• Demétrio Weber

Pilar diz que Brasil vive 'desigualdade brutal'



Como professora e gestora, a diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda, participou das principais transformações da educação brasileira nas últimas décadas.

Ela foi secretária da Educação de Belo Horizonte, período em que presidiu a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Nessa época, ajudou a construir o Fundeb − o fundo de financiamento da educação básica aprovado em 2006 pelo Congresso Nacional.

Uma das inovações do Fundeb foi transferir recursos para a educação infantil, etapa sob a responsabilidade dos municípios. Em 2007, já com o Fundeb em funcionamento, Pilar tornou-se secretária da Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), onde permaneceu até 2012.

A pandemia de covid-19 jogou luz sobre antigos e novos problemas. Entre eles, as escandalosas desigualdades da educação brasileira − uma eterna preocupação da ex-secretária.

Na entrevista abaixo, realizada e distribuída pela assessoria da Fundação SM, Pilar fala de alguns dos principais desafios que o Brasil, seus estudantes e seus educadores têm pela frente:

É correto afirmar que a pandemia de covid-19 evidenciou ainda mais as desigualdades entre ensino público e privado no Brasil? − Pilar Lacerda: Essa pandemia desnudou muitas fragilidades da educação nos países pobres, e o Brasil é um deles, pois não se trata apenas da aprendizagem. Com a suspensão das aulas, muitas crianças ficaram sem ter o que comer, pois só se alimentavam no horário que estavam na escola. Fala-se em EAD [educação a distância], mas precisamos lembrar que mais de 2 milhões de lares no Brasil não têm acesso à internet. Outros possuem conexão, mas não existe um equipamento exclusivo para uso da criança. Os pais devem assumir o papel de educadores durante a pandemia? Discutimos muito as funções do professor e da família na educação das crianças, e a educação integral parte do princípio de que a criança tem outros educadores, não apenas a figura do professor. No primeiro momento desta pandemia, as escolas mandaram tarefas para casa, e os pais substituíram os professores na função de ensinar. Mas, em pouco tempo, eles descobriram que não davam conta disso, exatamente porque não é uma tarefa para qualquer um. As crianças não aprendem apenas quando estão diante de um livro ou numa aula. Situações do cotidiano são repletas de aprendizados. A criança treina a leitura ao ler uma receita, faz conta ao separar os ingredientes para prepará-la, treina coordenação motora arrumando tampas e panelas e por aí vai. Os pais não devem se sobrecarregar mais do que já estão, nesta pandemia. Acho que é o momento propício para se refletir sobre como nos envolvíamos e participávamos da rotina dos nossos filhos na escola e ver o que pode ser levado dessa convivência intensa dentro de casa para a escola. A educação a distância (EAD) é a solução durante a pandemia? Definitivamente, não. Vários países resolveram decretar férias por não conseguirem fazer um ensino digital, em outros se discute a possibilidade de unificar os anos letivos de 2020 e 2021, sem reprovar os estudantes. O que muitas escolas privadas estão fazendo é reproduzir o modelo de aula que adotavam, exigindo que as crianças fiquem sentadas em frente a um computador por quatro horas seguidas, mas isso não é uma realidade para a maioria das famílias brasileiras e também não é um método pedagógico mais adequado para qualquer criança. A EAD é uma das ferramentas disponíveis, mas não pode ser a única a ser adotada. Também é importante frisar que temos que garantir o direito à educação para todos e, para isso, precisamos ter claro que nem todos têm acesso às ferramentas necessárias da EAD. Por isso, essa não pode ser a única ferramenta a ser implantada em um momento de tantas desigualdades de realidades educacionais. Como incentivar a leitura no momento em que as crianças estão em casa e muitas só pensam em ver televisão e jogar videogame? Este é um momento importante para refletirmos sobre nossas crianças, nossa relação com elas e com a leitura. Se a criança não gosta de ler, pode ser que ela não tenha esse exemplo em casa. Podemos aproveitar esse momento de isolamento para criar momentos de leitura com nossos filhos, pois quanto mais a criança lê, mais ferramentas ela vai ter para conseguir interpretar e entender a situação que estamos vivendo. Uma sugestão é que pais e mães se preocupem em criar um ambiente de leitura em casa. Para isso, é preciso ter livros, dar exemplos e criar uma rotina adequada para as crianças. Se não tiver a organização e um adulto por perto, elas vão ficar o dia inteiro na frente das telas.

O que fazer quando a família não tem muitos livros infantis? Nesse cenário de isolamento social, com bibliotecas e espaços de leitura fechados, uma saída pode ser procurar opções gratuitas na internet. Um exemplo é a Coleção Barco a Vapor: todas as 15 obras infantis e juvenis estão disponíveis para download gratuito.

O que a senhora tem a dizer sobre o Enem? A partir da pressão dos movimentos sociais, tivemos uma vitória com o adiamento do Enem. É importante destacar que não adianta só adiar o Enem em um mês ou dois meses, pois o problema de falta de acesso a ambientes de estudo por parte dos jovens da periferia continua existindo. É preciso dar condições iguais, garantir o acesso à internet para todos, para que esse jovem da periferia possa estudar e tenha as mesmas condições de fazer a prova que um jovem de classe média, por exemplo. Quanto mais o Enem for equitativo, melhor. Atualmente, não podemos esperar o mesmo desempenho de jovens de escolas públicas e particulares, uma vez que estão em situações completamente diferentes e ainda mais desiguais de acesso à informação. Não podemos parar de discutir essa desigualdade brutal em que o Brasil vive.

O que a senhora pensa sobre consultar os estudantes para a construção de novas lógicas de aprendizagem? Quando pensamos em educação integral, imediatamente temos o aluno como protagonista. Precisamos escutar e dialogar mais com os alunos, ter rodas de conversa, criar vínculos constantemente, como parte da rotina escolar. Nós, educadores, precisamos levar o aluno mais em consideração. Acho de extrema importância perguntarmos como, neste momento, eles estão estudando, em quais condições, com quais dificuldades. Isso é essencial no processo de criar vínculo com esse estudante, manter uma proximidade para que, quando as aulas sejam retomadas, não haja tanta evasão escolar.

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