• Flavio Comim

Capital e ideologia: visão geral



Esqueça (quase) tudo o que você leu antes do Thomas Piketty. O seu novo livro, Capital e ideologia, é muito diferente, em método e conteúdo, de O capital no Século XXI ou do Crônicas. Embora ele persiga o mesmo tema da desigualdade, o foco agora é na história econômica e nos 'regimes de desigualdade' usados pelos países. Como tal, antes de tudo, é um livro de história econômica muito mais abrangente do que visto anteriormente. E muito mais ambicioso (se isso é possível). O seu objetivo é associar evidências históricas às narrativas ideológicas construídas para justificar diferentes regimes de desigualdade na história. Como ele argumenta na primeira linha do seu livro, “cada sociedade humana deve justificar suas desigualdades”. Essa justificativa é fundamental como um modo de legitimar essas desigualdades. O seu ponto principal é obviamente como justificamos as desigualdades do nosso tempo.

Piketty vê uma ideologia como “um conjunto de ideias plausíveis a priori” que propõem como uma sociedade deve, do ponto de vista normativo, estar organizada em termos sociais, econômicos e políticos. Para ele, regimes políticos e de propriedade estão intimamente associados. Eles impactam na escolha e no funcionamento das instituições sociais, bem como em seus mecanismos de decisão coletiva.

O seu argumento principal, que deve chocar principalmente alguns economistas, é que “A desigualdade não é nem econômica nem tecnológica; ela é ideológica e política”. Para ele, conceitos como ‘o mercado’, ‘lucros’, ‘salários’, ‘competitividade’, ‘paraísos fiscais’, etc. são todos construções sociais e históricas, que dependem do sistema político escolhido pelas pessoas. Por sua vez, os sistemas políticos dependem das concepções de justiça social e justiça econômica presentes nas sociedades. O poder entre as pessoas não é para ele exclusivamente material; é também intelectual e ideológico. Não é que salários, lucros, etc. não tenham uma base material, mas o entendimento dessas categorias na ordem política é de natureza ideológica, para ele.

Uma outra ideia muito importante é que os regimes de desigualdade tentam ‘naturalizar’ a desigualdade. As elites beneficiárias desses sistemas argumentam que as disparidades sociais beneficiam não somente os pobres, mas a sociedade como um todo e que qualquer mudança somente pode ser obtida a um custo social muito grande. O seu argumento se fundamenta no postulado de que o campo das ideias – que ele chama da esfera político-ideológica – é verdadeiramente autônomo.

Piketty tem um alvo claro no discurso contemporâneo da meritocracia e da competição, que procura não só justificar e legitimar os vencedores da economia moderna, mas culpar os perdedores pela sua falta de capital humano, talento ou virtude. Nesse sentido, o regime atual de desigualdade aparenta ser mais perverso que os demais, em termos ideológicos, uma vez que procura culpar suas vítimas por suas próprias desgraças. Segundo ele, isso é uma característica não vista em regimes anteriores.

Propriedade e estabilidade

Ele não nega os progressos obtidos nos últimos séculos, mas argumenta que eles escondem desigualdades que são gritantes e injustas (lembre que nem todas as desigualdades são injustas). Sem entrar muito na parte empírica da desigualdade recente (pois esse será objeto do próximo artigo), cabe salientar que, desde 1980, a desigualdade tem aumentado de maneira considerável no mundo. Para Piketty, existe uma grande apropriação de conhecimento público (bilhões investidos em pesquisa básica por governos) por parte dos ‘bilionários globais’, sem uma contrapartida às suas respectivas sociedades em forma de impostos (que vem sendo diminuídos, para eles, desde a era Thatcher/Reagan).

Vivemos, assim, em uma época que, segundo Piketty, há uma defesa ‘quase religiosa’ dos direitos de propriedade, como uma condição sine qua non de estabilidade social e política. Ele fala que vivemos uma era de ‘neoproprietarianismo’. O impacto dessa ideologia nas políticas dos países gera um movimento contraditório dentro dos partidos de esquerda. Para entender isso, precisamos ir por partes. Amanhã, no próximo artigo, mostraremos os números da desigualdade de Piketty e as consequências sobre políticas sociais importantes que foram deixadas de lado por governos de esquerda nessas últimas décadas.

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Flavio Comim é professor associado de economia e ética na IQS School of Management da Universidade Ramon Llull, em Barcelona, na Espanha, e professor afiliado de desenvolvimento humano e ecossistemas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. É pesquisador do Instituto Von Hugel, na Universidade de Cambridge, onde também foi membro do St Edmund's College. Coordenou, no Brasil e no Panamá, o Relatório de Desenvolvimento Humano para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Trabalhou como consultor para diferentes agências da ONU, como UNESCO, PNUMA, OIT e FAO. Seus focos de pesquisa incluem economia do desenvolvimento, abordagem das capacidades, desenvolvimento humano, educação, pobreza e aporofobia.

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