestre em ciências da religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atua em consultório particular, instituições de ensino de psicanálise e como consultor empresarial, na área de saúde mental e gestão de pessoas.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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