• Demétrio Weber

Para que serve o que aprendemos na escola?



Eu me fazia essa pergunta nas aulas de matemática, no tempo do antigo 2º grau, hoje ensino médio. Eram fórmulas e mais fórmulas com números e letras que, em tese, levariam ao resultado final. Eu olhava aquilo tudo e me perguntava: "Para que servem essas equações?" ou "Em que situação de vida, que não seja prova no colégio ou o vestibular, será útil saber isso?"


Não tenho dúvida de que essa inquietação atormenta uma legião de estudantes e, certamente, está presente no trabalho de muitos educadores. Sim, é um desafio dar sentido ao que se ensina-aprende, estabelecendo pontes com a realidade-do-mundo-lá-fora. A todo momento ouvimos especialistas dizer que é preciso aproximar a escola do cotidiano dos estudantes, conferindo real significado aos conteúdos.

Mas como fazer isso? Ou melhor, como fazer isso em todas as aulas de todas as escolas, todos os dias?

Conexões


No livro Um mundo, uma escola: a educação reinventada, de Salman Khan, o fundador da Khan Academy levanta uma série de questões essenciais sobre a qualidade da educação. Uma delas é a fragmentação, essa divisão arbitrária do conhecimento em disciplinas.


Khan dá exemplos: "Genética se ensina em biologia, enquanto probabilidade se ensina em matemática, embora uma seja a aplicação da outra. Física é uma aula separada de álgebra e cálculo, apesar de ser aplicação direta dos dois. Química é separada de física mesmo que estude os mesmos fenômenos em níveis diferentes." E conclui: "Todas essas divisões limitam a compreensão e sugerem um quadro falso de como o universo realmente funciona."

Para Khan, "são as conexões entre conceitos − ou a falta de conexões − que separam os estudantes que decoram uma fórmula para a prova, só para esquecê-la no mês seguinte, daqueles que internalizam os conceitos e serão capazes de aplicá-los quando precisarem, uma década depois".


Ele questiona também a organização da escola, isto é, a divisão dos alunos em turmas e séries, por faixa etária, bem como a divisão do tempo de aula por períodos que começam e terminam ao som de uma sineta ou campainha.

Khan argumenta que cada pessoa tem ritmos diferentes de aprendizagem e que alunos brilhantes podem ter dificuldade de assimilar um assunto ou outro.


Daí que, em vez de dedicar determinado tempo para cada conteúdo e seguir adiante, mesmo que boa parte da turma não tenha realmente entendido a matéria, melhor seria avançar somente à medida que cada estudante tivesse dominado o tema. Até porque, como assinala Khan, um conceito costuma ser pré-requisito para a compreensão de outro. E as lacunas deixadas ao longo do caminho obviamente cobram seu preço.

Para isso, no entanto, a organização da escola deveria ser outra.


Equações


A Khan Academy é uma escola virtual, sem fins lucrativos, que disponibiliza videoaulas gratuitas (acesse aqui a versão da página em português). Foi criada em 2008, depois que Khan, alguns anos antes, decidiu ajudar uma prima que havia ido mal numa prova escolar. Em 2009, ele largou seu emprego de analista financeiro para se dedicar ao empreendimento, que conquistou a simpatia e o apoio de Bill Gates (o fundador da Microsoft valeu-se das videoaulas para ensinar os filhos).


No livro, Khan conta que, ainda na época de analisa de fundos de hedge, ao entrevistar o diretor financeiro de uma grande companhia de capital aberto, perguntou por que o custo marginal de produção da empresa era maior que o das concorrentes. Recebeu um olhar desconfiado e a resposta de que a informação era confidencial.

Khan relata ter surpreendido o diretor financeiro ao dizer que havia calculado aquele dado com base nos balanços divulgados publicamente pela companhia. "(...) foi uma questão de usar um pouco de matemática elementar − especificamente, resolver duas equações com duas incógnitas, o tipo de problema que é matéria de álgebra do oitavo ano", escreve Khan.

Eis algo que eu gostaria de ter aprendido.

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